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O que é alteridade? O “outro” como ponto de partida

O que é alteridade? O “outro” como ponto de partida

Diferente da empatia, alteridade não busca “sentir como o outro”, mas ouvi-lo e evitar suposições, influenciando práticas de consumo.
Diferente da empatia, alteridade não busca “sentir como o outro”, mas ouvi-lo e evitar suposições, influenciando práticas de consumo.
Foto: Shutterstock.
Alteridade é o reconhecimento do outro como alguém irredutível às nossas experiências, exigindo respeito às diferenças sem tentar enquadrá-las. Diferente da empatia, não busca “sentir como o outro”, mas ouvi-lo e evitar suposições, influenciando práticas sociais, políticas e de consumo. Aplicada à inclusão, propõe adaptar a sociedade, e não o indivíduo, promovendo diversidade, acessibilidade e transformação social.

A palavra alteridade vem do latim alter, que quer dizer “outro”. Ou seja, diz respeito, de forma generalizada, ao próximo, individual e coletivamente, significando, por tabela, o conjunto de pessoas que formam nossas sociedades e a humanidade em geral. Contemporaneamente, o conceito ganha força como letramento inclusivo, postura ética e posicionamento político, ao compreender e reconhecer o outro em sua singularidade, sem tentar enquadrá-lo, reduzi-lo, corrigi-lo ou apagá-lo.

Mas é importante irmos além da definição etimológica. Na filosofia, especialmente a partir de autores como Emmanuel Levinas, alteridade não é apenas reconhecer que o outro existe, mas, sim, admitir que ele é irredutível à nossa compreensão. O outro nunca cabe totalmente nas nossas categorias, valores ou experiências. O ponto de partida, portanto, é o respeito e o reconhecimento de um limite: “por mais que eu tente, eu nunca serei o outro e, consequentemente, não conseguirei, de fato, me colocar em seu lugar”.

Este posionamento desloca profundamente a forma como pensamos nossas relações sociais, políticas públicas e até as relações de consumo. Alteridade não é um exercício de sensibilidade e imaginação para tentarmos nos colocar no lugar de alguém. É postura de respeito diante da diferença a partir do nosso próprio lugar!

Hoje, o conceito é compreendido como princípio essencial para lidarmos com a diversidade humana, entendendo que as diferenças não são problemas, mas expressões legítimas da existência. Nos debates mais atuais, especialmente ligados aos direitos humanos e à inclusão, alteridade aparece como um avanço em relação a visões antigas, que tratavam a diferença como algo a ser “normalizado”.

Ao contrário, ela propõe uma mudança de eixo: não é o indivíduo que precisa se adaptar ao mundo, mas a sociedade que deve se reorganizar para acolher todas as formas de existência. Essa perspectiva dialoga diretamente com o chamado modelo biopsicossocial, consolidado pela Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e pela LBI – Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.

Alteridade não é empatia! Embora frequentemente confundidas, alteridade e empatia não são a mesma coisa e essa distinção faz toda a diferença. Empatia é o exercício de tentar se colocar no lugar do outro e imaginar como ele sente e vê o mundo. É algo muito valorizado teoricamente, mas sua prática é questionada por especialistas, que afirmam não ser possível realizar efetivamente essa “transmutação” corpórea, psicológica e sensorial.

E alteridade vai além! Como bem aponta o pensador Martin Buber, o verdadeiro encontro com o outro não acontece quando o interpretamos a partir de nós mesmos, mas quando o reconhecemos como alguém que existe para além de nossa referência. Em outras palavras, empatia é “tentar sentir como o outro sente”, enquanto alteridade é “reconhecer que o outro é diferente de mim e que essa diferença não precisa ser sentida para ser respeitada”.

Na verdade, são dois conceitos muito distintos! Um atendimento empático pode tentar adaptar a experiência do cliente com base em suposições. Já, um atendimento orientado pela alteridade começa escutando, perguntando e, principalmente, evitando pressupostos, pré-condicionamentos e preconceitos em geral. Captou a diferença?

Vamos a um exemplo concreto. Pense em uma pessoa com deficiência visual em um ambiente digital. A empatia poderia levar alguém a imaginar que “deve ser difícil, então, vamos simplificar tudo”. Por outro lado, a alteridade leva a perguntas, não a suposições: “como essa pessoa, com suas próprias estratégias e recursos, interage com esse ambiente, e o que precisamos mudar para garantir-lhe acesso pleno?”. A resposta não está na imaginação, mas na escuta, no aprendizado e no “outro”, não “em mim”!

Quando estive à frente da Secretaria Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo, um dos aprendizados mais marcantes foi justamente esse deslocamento de perspectiva. Em diversas ocasiões, projetos bem-intencionados precisaram ser revistos porque partiam de uma lógica voluntarista, paternalista, pensada “para” as pessoas com deficiência e não “com” elas.

Um episódio marcante foi a reformulação de programas de empregabilidade e inclusão no mercado de trabalho. Inicialmente, nossas iniciativas focavam em “adaptar” o indivíduo à vaga. Aprendemos, ao incorporar a lógica da alteridade, que o movimento se inverteu. Passamos a questionar as barreiras do próprio ambiente empresarial e entender que este, sim, precisava de adaptações.

No contexto da sociedade de consumo, alteridade também tem relevância. Empresas que não compreendem e não respeitam a diversidade de seus públicos tendem a oferecer soluções padronizadas, que excluem, mesmo sem intenção. Paralelamente, organizações que incorporam alteridade como princípio, conseguem melhor interagir e identificar as demandas do mercado, podendo inovar com inteligência e estratégias mais apropriadas.

Ainda existem muitos desafios capacitistas a serem enfrentados visando a plena participação das pessoas com deficiência na sociedade. Mas é justamente a prática da alteridade que pode mudar esta história. Quando deixamos de olhar a deficiência como limitação e passamos a enxergar potencial, diversidade e contribuição, ampliamos não apenas direitos, mas, também, possibilidades e oportunidades.

Recentemente, em evento sobre acessibilidade digital, uma palestrante defendeu energicamente que devemos, em nossos discursos e ações, sempre substituir “empatia” por “alteridade”, por tudo o que mencionamos acima. Faz sentido. Tem lógica e provoca a reflexão! Mas, diante das carências históricas e das demandas urgentes da população com deficiência, talvez ainda precisemos dos dois conceitos. Vamos tentar usar empatia como ponto de aproximação e alteridade como princípio de transformação social!

E, talvez, esse seja o verdadeiro final feliz: entendermos que incluir não é apenas abrir espaço para o “outro”, mas reconhecer que o mundo, desde sempre, deve ser de todos!

Cid Torquato é advogado e Embaixador do ICOM – Plataforma de Intermediação em Língua de Sinais. Foi Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo e Secretário Adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência. Também atua como Coordenador do Núcleo de Inovação em Acessibilidade do InovaUSP e CEO do Prêmio WSA Brasil.

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