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CM Entrevista: O crédito consignado pode ser um gatilho para o superendividamento

CM Entrevista: O crédito consignado pode ser um gatilho para o superendividamento

Para a advogada Renata Abalém, diretora jurídica do Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte (IDC), o crédito consignado representa um risco de endividamento quando mal utilizado.
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Foto: Shutterstock

Com 77 milhões de brasileiros inadimplentes, segundo a Serasa Experian, cresce o número de pessoas que recorrem ao crédito para manter as contas em dia ou simplesmente sobreviver. O crédito consignado, por oferecer juros mais baixos e desconto direto na folha de pagamento, tem se popularizado. No entanto, o que deveria ser uma ferramenta pontual, está virando armadilha de longo prazo.

Renata Abalém, diretora jurídica do Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte (IDC).

Segundo levantamento da CNDL e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, 14% dos entrevistados contrataram crédito consignado nos últimos 12 meses. A modalidade fica atrás apenas do empréstimo pessoal (23%) e do uso do cartão de crédito (17%). O estudo também aponta que 45% dessas operações foram feitas em bancos digitais, e 43% em bancos tradicionais.

A advogada Renata Abalém, diretora jurídica do Instituto de Defesa do Consumidor e do Contribuinte (IDC) e integrante da Comissão de Direito do Consumidor da OAB/SP, alerta que o crédito consignado pode se tornar um gatilho para o superendividamento quando mal utilizado.

“Apesar de parecer uma solução segura, o consignado representa um risco real quando é usado para cobrir gastos do dia a dia ou garantir a sobrevivência, em vez de servir para a reorganização financeira. O problema se agrava quando há acúmulo com outras dívidas, comprometendo mais de 35% ou 40% da renda líquida; quando o contrato é renovado sucessivamente, trocando uma dívida por outra sem resolver a situação; ou ainda quando o crédito é contratado de forma fragmentada em diferentes instituições, muitas vezes sob forte assédio comercial”, explica.

Apesar das taxas mais baixas, o consignado compromete uma parcela fixa da renda, o que limita o orçamento do consumidor e pode agravar sua situação ao longo do tempo. Para evitar arrependimentos, ela recomenda sempre fazer um diagnóstico financeiro antes de assumir qualquer contrato. “Crédito não é milagre. É dívida”, resume.

Erros comuns na contratação

Entre os deslizes mais frequentes, Renata destaca:

  • Focar apenas no valor da parcela e não no Custo Efetivo Total (CET);
  • Aceitar ofertas não solicitadas, como depósitos automáticos;
  • Ignorar o limite da margem consignável;
  • Assinar contratos sem ler com atenção, especialmente em ligações ou canais digitais;
  • Não comparar opções ou buscar orientação prévia.

“Penso que a contratação de crédito tem que ser medida, muito estudada, e o consumidor tem que estar bem ciente do que está contratando e da sua real necessidade. Tem que estar atento e exigir o envio do contrato por escrito (inclusive para contratações feitas por telefone); precisa evitar contratar crédito por impulso ou por insistência de correspondentes bancários”, resume.

Assédio comercial e violência financeira

A pressão para contratar consignado é intensa, principalmente entre aposentados e pessoas de baixa renda. São comuns as ligações diárias, mensagens, visitas e até depósitos não solicitados em conta.

“Trabalhadores e aposentados são bombardeados por ofertas. Isso caracteriza uma violência financeira, que leva à contratação sem necessidade, sem clareza e sem real compreensão dos termos”, afirma Renata.

Ela considera esse tipo de abordagem uma das maiores falhas de proteção ao consumidor e recomenda:

  • Bloquear contatos indesejados pelo site www.naomeperturbe.com.br;
  • Exigir simulações claras com CET antes de assinar;
  • Registrar provas das ofertas (gravações, prints);
  • Buscar o Procon ou a Defensoria Pública em caso de suspeita de fraude.

Limite que não protege

A legislação estabelece que até 35% da renda pode ser comprometida com o consignado, com 5% extras para cartão consignado. Mas, na prática, esse teto não tem impedido o endividamento excessivo.

“Na prática, vemos famílias com até 90% da renda comprometida em dívidas. É uma matemática irreal”, afirma Renata. “Em vez de proteger, esse teto tem contribuído para o superendividamento.”

Ela defende uma atuação mais firme dos órgãos reguladores, como Banco Central, Procons e o Ministério da Justiça, além da criação de varas judiciais especializadas em superendividamento.

Recomendações para o consumidor

Antes de contratar um crédito consignado, Renata recomenda:

  • Fazer um diagnóstico financeiro completo;
  • Avaliar se o crédito é realmente necessário e se existe retorno (quitar dívida mais cara ou investimento);
  • Comparar diferentes propostas, prazos e valores;
  • Não ceder ao impulso ou à pressão de correspondentes bancários;
  • Exigir o contrato por escrito, inclusive em contratações por telefone.

Em caso de assédio ou fraude:

  • Denunciar ao Procon;
  • Solicitar cancelamento imediato com base no artigo 49 do Código de Defesa do Consumidor (direito de arrependimento);
  • Guardar documentos, mensagens e gravações.

A popularização do consignado expõe uma urgência: a de educação financeira acessível e proteção mais rigorosa ao consumidor. O que poderia ser um alívio financeiro virou, para muitos, um ciclo de dívidas e dependência. “Precisamos de regras mais duras contra o assédio comercial, com punições para instituições abusivas; fiscalização mais eficaz sobre a clareza das informações; e campanhas de educação financeira focadas em aposentados e trabalhadores CLT de baixa rendas”, finaliza Renata Abalém.

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