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Diagnóstico em pauta: IA, integração de dados e humanização são peças-chave

Diagnóstico em pauta: IA, integração de dados e humanização são peças-chave

CEOs destacam a força da medicina diagnóstica na prevenção, no uso racional de recursos e na transformação da jornada do paciente.
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Foto: Imprensa

Com o envelhecimento da população, o avanço das doenças crônicas e o crescimento das tecnologias voltadas à prevenção, o setor de Medicina Diagnóstica se movimenta para reforçar sua relevância estratégica no sistema de saúde brasileiro. Um levantamento da Associação Brasileira de Medicina Diagnóstica (Abramed) mostra que, só em 2024, as associadas da entidade realizaram mais de 1 bilhão de exames. O número representa um aumento de 15,7% em relação ao ano anterior.

“A Abramed tem se proposto a pautar discussões propositivas para o setor. Sabemos que a saúde, e a medicina diagnóstica em especial atravessou momentos muito difíceis nos últimos anos. Não dá para fingir que foi fácil. Mas seguimos firmes”, diz Cesar Nomura, presidente do Conselho da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês. “E é muito positivo poder analisar os números apresentados, que mostram não apenas a resiliência, mas a relevância crescente da medicina diagnóstica no cuidado com a saúde.”

Medicina Diagnóstica em alta

O crescimento mais expressivo se deve às análises clínicas. Elas saltaram de 830 milhões de exames em 2023 para 974,1 milhões em 2024, um acréscimo absoluto de 143,7 milhões de exames, ou 17,3%. Já os exames acessados por meios eletrônicos dispararam. Foram 97,1 milhões neste ano, contra 26,4 milhões no anterior, alta de 267%.

Os dados mostram um movimento de expansão da Medicina Diagnóstica, que vai além do volume: passa pela digitalização, integração com outros elos da saúde e por uma atuação mais ativa na gestão da jornada do paciente.

Este foi o ponto de partida do encontro Diagnóstico em Pauta, promovido pela Abramed. O painel reuniu nomes de peso do setor: Jeane Tsutsui, CEO Grupo Fleury; Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin; Rafael Lucchesi, CEO da Dasa, e Henrique Neves, diretor-geral do Hospital Israelita Albert Einstein. A conversa contou com a moderação de Cesar Nomura, presidente do Conselho da Abramed e diretor de Medicina Diagnóstica do Hospital Sírio-Libanês.

A discussão teve como pano de fundo o aumento da longevidade, a pressão sobre os sistemas de saúde, e a crescente importância da prevenção e da tecnologia na jornada do paciente. Para os executivos, o diagnóstico não é apenas uma etapa complementar. Mas, um pilar decisivo na cadeia de cuidados, impactando cerca de 70% das decisões clínicas e respondendo por aproximadamente 20% do custo total da saúde suplementar. Percentual que se mantém estável desde 2018.

Diagnóstico é também estratégia

Jeane Tsutsui, CEO Grupo Fleury.

“O exame complementar é fundamental na tomada de decisão”, afirma Jeane Tsutsui, CEO do Grupo Fleury. Segundo ela, o setor vai além da simples entrega de resultados: “Nós discutimos casos, avaliamos resultados críticos, fazemos assessoria médica para casos complexos. Só no ano passado, foram quase 100 mil assessorias médicas realizadas pelo Fleury”.

Ela também destaca que a atuação da medicina diagnóstica ocorre em todos os níveis de atenção – primária, secundária e terciária. E, defende o papel da especialidade na prevenção e no diagnóstico precoce, que, segundo dados da empresa, contribui para a redução do custo total da saúde.

Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin, reforça que os médicos reconhecem o valor da medicina diagnóstica, principalmente quando precisam tomar decisões rápidas e precisas com o paciente à frente. No entanto, ela chama atenção para a pressão sobre o setor gerada pela alta sinistralidade das operadoras, que pode levar a uma visão distorcida da real contribuição dos exames diagnósticos.

Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin.

“Temos um desafio enorme com o envelhecimento populacional. Se não olharmos para a prevenção, nosso sistema não será sustentável”, alerta.

Para Lídia, a interoperabilidade de dados entre serviços públicos e privados é essencial para ganhar eficiência e beneficiar o paciente. “O compartilhamento de informações ainda é limitado, mas traz um potencial enorme para reduzir desperdícios e ampliar o acesso”, defende.

Ela também destacou o problema do under use, ou subutilização de exames, que pode gerar custos ainda maiores ao sistema quando impede o diagnóstico precoce.

Equidade, coordenação e informação

Recém-chegado à liderança da Dasa, Rafael Lucchesi compartilha a visão do grupo, que realiza cerca de 400 milhões de exames por ano. Para ele, o desafio está em conciliar inovação com sustentabilidade. “Temos que seguir inovando, oferecendo testes cada vez mais especializados e acessíveis desde o início da jornada do paciente. Mas, o desafio do setor é fazer tudo isso de forma sustentável.”

Lucchesi ressalta que, embora o volume de exames tenha crescido, a receita das empresas não acompanha na mesma proporção. “A produtividade aumenta com a tecnologia, mas os ganhos estão sendo absorvidos pela cadeia. Equipamentos mais modernos hoje, além da precisão, permitem testes mais baratos, e isso tem ampliado o acesso ao exame de qualidade. Isso vem movimentando o setor como um todo para ser um setor mais completo, com mais qualidade, tanto na esfera privada quanto na pública.”

Henrique Neves, diretor do Hospital Albert Einstein, trouxe dados que expõem a inequidade no acesso aos exames diagnósticos. Ele cita um estudo comparando os desfechos de câncer de mama e próstata em pacientes do Einstein Morumbi e do hospital público Vila Santa Catarina. “Enquanto os pacientes do Einstein chegam aos estágios 1 ou 2 da doença, no hospital público chegam aos estágios 3 ou 4. A chance de sobrevivência muda radicalmente.”

Para ele, enfrentar essa desigualdade exige uma integração mais efetiva entre atenção primária, especialidades e hospitais. Isso passa por sistemas de informação integrados, protocolos de comunicação entre os níveis de atenção e equipes multidisciplinares com coordenação de cuidado. “Sem coordenação, o paciente migra entre os níveis de forma desordenada, perdendo etapas.”

Tecnologia, IA e personalização na saúde

A Inteligência Artificial, está transformando a prática médica. “No Einstein, o prontuário do paciente é varrido por IA antes da consulta. O médico já tem um sumário com os principais dados e não precisa começar do zero. A conversa é registrada automaticamente, e ele pode gerar um sumário técnico ao final”, explica Neves.

A medicina de precisão também foi mencionada como um avanço que permite diagnósticos mais assertivos. No entanto, os especialistas foram unânimes ao afirmar que a incorporação de tecnologia deve ser feita com responsabilidade. E sempre com foco no benefício clínico real para o paciente.

O avanço da IA e de novas tecnologias na saúde também esteve em pauta, no contexto da personalização do cuidado e da humanização do atendimento. “Tecnologia é meio. No começo e no fim, estão as pessoas”, afirma Lídia Abdalla, CEO do Grupo Sabin. Para ela, os ganhos de produtividade e precisão trazidos pela IA liberam tempo dos profissionais para que se dediquem mais ao paciente. “Hoje, conseguimos reduzir o tempo do exame, evitar repetições e melhorar o conforto. Isso também é humanizar.”

A executiva defende que o uso responsável da tecnologia depende menos da máquina e mais da cultura das instituições. “É sobre investir em capacitação contínua e reforçar o valor da escuta, da presença e do cuidado atento.”

Já Jeane Tsutsui, do Fleury, destaca que a IA já está amplamente incorporada ao diagnóstico, com mais de 50 soluções ativas, muitas voltadas à eficiência e à experiência do paciente. “Algoritmos que leem pedidos médicos e reduzem o tempo de atendimento, por exemplo, agilizam o processo sem tirar o toque humano.”

Dados como chave na saúde

Ela também alerta para a importância de equilibrar investimentos e retorno, diante do atual cenário macroeconômico. E reforça a necessidade de educação sobre o uso ético de dados. “Isso deve ser muito bem equacionado pelas instituições”, pontua.

O consenso entre os executivos é que a integração de dados em saúde é o próximo passo para transformar o setor. Lucchesi, da Dasa, reforça que é preciso criar uma base de dados unificada e com governança clara. “Hoje, o médico recebe apenas parte das informações. Com uma base completa, a tecnologia pode antecipar diagnósticos e tornar a consulta mais eficiente. Mas, é preciso respeitar a LGPD e construir esse ecossistema com responsabilidade.”

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