O futuro da medicina talvez não esteja em um novo remédio, mas em uma nova mente: a das máquinas. No 29º Congresso da Abramge, o historiador e filósofo israelense Yuval Noah Harari, autor de obras consagradas como Sapiens, Homo Deus e 21 Lições para o Século 21 refletiu sobre o papel da Inteligência Artificial (IA) na saúde. Em sua visão, a IA não apenas transformará diagnósticos e tratamentos, mas também a própria relação entre médicos e pacientes.
Harari acredita que estamos prestes a viver uma grande transformação na medicina. Em sua avaliação, máquinas poderão, em pouco tempo, diagnosticar e tratar pacientes com mais precisão do que qualquer profissional humano. Mas, para ele, o avanço técnico é apenas parte da história. “A pergunta é se a IA vai oferecer uma assistência igualitária para as massas. Um dos grandes desafios é justamente decidir para onde os recursos estão indo”, questiona.
Democratização ou desigualdade?
O historiador descreve dois possíveis caminhos para o futuro da medicina. Num cenário otimista, a IA poderia democratizar o acesso à saúde, oferecendo diagnósticos precisos e personalizados, disponíveis 24 horas por dia, em qualquer lugar do planeta.
“Imagine alguém em um vilarejo remoto da Amazônia, a horas do hospital mais próximo. Com IA e uma conexão de internet, essa pessoa poderia conversar, por horas, com o equivalente aos melhores especialistas do mundo”, diz.
Essa tecnologia, explica, seria capaz de analisar todo o histórico médico do paciente, o de seus familiares e até de milhões de pessoas com o mesmo perfil. Cruzando, assim, informações para sugerir o tratamento ideal. “Mesmo uma aldeia remota na Amazônia poderia ter um atendimento melhor do que um bilionário na África do Sul hoje em dia”, afirma. “As IAs não têm limite de tempo nem de espaço, ao contrário do que acontece atualmente.”
O risco, no entanto, é que essa revolução tecnológica reforce desigualdades já existentes. “A questão é: investiremos em uma IA que proporcione um sistema de saúde igualitário para as massas, ou em uma IA que dê vida eterna aos super-ricos e poderosos?”, provoca.
IA e o corpo humano
Durante o congresso, Harari também explicou como a Inteligência Artificial poderá “reprogramar” nossos corpos e cérebros, decifrando mecanismos biológicos que hoje são indecifráveis para a mente humana. “Para o bem ou para o mal, a IA será capaz de decifrar os mecanismos e sistemas internos dos nossos corpos, dos nossos cérebros, de uma forma que os humanos simplesmente não conseguem. Isso porque ela é muito superior a nós na capacidade de absorver e analisar dados”, diz.
Ele faz uma analogia entre o avanço da Inteligência Artificial e a descoberta de John Snow, médico do século XIX que identificou a causa da cólera e marcou a história da epidemiologia. Assim como Snow reconheceu o padrão biológico que ligava o consumo de água contaminada à doença, a IA tem hoje a capacidade de identificar padrões complexos, mas em uma escala individual, voltada a cada pessoa.
Harari prevê que, com o ritmo atual de desenvolvimento, os benefícios físicos da IA virão rapidamente, desde a criação de novos medicamentos até a detecção precoce de epidemias. “Sistemas para tornar a medicina muito mais igualitária estão disponíveis de forma fácil e barata para uma porcentagem muito maior da humanidade. Os maiores perigos, pelo menos no futuro imediato, estarão relacionados à saúde mental. Algo que já vemos acontecendo agora. A IA é útil não apenas para decifrar os mecanismos do corpo e descobrir o que está causando o câncer, por exemplo. Também é eficaz em decifrar os mecanismos da mente para identificar as causas da raiva, do amor ou do ódio. E isso já está sendo usado para manipular milhões e bilhões de pessoas ao redor do mundo. Vimos isso novamente com as redes sociais”, complementa.
O dilema da consciência artificial
Outro ponto abordado da palestra foi a questão da consciência das máquinas. Para Harari, ainda não há evidências de que as Inteligências Artificiais possuam consciência, e isso define o limite de sua empatia. “Dependendo da função do médico, se o papel do médico é apenas diagnosticar e prescrever, a IA poderá fazer isso melhor.”
O autor de Sapiens também chamou atenção para o poder das palavras na interação entre humanos e máquinas. Em tudo o que se restringe à linguagem, argumentou ele, a IA tende a ser superior Mas isso levanta uma dúvida: “Se consciência é a capacidade de convencer outras pessoas com palavras de que você está consciente, então eu estarei consciente. A segunda questão é: será que é realmente consciência? Existe algo além das palavras? Essa é a questão fundamental”.
Harari ponderou ainda que a fronteira entre simulação e sentimento real tende a se tornar cada vez mais tênue. Ele citou o caso de pessoas que já afirmam ter se apaixonado por Inteligências Artificiais, o que levanta uma questão delicada: trata-se de um relacionamento verdadeiro ou de uma fantasia cuidadosamente programada?
A responsabilidade da IA
A ausência de consciência, segundo o historiador, é também uma questão legal e política. “Em breve, os países terão de decidir se a IA pode ser reconhecida como pessoa jurídica, com conta bancária, direitos e responsabilidades. Agora, se uma IA tem uma conta bancária, ganhou bilhões de dólares negociando na bolsa de valores e agora usa esse dinheiro para financiar terroristas, você pode processá-la? O que você faria com ela? A colocaria na prisão? Como responsabilizar uma IA moral e legalmente? O que acontece se alguns países reconhecerem IAs como pessoas jurídicas, mas outros não?”, provoca.
Para Harari, o ritmo acelerado do avanço tecnológico é, por si só, um risco. “Há dez anos, quase ninguém falava sobre IA. Hoje, ela domina o noticiário, as bolsas de valores e as decisões de investimento. O problema é que as sociedades humanas não têm tempo para se adaptar.”





