A IA já não é uma promessa distante para a indústria musical e já está, de fato, dentro do estúdio. Um estudo global conduzido pela Water & Music em parceria com a Moises, com mais de 1.500 músicos, revela que a adoção da tecnologia é liderada por profissionais, desmontando a narrativa de que a IA seria uma ferramenta restrita a iniciantes ou amadores.
Segundo o levantamento, 78% dos músicos profissionais (cerca de 8 em cada 10 profissionais) utilizaram IA no último ano, contra 60% dos “hobbistas” (pessoas que praticam música por interesse pessoal, prazer ou lazer). O dado evidencia que quem depende financeiramente da música está mais disposto a incorporar novas tecnologias ao processo de trabalho.
Mais do que substituir a criatividade, a IA vem sendo utilizada como uma extensão das capacidades humanas, um novo “instrumento” na jornada artística.
IA como ferramenta, e não como atalho
Apesar de muitas artistas, músicos e puristas inflarem o debate público, frequentemente associando a IA à automação criativa, o estudo aponta um uso muito mais pragmático. A principal aplicação pela maioria dos profissionais não é a geração de músicas completas, mas sim tarefas operacionais que facilitam o fluxo de trabalho.
Essa dinâmica revela um ponto crucial: a tecnologia está sendo usada para potencializar a criação, e não para substituí-la.
Crescimento profissional impulsionado por IA
Os ganhos percebidos pelos músicos também vão além da eficiência operacional.
A pesquisa mostra que a IA tem impacto direto no desenvolvimento artístico:
- 40% afirmam que aprenderam mais músicas com o uso da tecnologia;
- 33% experimentaram novos gêneros;
- 30% melhoraram a qualidade da produção.
A separação de stems (isolamento de instrumentos ou vocais) lidera com 71% de adoção, quase três vezes mais do que a criação de músicas completas por IA (24%). Essa técnica auxilia muito no estudo musical, além de acelerar processos de pesquisas, ajustes técnicos e de repertório.
Além disso, entre músicos que monetizam seu trabalho, 26% relatam aumento de renda com o uso de IA, enquanto menos de 4% observaram queda.
O paradoxo da confiança
Mesmo com a adoção crescente, a relação com a IA ainda é marcada por ambivalência. Mais da metade dos usuários (58%) demonstra preocupação com autenticidade, enquanto 55% citam questões de direitos autorais e licenciamento.
Ainda assim, 92% recomendariam o uso de ferramentas de IA para outros músicos, um indicativo claro de que valor e risco coexistem.
Quem lidera a transformação
Um dos dados mais relevantes do estudo é a inversão de expectativa. Não são os iniciantes que puxam a inovação, mas os profissionais.
Além de maior adoção, eles também investem mais. Músicos profissionais têm o dobro de probabilidade de gastar mais de US$ 50 mensais com ferramentas de IA.
O comportamento reforça um padrão já observado em outros setores: tecnologias emergentes ganham tração quando geram valor direto para quem depende delas economicamente.
Principais achados do estudo
- 78% dos músicos profissionais usam IA, contra 60% dos amadores.
- 71% utilizam IA para separação de stems (principal uso).
- Apenas 24% usam IA para gerar músicas completas.
- 26% dos músicos que monetizam viram aumento de renda.
- 40% aprenderam mais músicas com apoio da IA.
- 58% têm preocupações com autenticidade.
- 55% apontam riscos ligados a direitos autorais.
- 92% recomendariam o uso de IA para outros músicos.
- Profissionais investem até 2x mais em ferramentas de IA.
Mercado em transformação e impacto no CX
Embora os dados indiquem crescimento consistente, vale mencionar possíveis vieses: cerca de 80% dos respondentes vieram da base de usuários da própria Moises, o que pode inflar a percepção de adoção.
Ainda assim, o estudo oferece um retrato relevante de um segmento já imerso no ecossistema de IA e aponta tendências que tendem a se expandir.
O avanço da IA na música acende um alerta para um movimento maior que vai além da indústria criativa. Ele antecipa transformações profundas na experiência do consumidor.
Primeiro: há uma mudança na lógica de valor. O foco deixa de ser apenas o produto final (a música) e passa a incluir o processo, a personalização e a experimentação. Isso abre espaço para experiências mais interativas, cocriativas e sob demanda para quem trabalha com produção musical.
Segundo: o estudo evidencia um comportamento típico do consumidor contemporâneo, a adoção pragmática. O interesse não é apenas na tecnologia em si, mas no valor que ela entrega, seja em eficiência, aprendizado ou personalização.
Por fim, o paradoxo entre adoção e desconfiança aponta para um desafio central na experiência do cliente: construir confiança em ambientes mediados por IA.
É nesse cenário de produtividade extrema, urgência, transparência, ética e controle do usuário, elementos-chave da experiência, que o CX caminha lado a lado com a IA.





