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CM Entrevista: “O modelo tradicional de crédito no Brasil precisa ser transformado”

CM Entrevista: “O modelo tradicional de crédito no Brasil precisa ser transformado”

Vice-presidente da FGV analisa os impactos da inflação, dos juros altos e da digitalização no endividamento das famílias, e defende uma revolução no sistema de crédito.
CM entrevista “O modelo tradicional de crédito no Brasil precisa ser transformado”, diz Marcos Cintra, da FGV
CM entrevista “O modelo tradicional de crédito no Brasil precisa ser transformado”, diz Marcos Cintra, da FGV

O crédito desempenha um papel central na economia brasileira. Ele funciona como alavanca para o consumo e crescimento, e ainda como termômetro da saúde financeira das famílias. Em um cenário de inflação acima da meta, juros elevados e perda de poder de compra, cresce a preocupação com o aumento da inadimplência e a sustentabilidade do modelo atual de concessão de crédito. Mesmo com os avanços da digitalização e a popularização de ferramentas de controle financeiro, milhões de brasileiros seguem enfrentando dificuldades para equilibrar o orçamento e manter as contas em dia.

Neste contexto, Marcos Cintra, economista e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), analisa os principais desafios do cenário econômico atual e os impactos sobre o endividamento das famílias. Ele também discute como novas modalidades de pagamento, como o BNPL (Buy Now, Pay Later), e o imediatismo digital afetam a saúde financeira da população.

Apesar dos avanços na digitalização financeira e da popularização de ferramentas de controle de gastos, como aplicativos de finanças pessoais, bancos digitais e carteiras inteligentes, a inadimplência continua elevada no Brasil por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais.

Marcos Cintra, economista e vice-presidente da Fundação Getúlio Vargas.

Impacto do crédito no consumo

Consumidor Moderno: Qual é a sua análise sobre o atual cenário econômico do Brasil e seus impactos no poder de compra do consumidor? O que isso influencia no comportamento financeiro?

Marcos Cintra: A economia do País cresceu 1,4% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao quarto trimestre de 2024 e deve fechar este ano com expansão em torno de 2,4%, abaixo da boa média de 3,5% de 2021 a 2024. Por outro lado, o IPCA acumulado em 12 meses, de 5,35%, está muito acima da meta de inflação de 3%, fazendo com que a taxa de juro Selic se posicione em patamar muito elevado.

No mercado de trabalho há bons números, com a taxa de desemprego em níveis historicamente baixos, o que é um fator positivo. Mas, a sensação de aperto no orçamento persiste. A alta dos preços, especialmente de alimentos, impacta negativamente no poder de compra das famílias. Se, por um lado, a inflação limita o consumo dos chamados bens-salário, por outro, as elevadas taxas de juros comprometem a demanda por bens duráveis e tendem a aumentar o nível de endividamento das famílias. Essa combinação, ao reduzir o poder de compra, leva a mudanças no comportamento financeiro dos consumidores.

Em resumo, o cenário econômico brasileiro, embora apresente sinais positivos em alguns indicadores, enfrenta desafios que afetam o poder de compra do consumidor. Isso leva a um comportamento mais cauteloso e racional nas decisões de compra, com priorização de gastos essenciais e busca por alternativas mais econômicas.   

CM: Na sua visão, quais fatores explicam o crescimento da inadimplência mesmo em um contexto de digitalização financeira e maior acesso a ferramentas de controle de gastos?

Apesar dos avanços na digitalização financeira e da popularização de ferramentas de controle de gastos, como aplicativos de finanças pessoais, bancos digitais e carteiras inteligentes, a inadimplência continua elevada no Brasil por uma combinação de fatores estruturais e conjunturais. Um dos principais fatores se refere a taxa de juros real, que segue elevada, o que encarece o crédito. Além disso, produtos de crédito como o rotativo do cartão e o cheque especial continuam sendo amplamente usados por uma parcela vulnerável da população, muitas vezes sem pleno entendimento do custo envolvido.

Importante citar também que, embora o acesso à informação tenha aumentado, o uso efetivo das ferramentas financeiras requer uma base mínima de educação financeira. Muitos brasileiros ainda não têm o hábito de planejar o orçamento, comparar custos de crédito ou entender a diferença entre preço à vista e financiado. Outro item que cabe citar é que a digitalização trouxe agilidade, mas também aumentou a exposição ao crédito fácil, muitas vezes sem avaliação adequada da capacidade de pagamento do consumidor. A concessão de crédito por canais digitais e fintechs, embora positiva em termos de inclusão, pode contribuir para o superendividamento.

Por fim, eventos como reajustes inesperados de preços administrados (energia, combustíveis), perdas de renda temporária ou gastos imprevistos (como saúde ou educação) também contribuem para o desequilíbrio orçamentário e o crescimento da inadimplência.

Riscos e transformação

CM: O crescimento de modalidades como BNPL (Buy Now, Pay Later) e o imediatismo digital aumentam o risco de inadimplência no Brasil? Qual a sua visão sobre isso?

Sim, o crescimento de modalidades como o BNPL e o imediatismo digital pode, de fato, aumentar o risco de inadimplência no Brasil. Especialmente em um cenário de fragilidade econômica, alto endividamento das famílias e educação financeira ainda limitada para boa parte da população. O avanço dessa modalidade e o imediatismo digital têm um papel duplo: democratizam o acesso ao consumo, mas exigem maturidade financeira para não se tornarem armadilhas de endividamento. Em um contexto de inflação, juros altos e renda pressionada, esses fatores ampliam a vulnerabilidade do consumidor e podem contribuir para o aumento da inadimplência – especialmente entre jovens e classes de menor renda.

CM: O crédito é um fator crucial para o consumo e crescimento econômico. Você acredita que o modelo tradicional de concessão de crédito está esgotado no Brasil?

O modelo tradicional de crédito no Brasil ainda é altamente baseado em garantias formais, score de crédito e histórico bancário, o que exclui milhões de brasileiros do acesso ou os coloca em condições extremamente onerosas. Isso leva a taxas de juros elevadas, mesmo em modalidades consideradas “seguras”, como o consignado ou o financiamento de veículos, porque o risco percebido é alto e a inadimplência estrutural é significativa. O crescimento de fintechs, bancos digitais, e crédito baseado em dados alternativos (como comportamento digital, histórico de PIX, e outros) mostra que há uma busca por modelos mais dinâmicos e personalizados.

O próprio Open Finance e o Cadastro Positivo caminham nesse sentido: compartilhar dados mais amplos e atualizados para melhorar a avaliação de risco e a oferta de crédito sob medida. O modelo tradicional de crédito no Brasil não está completamente superado, mas claramente precisa ser transformado. A realidade socioeconômica do País exige formas mais flexíveis, inclusivas e inteligentes de concessão de crédito, baseadas em dados mais amplos, tecnologia e compreensão mais profunda da capacidade de pagamento real dos indivíduos.

Crédito 4.0

CM: Qual o papel dos dados alternativos e do “score invisível” para promover o Crédito 4.0? E qual a importância dessa inteligência sobre o consumidor para a recuperação do crédito e redução da inadimplência?

A utilização de dados alternativos e o conceito de “score invisível” são peças-chave para viabilizar o chamado Crédito 4.0 – uma nova abordagem de concessão de crédito baseada em inteligência de dados, tecnologia e inclusão financeira. Eles são especialmente relevantes no contexto brasileiro, marcado por alta informalidade e exclusão do crédito tradicional.

Resumindo, são fundamentais para um sistema de crédito mais inteligente, inclusivo e sustentável. Eles transformam o modelo de crédito reativo e excludente em algo proativo e personalizado, com potencial de ampliar a base de tomadores, reduzir a inadimplência estrutural e fomentar o crescimento econômico com inclusão.

CM: Como o crédito pode ser um instrumento de inclusão e estímulo ao consumo consciente no Brasil?

O crédito, quando bem desenhado e utilizado, pode ser um instrumento poderoso de inclusão financeira e promoção do consumo consciente. Especialmente no Brasil, onde milhões de pessoas ainda enfrentam barreiras no acesso ao sistema financeiro tradicional.

No Brasil, o crédito pode – e deve – ir além do financiamento do consumo imediato. Ele tem potencial para ser inclusivo, ao integrar populações fora do sistema tradicional; responsável, ao ser ofertado com base em dados, perfil e capacidade de pagamento; e transformador, ao apoiar educação, geração de renda e consumo consciente. No entanto, isso exige ações combinadas entre setor público, instituições financeiras, fintechs e sociedade civil: com regulação adequada, inovação tecnológica e educação financeira contínua.

CM: Quais setores da economia tendem a ser mais beneficiados por uma evolução do crédito no Brasil e quais podem ser mais impactados caso a inadimplência continue alta?

A evolução do crédito no Brasil pode ter efeitos assimétricos entre os setores econômicos – beneficiando fortemente segmentos ligados ao consumo e investimento quando o crédito é acessível e sustentável, mas afetando negativamente setores mais sensíveis ao risco de inadimplência em cenários de endividamento elevado. Alguns dos setores que poderiam ser beneficiados com a evolução do crédito são o comércio varejista, construtoras e fintechs. Por outro lado, a manutenção da alta inadimplência afetaria negativamente o comércio varejista, a construção civil e segmentos de prestação de serviços como telecomunicações e educação.

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