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Longevidade, moradia e saúde: a angústia das classes médias

Longevidade, moradia e saúde: a angústia das classes médias

A expectativa de vida aumentou, mas a renda média geral é incapaz de acompanhar a evolução dos custos de moradia e saúde.
Uma mulher branca e de cabelos grisalhos preso em um coque olha pensativa através de uma janela de sua casa. Ela está sentada em um sofá cinza claro e veste roupas da mesma cor.
Uma mulher branca e de cabelos grisalhos preso em um coque olha pensativa através de uma janela de sua casa. Ela está sentada em um sofá cinza claro e veste roupas da mesma cor.
Foto: Shutterstock.

Colocar em perspectiva os fatores que trazem probabilidade de inquietação social é um exercício complexo, mas necessário. O mundo, em todos os continentes, culturas e mercados, vem registrando aumento de instabilidade social e conturbações da ordem democrática. Boa parte dessa insatisfação reside no desbalanceamento pouco estudado, em perspectiva ampla – para associação de fatores – e em detalhes – para compreensão dos gatilhos de comportamento e definição de políticas públicas e privadas que respondam ao sentimento generalizado de frustração. Tais fatores combinam longevidade (crescimento da população sênior e idosa), explosão dos custos de moradia (aluguel, financiamento e hipotecas), e também de saúde privada (na razão da extrema dificuldade manter saúde pública eficaz para contribuintes em geral).

Os custos da saúde privada aumentam em todos mercados. Os custos de moradia ganharam as alturas. Na Austrália, outrora país dos mais otimistas do mundo, há depressão e frustração, a partir do aumento de mais de 50% no preço dos aluguéis nas principais cidades.

Na zona do Euro, 14 países têm cerca de 30% da população que consomem mais de 40% da renda mensal com despesas de habitação (Eurostat/2023). Já são 12 países nos quais mais de 30% da população vive com hipotecas mensais e seis com esse percentual para mais vivendo de aluguel. O número de proprietários sem despesas mensais vem caindo ano a ano.

O processo se repete nas metrópoles dos Estados Unidos, com São Francisco à frente. O aluguel médio para um apartamento de um quarto na cidade é de $3,498, exigindo uma renda anual de cerca de $139,920 para se adequar à regra de 30% da renda destinada ao aluguel. Em Nova York, o custo de vida é significativamente mais alto que a média nacional e estadual. A habitação em Nova York é 236% mais cara do que a média dos EUA, com o aluguel médio de um apartamento chegando a $4,416 e o preço médio de uma casa em torno de $1,670,540.

Em São Paulo, nos últimos cinco anos, a inflação da moradia registrou 34%, número superior ao IPCA de 22,95%, enquanto o preço dos imóveis, mesmo com uma pandemia no meio do caminho, teve um aumento de 28,54%.

Inflação de saúde e endividamento

O endividamento da classe média é, por extensão, um fenômeno mundial. As pessoas não veem evolução de renda na mesma velocidade da evolução dos custos e então se deslocam para periferias ou zonas sem tanta infraestrutura como a existente nas zonas mais centrais. Em paralelo, não são poucas as cidades do mundo que assistem impassíveis a um processo de gentrificação, ou a substituição de uma população local por outra, com mais recursos e comportamentos distintos, mais “modistas” e com poder de descaracterização do entorno.

Em São Paulo, os bairros de Vila Madalena, Pinheiros, Lapa, Barra Funda, Bom Retiro, Mooca, Ipiranga, Cambuci e Bixiga, bem como no Rio de Janeiro, os bairros Santa Teresa, Lapa, Centro, Copacabana, Ipanema, Leblon, Barra da Tijuca, Tijuca, Flamengo e Botafogo, vêm registrando movimentos de gentrificação. A expulsão da população original, pela elevação do custo de moraria superior à evolução da renda simplesmente reproduz um movimento observado em outras grandes cidades do mundo.

Se morar já representa um custo crescente e em velocidade francamente superior ao aumento da renda média do cidadão, os custos de saúde vão além. Em São Francisco, os custos com saúde estão mais de 30% acima da média nacional dos EUA (país já conhecido pela carência absoluta de serviços de saúde acessíveis à população). Em Nova York, por sua vez, os custos de saúde, também superam a média do país, ainda que em proporção menor que em São Francisco (13%).

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), os gastos com saúde privada aumentaram em média 6,8% ao ano globalmente entre 2000 e 2020, superando o crescimento do PIB global no mesmo período (3,6%). E a consultoria PwC projeta que os gastos globais com saúde privada alcançarão US$ 12 trilhões até 2040, o que representa um aumento de 50% em relação a 2020. No Brasil, os planos de saúde tiveram um aumento médio de 15,5% em 2023, acima da inflação oficial (IPCA) de 5,79%. A ANS (Agência Nacional da Saúde) estima que o mercado de planos de saúde no Brasil movimentou R$ 242 bilhões em 2023.

Pois bem, em São Paulo, o custo de moradia absorve, em média, 36,8% da renda familiar (dados da FIPE), enquanto no Rio de Janeiro, esses custos atingem cerca de 35% (Dados da FIPE e do índice FIPEZAP). Se somarmos o percentual dos custos de moradia aos de manutenção de planos de saúde (cerca de 17% da renda), mais de 50% da renda média está comprometida com fatores absolutamente ligados à qualidade de vida na longevidade (obviamente, na vida toda dos cidadãos, mas o objetivo aqui é outro, focar mais na longevidade). É nítido que a elevação da renda de aposentadorias, pensões, rendas, dificilmente acompanhará a evolução desses dois vetores de custo – moradia e saúde. Ao contrário, a disfuncionalidade da gestão pública, da regulação e a falta de ideias e de inovação em ambos os segmentos está fomentando uma bomba-relógio social.

A experiência da longevidade: paz de espírito ou hipertensão por ansiedade?

Envelhecer com qualidade de vida, com direito a moradia digna, em regiões de infraestrutura funcional – transporte público, boas artérias de distribuição para outras regiões da cidade, comércio variado, segurança, acesso à internet e a saneamento básico – e saúde de qualidade, expresso em postos de saúde, hospitais, laboratórios, bons médicos e clínicas, torna-se um desafio imenso para os formuladores de políticas públicas e para empresas e empreendedores. O fato inescapável é que a desigualdade hoje verificada na restrição de oportunidades para os mais pobres e carentes, vai ganhar escala e dramas mais profundos com o envelhecimento acelerado das populações das cidades mundo afora, Brasil no meio.

É preocupante verificar que não há, no horizonte dos negócios, das startups, dos investimentos e muito menos de políticas públicas, vestígios de boas ideias para enfrentar o problema. É evidente que a previdência pública não tem condições de garantir subsistência à massa crescente de aposentados. E é mais evidente ainda que a casta do funcionalismo público não poderá continuar perpetuando seus privilégios nas pensões por aposentadoria (muito superiores aos valores dos trabalhadores aposentados pela iniciativa privada).

Mais do que inflação baixa, o que os mercados e legisladores devem contemplar agora é aplicar inovação contínua no sentido de provocar redução radical nos custos de saúde, a partir de inteligência de dados, prevenção e cuidado e não nas terapias posteriores, baseadas em diagnóstico e tratamento. E, também, há necessidade de rever os eixos de desenvolvimento para trazer a periferia das cidades ao centro e desenvolver esses mesmos eixos, aumentando a oferta de imóveis em larga escala, a partir de inovação em materiais, financiamentos, projetos e construção.

Estou longe de ser especialista nestes assuntos. Apenas trouxe questões para reflexões a partir dos dados. Vivemos um momento especial, no qual podemos cruzar dados em grande volume e gerar insights em escala inédita. Temos ferramentas e Inteligências Artificiais, para processar dados e insights e oferecer soluções melhores e com maior velocidade do que estamos acostumados. Podemos olhar os dados e enquadrar problemas de forma original e contundente, antecipando eventuais danos maiores, prevendo acontecimentos.

Olhar com mais atenção para a insatisfação latente nas classes médias, preocupadas e, cada vez mais limitadas, sem grande capacidade de poupança, para viver um futuro com renda qualificada, é abrir uma janela de novos negócios. Ao mesmo tempo, é uma forma de dissuadir instabilidade social potencial. As organizações democráticas atuais e os mercados estão preparados para entender esse contexto ou, tanto quanto os eleitores em geral, como diria o filósofo Luiz Felipe Pondé, estão preocupadas apenas com a janta?

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