Recentemente, vivi uma situação inusitada, que me obrigou a escrever este artigo, com o intuito de esclarecer conceitos e, idealmente, mudar a cabeça de gente “esclarecida”, que, aparentemente de boa-fé, demoniza tecnologias emergentes em nome de um purismo tecnológico sem cabimento, retrógrado e contraproducente.
Contando o “milagre”, sem mencionar o “santo”: um amigo recusou um convite meu para estar conosco no Fórum + Premiação WSA Brasil 2025, alegando que não poderia participar de evento patrocinado por fornecedor de plugin de acessibilidade, pois é eticamente contra o seu uso. Isso principalmente pelo discurso milagreiro e mentiroso com o qual empresas do segmento apresentaram e continuam apresentando as propriedades acessibilizantes de seus produtos.
Peraí! Muita calma e atenção nesta hora. Vamos aos fatos, antes de voltarmos às questões, digamos, éticas.
Nos Estados Unidos, Europa e Ásia, os plugins de acessibilidade, também chamados de overlays, são usados generalizadamente em sites corporativos e de organizações de todos os portes. Tendo como provedores empresas listadas em bolsa, como AudioEye, Level Access e UserWay, bem como as internacionais AcessiBe, EqualWeb, Deque e muitas outras marcas com atuação local, faturando globalmente mais de 1,5 bilhões de dólares, com pacotes de recursos de acessibilidade oferecidos a milhões de usuários satisfeitos. Importante frisar que esses players conquistaram seus espaços em mercados muito mais complexos e com legislações muito mais rígidas do que as brasileiras.
E, aqui, no nosso querido Brasil, como a adoção dessas tecnologias tem evoluído?
Aqui, a coisa tomou outro rumo. Plugins, além de ainda virtualmente desconhecidos da maioria, viraram palavrão para muitos especialistas. Pergunte a um consultor de acessibilidade digital, ao meu amigo, por exemplo, e, infelizmente, em muitos casos, você vai ouvir um sonoro “nunca, jamais!”. É como se fossem, de verdade, como acredita o meu amigo, os vilões da história, promovendo desinformação e entregando aos incautos uma pseudo-acessibilidade incompleta e indesejável, portanto descartável.
Mas, será que realmente merecem esse rótulo e essa ira?
A má fama tem explicação, eu sei! Tempos atrás, quando esse tipo de aplicação começou a aparecer no mercado brasileiro, teve empresa que vendeu plugin como panaceia: bastava instalar um e, pronto, o site ficava 100% acessível na hora! Só que não é bem assim. E esse marketing, em parte enganoso, acabou provocando críticas de muitos profissionais de acessibilidade, que passaram a atacar, de forma generalizada, o uso da tecnologia – e não, como deveriam, a idoneidade da mensagem transmitida por seus vendedores e fornecedores.
Daí, nasceu o estigma que perdura: plugin virou sinônimo de promessa falsa, de enganação. E, como sabemos, recuperar reputação é muito mais difícil do que perdê-la. Portanto, neste contexto, este artigo tem justamente o propósito de reverter a reputação equivocada e apresentar o devido valor dos vários plugins hoje disponíveis no mundo.
Para começarmos, é pacífico que um site, para ser considerado plenamente acessível, tem que ter acessibilidade estrutural em termos de programação, permitindo navegação por teclado e outras funcionalidades fundamentais, recomendadas pelo WCAG do W3C e outras normas internacionais, que os plugins ainda não conseguem alterar e consertar. Ou seja, para garantirmos plena acessibilidade digital, a arquitetura do site deve estar corretamente programada, já que os plugins não corrigem códigos estruturais de programação!
O que os plugins, sim, oferecem é algo que podemos chamar de acessibilidade estendida e assistividade, complementares ao que obtemos somente com a acessibilidade estrutural. Estamos falando de ajuste de contraste e brilho, aumento de fonte, contraste de cores, espaçamento de linhas, leitura em voz, regulagem de volume, tradução em Libras, outras línguas de sinais e outros idiomas, régua de leitura, linguagem simples, várias formas de navegação e muito mais, tudo em poucos cliques.
Para o usuário com necessidades específicas, a amplitude de alternativas é positiva. O idoso que não sabe usar zoom encontra o botão “A+”. A pessoa com dislexia muda para uma fonte mais amigável. O surdo sinalizante ativa um avatar que traduz textos para Libras. É possível escolhermos o nível de dificuldade do texto apresentado no site! Com Inteligência Artificial, imagens sem descrição são automática e devidamente descritas. E o céu é o limite quanto ao que ainda pode ser inventado para ser colocado nessas plataformas! Não conseguem resolver os problemas de acessibilidade estrutural de sites, mas podem produzir um nível de autonomia imediata, com dezenas de ferramentas que fazem a diferença.
Tenho certeza de que você já captou que uma coisa é uma coisa, e a outra coisa é uma outra coisa. Além disso, que uma visão não deveria excluir a outra. Pelo contrário: as questões ora propostas são complementares, em busca de mais acessibilidade e de alternativas viáveis para fazer uso desses recursos assistivos de diferentes formas, sempre com o usuário by design no centro do processo de decisão.
E qual é a melhor estratégia para obtermos o máximo em termos de acessibilidade digital?
Site estruturalmente acessível + plugin de acessibilidade estendida e assistividade = uso inteligente e inclusivo das tecnologias disponíveis!
Muito simples, não é? Por um lado, obediência severa ao nosso novo padrão normativo, tendo como referência a ABNT NBR 17.225; e, pelo outro, acrescentamos uma camada extra de conveniência e personalização, abrangente e versátil, de fácil programação e reprogramação, feita para agregar mais e mais funcionalidades à medida que novas tecnologias vão sendo desenvolvidas, tudo isso por um pequeno fee mensal.
Ou melhor, entre o airbag e o cinto de segurança, fico com os dois! Concorda?
Complementarmente, trazendo ainda mais subsídios, não faz muito tempo, a já tradicional Level Access, símbolo da acessibilidade “raiz”, comprou a UserWay, referência em overlay, por quase 100 milhões de dólares. Por que? Pois vão deixar de valorizar sites essencialmente acessíveis em vista do plugin? Claro que não! Eles sabem que tecnologia é agnóstica e querem ter em seu portfólio oferta de produtos e serviços compatíveis com a complementaridade das visões. Entendem, também, que não faz nenhum sentido demonizar plugins, como se estivéssemos em uma batalha ideológica e como se a questão exigisse uma “escolha de Sofia”, entre um e outro caminho, quando o correto é, com certeza, a somatória dessas possibilidades!
O debate precisa amadurecer para que os negócios em acessibilidade digital possam crescer de forma harmônica e segura. Não há dados sobre o tamanho do mercado brasileiro, mas os números internacionais mostram-nos que os plugins, definitivamente, vieram para ficar! Já vimos que não são panaceia, mas meras ferramentas, que, embora poderosas em acessibilidade e, principalmente, em assistividade, só têm valor quando usadas de forma correta. O que precisamos, no momento, é, novamente, unir esforços e educar o mercado, deixando claro que plugin não corrige site estruturalmente não acessível, mas reúne inúmeras opções e funções, comprovadamente muito úteis para muita gente.
Resumindo, eu diria: primeiramente, temos que garantir que o código esteja bem feito, e o plugin vem depois. Ou melhor, se possível, os dois juntos contemplados desde o início. E não se fala mais nisso!
E para escolher qual serviço contratar e qual é a melhor empresa operando no Brasil?
Entre outras, Perto Digital, Hand Talk, EqualWeb, Rybená e Assistive oferecem produtos de qualidade, com funcionalidades similares, mas que devem começar a se diferenciar significativamente à medida que cresce a adoção de Inteligência Artificial nos seus algoritmos e novos serviços vão sendo criados. Ignorar a importância dessas empresas, só porque alguém “vendeu mal o peixe no passado”, lá atrás, é uma postura retrógrada e injustificável, que nos faz intuir a existência de outras agendas e interesses em jogo.
Enfim, acessibilidade digital não é campo de guerra ideológica, mas de conquistas tecnológicas, onde todo recurso que ajuda, soma. Plugins não são santos milagreiros, nem demônios enganadores, mas, apenas instrumentais assistivos em prol da inclusão digital. Cabe a nós usá-los com responsabilidade, exigir transparência dos fornecedores e cobrar para que eles não parem de inovar em assistividade.
E, agora, desentendimentos esclarecidos, reitero o convite ao meu amigo para reconsiderar e aceitar estar conosco em nossa premiação de inovação digital, quando, é certo, por razões políticas e tecnológicas, vamos promover o plugin do nosso patrocinador, e, por tabela, os atributos assistivos de todo o segmento.
Vale, também, sempre lembrarmo-nos da máxima “nada sobre nós, sem nós“, que coloca, por princípio, a pessoa com deficiência, o usuário final da acessibilidade, não o especialista, como protagonista da decisão sobre qual tecnologia deve e pode ser usada!

Cid Torquato é advogado e CEO do ICOM. Foi Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo entre 2017 e 2021 e Secretário Adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência entre 2008 e 2016. É autor do livro “Empreendedorismo sem Fronteiras – Um Excelente Caminho para Pessoas com Deficiência”.
Caso queira interagir com Cid Torquato sobre esse artigo, use o e-mail [email protected] ou seu perfil nas redes sociais!





