Existe algo de profundamente humano e transformador no ato de um abraço. Em tempos de distanciamento social, ansiedade crônica e relações cada vez mais digitais, o toque físico, especialmente o abraço, torna-se mais do que um simples gesto de afeto. Não por acaso, diferentes culturas, tradições espirituais e até a ciência moderna têm reforçado o poder curativo que existe em um abraço verdadeiro.
Desde o final dos anos 90, quando soube da existência de uma mulher chamada Mata Amritanandamayi Devi, conhecida como Amma ou “Santa do Abraço”, mudei minha percepção sobre esse simples, embora complexo, gesto de carinho e pertencimento.
Ao longo das últimas décadas, Amma já concedeu e se deu mais de 33 milhões de abraços ao redor do mundo! Seu ashram fica no Estado de Kerala e recebe pessoas de todas as nacionalidades em busca de um momento de acolhimento, energia e bênção por intermédio de um simples, mas poderoso, abraço.
Quando visitei a Índia, há cerca de 20 anos, fui até Amritapuri, no sul do subcontinente, esperançoso por um Darshan, nome dado ao encontro com Amma. Sonhava em estar com ela e sentir o poder de seu abraço, que, geralmente, dura entre 20 segundos e 1 minuto, bem como das palavras de carinho que ela murmura em Malayalam, sua língua natal. Tive que desistir, quando constatei que havia milhares de outros “carentes” na minha frente e que a espera poderia demorar dias!
Em 2007, quando ela esteve no Brasil, eu tinha acabado de quebrar o pescoço, sem condições motoras e psicológicas de ir ao seu encontro. Será que ela volta? Não perderia outra chance de me deixar envolver em seu bliss!
Como a experiência com Amma é algo absolutamente impossível para a maioria dos mortais, a boa notícia é que os benefícios do amplexo não dependem de gurus ou mestres espirituais. A ciência contemporânea tem se dedicado a entender o impacto do abraço no corpo e na mente. E os resultados são impressionantes, comprovando efeitos fisiológicos e psicológicos reais e mensuráveis!
Estamos falando de liberação de ocitocina, o “hormônio do amor”, provocando sensação imediata de conexão e segurança; redução do cortisol, o “hormônio do estresse”, ajudando a aliviar a ansiedade, a depressão e o mau humor; redução da pressão arterial e da frequência cardíaca; aumento da imunidade, da recuperação física e da regulação emocional. Tudo isso a partir de um abraço sincero!
Na verdade, sempre senti esse poder e sempre abracei com entusiasmo entes e amigos queridos, deixando-me embarcar por segundos naquele sentimento do título deste artigo e do refrão de conhecida canção cantada por Renato Russo e sua Legião Urbana. Hoje, tetraplégico, sinto falta dessas experiências sensoriais e energéticas, pela própria dificuldade ergonômica que é abraçar e ser abraçado como cadeirante.
Ou seja, pode me enlaçar carinhosa e efusivamente quando me encontrar nas próximas vezes. Vai fazer a diferença!
Existem outras iniciativas na mesma linha, como a “Cuddle Therapy” (ou Terapia do Abraço), que tem seguidores no Brasil e no mundo; inúmeros estudos e livros sobre o tema, como o “Touch“, da psicóloga norte-americana Tiffany Field; terapeutas e mentores que combinam contato físico com yoga, espiritualidades e até sexo! Não será por falta de opções que ficaremos sem o abraço nosso de cada dia.
O importante é termos consciência de que o carinho daqueles que bem queremos é absolutamente fundamental para vivermos uma vida equilibrada e saudável. Abraços diários com pessoas próximas, idealmente cercados de sentimentos genuínos de amor, podem mudar nossas dinâmicas pessoais e, por tabela, ajudar a transformar essa nossa realidade atual, tão carente de calor humano.
O mundo precisa de mais abraços! Seja em um retiro na Índia, em uma sala de terapia no Brasil, na penumbra de algum templo esotérico ou no sofá da nossa casa. O abraço é cura, ciência, espiritualidade e humanidade! Abraçar e ser abraçado, proponho eu, pode ser o gesto mais necessário e revolucionário de nossos tempos.
Então, sempre que puder… Abrace forte!

Cid Torquato é advogado e CEO do ICOM. Foi Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo entre 2017 e 2021 e Secretário Adjunto de Estado dos Direitos da Pessoa com Deficiência entre 2008 e 2016. É autor do livro “Empreendedorismo sem Fronteiras – Um Excelente Caminho para Pessoas com Deficiência”.
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