Quando o Brasil celebrou seu primeiro Dia dos Pais, em 16 de agosto de 1953, a data já representava o encontro entre homenagem e consumo. Idealizada pelo publicitário Sylvio Bhering, então diretor do jornal O Globo e da rádio homônima, a comemoração acabou transferida, nos anos seguintes, para o segundo domingo de agosto.
Neste domingo, 9 de agosto, o País chega à 74ª celebração do Dia dos Pais. Mais de sete décadas depois, a relação entre afeto e consumo permanece, mas o consumidor de 2026 chega à data com orçamento mais limitado, maior preocupação com preços e decisões de compra que se concentram nos últimos momentos.
Dados de diferentes levantamentos realizados para a data ajudam a montar esse retrato. Pesquisa da Hibou Pesquisas & Insights, em parceria com a Score Agency, mostra que 72% dos brasileiros pretendem gastar até R$ 250 com a comemoração.
Ao mesmo tempo, 34% afirmam estar com o orçamento mais apertado neste ano e pretendem gastar menos do que anteriormente.
Mas economizar não depende apenas de reduzir o valor destinado ao presente. Pesquisa do Procon-SP mostra que um mesmo produto pode custar quase três vezes mais, dependendo do estabelecimento escolhido.
E há outro componente nessa equação: o tempo.
Dados da Unlimitail mostram que, embora campanhas e pesquisas comecem semanas antes, uma parcela importante do consumo do Dia dos Pais fica concentrada em apenas 48 horas. Nesse intervalo, algumas categorias vendem entre três e oito vezes acima do ritmo habitual.
Assim, o Dia dos Pais de 2026 reúne três movimentos simultâneos: menos dinheiro disponível, compras concentradas na reta final e grandes diferenças de preços.

Presença ganha espaço diante do presente
A pesquisa da Hibou e da Score Agency ouviu 1.251 brasileiros em julho de 2026. O levantamento tem margem de erro de 2,7 pontos percentuais. Os resultados mostram que a comemoração permanece ligada ao consumo, mas o valor gasto não aparece como principal medida da importância da data.
Para 41% dos entrevistados, estar com todos reunidos é o maior presente. Outros 38% consideram que um bom presente é aquele que cabe no orçamento, enquanto 32% valorizam produtos úteis para a rotina do pai.
O almoço em família também tem um peso importante. Para 33%, ele é um dos elementos que não podem faltar no Dia dos Pais. Respeito aparece para 30%, união para 29% e saúde para 28%. Presentes são mencionados por apenas 12% nesse quesito.
O orçamento ajuda a explicar parte desse comportamento. Para 34% dos entrevistados, há menos dinheiro disponível neste ano. Outros 11% também reconhecem o aperto financeiro, mas pretendem manter a tradição de presentear.
No total, 72% pretendem desembolsar até R$ 250 com tudo o que envolve a comemoração. Apenas 3% esperam gastar mais de R$ 1 mil.
O presente continua na cesta
A contenção dos gastos, entretanto, não significa o desaparecimento do presente. Segundo a pesquisa, 46% pretendem presentear o próprio pai. Outros 32% comprarão algo para o marido ou pai dos filhos, enquanto 18% pretendem presentear o sogro.
Há até espaço para o autopresente: 20% afirmam que comprarão algo para si mesmos.
Entre as categorias escolhidas, vestuário lidera, citado por 74%, seguido por calçados, com 51%, e perfumes, com 42%.
A qualidade aparece como principal fator para decidir a compra, mencionada por 51% dos consumidores. O preço vem em seguida, com 40%, praticamente empatado com a opinião ou o pedido do próprio pai, citado por 39%.
Também existe uma tentativa clara de reduzir o risco de errar. Entre os entrevistados, 56% afirmam buscar descobrir com o próprio pai o que ele gostaria de ganhar.
Shopping ainda lidera
O caminho até o presente mistura canais físicos e digitais. O shopping permanece como destino preferido para a compra, escolhido por 50% dos entrevistados. As lojas virtuais das próprias marcas aparecem com 37%, enquanto marketplaces são citados por 26%.
A internet, porém, desempenha papel importante antes da compra: 44% pesquisam ideias online antes de decidir.
Esse comportamento ganha importância diante das diferenças encontradas pelo Procon-SP.
O órgão pesquisou perfumes masculinos, itens de barbearia, kits para churrasco, ferramentas elétricas e smartwatches em julho. Também levantou os preços dos rodízios em 50 churrascarias da capital paulista.
Entre os produtos, a maior diferença apareceu na máquina de barbear Shaver Kemei TX1 Gold. O produto custava R$ 117,97 no estabelecimento mais barato e R$ 340,67 no mais caro. A diferença chegou a 188,78%.
O smartwatch Galaxy Watch8 de 44 mm apresentou variação de 115,70%, com preços entre R$ 1.598,89 e R$ 3.448,75. Já um conjunto Tramontina para churrasco apresentou diferença de 96,84%. Entre os perfumes, o Joop! Homme Eau de Toilette de 125 ml variou entre R$ 179,90 e R$ 377, diferença de 109,56%.
Na comparação com 2025, o preço médio dos perfumes pesquisados pelo Procon-SP aumentou 7,03%. No mesmo período considerado pelo levantamento, o IPC-SP da Fipe registrou alta de 3,90%.
Almoço de Dia dos Pais está mais caro
Quem pretende trocar o almoço em casa pelo restaurante também encontrará preços maiores. Segundo o Procon-SP, o preço médio do rodízio nas churrascarias pesquisadas na capital paulista passou de R$ 121,18, em 2025, para R$ 142,70 neste ano. O aumento foi de 17,76%.
Além da alta anual, chama atenção a diferença entre estabelecimentos.
Na região central de São Paulo, os preços pesquisados variaram de R$ 49,99 a R$ 265. Isso representa uma diferença de 430,11%.
Compra pode ficar para as últimas 48 horas
Se pesquisar ajuda a economizar, os dados da Unlimitail mostram um comportamento que pode dificultar essa tarefa: parte relevante das compras ocorre muito perto da comemoração.
A análise da joint venture de Retail Media do Grupo Carrefour e do Grupo Publicis aponta que o consumo se intensifica nas 48 horas próximas ao Dia dos Pais.
Nesse período, determinadas categorias chegam a vender entre três e oito vezes acima do ritmo normal. Os dados mostram ainda três movimentos de consumo: a compra do presente individual, a preparação da confraternização familiar e a aquisição de última hora.
No Sam’s Club, por exemplo, a subcategoria Polo Masculina vende sete vezes acima do ritmo habitual nesse período. Cuidados do Homem registra crescimento de oito vezes. No Carrefour, Têxtil Masculino Sazonal apresenta volume de vendas três vezes maior.
A celebração também movimenta produtos que dificilmente caberiam na definição tradicional de “presente”. Churrasqueiras, carnes e carvão entram na cesta porque o consumo do Dia dos Pais também acontece ao redor da mesa.
No Carrefour, a venda de churrasqueiras a carvão chega a oito vezes o ritmo normal. Bovinos de grife para churrasco crescem cinco vezes, enquanto a categoria Açougue registra incremento de R$ 4 milhões no período analisado. No Atacadão, as vendas de carvão chegam a quatro vezes o volume habitual.
O comportamento fica ainda mais evidente em algumas categorias de maior valor.
Segundo a Unlimitail, TVs UHD de 49 e 50 polegadas chegam a vender 46 vezes acima do ritmo normal no período analisado. Cortadores de cabelo alcançam volume oito vezes maior e aparelhos de som portáteis, quatro vezes.
Para Fátima Leal, diretora de agências e parcerias da Unlimitail, as campanhas das semanas anteriores ajudam na construção da lembrança, mas existe uma janela decisiva para a conversão. “Quem não disputa esse momento acaba entregando a conversão final ao concorrente”, afirma.
Afeto, preço e um consumidor mais crítico
Os dados da Hibou e da Score Agency mostram, contudo, que transformar o Dia dos Pais apenas em uma corrida por vendas pode produzir o efeito contrário. Para 27% dos entrevistados, campanhas para a data devem transmitir valores como respeito, amor e diversidade. Outros 25% valorizam a emoção da história apresentada pela publicidade. Promoções e descontos aparecem para 18%.
Além disso, 16% dizem que já se sentiram incomodados com campanhas de Dia dos Pais. Entre eles, 47% apontam como motivo comunicações que tentam “forçar” determinadas situações. Outros 20% relacionam o desconforto a momentos pessoais de vulnerabilidade e 19% à lembrança da perda do pai ou de um filho.
Entre os brasileiros com 55 anos ou mais, a saudade também ganha peso. Nessa faixa etária, 35% associam o Dia dos Pais a esse sentimento.
No conjunto dos entrevistados, 26% veem a data principalmente como uma oportunidade para reconhecer e agradecer aos pais. Outros 24% destacam a reunião familiar. Ao mesmo tempo, 22% consideram o Dia dos Pais apenas mais uma data comercial. E 32% avaliam que a comemoração está ficando mais comercial e mais cara a cada ano.
Depois de 74 celebrações no Brasil, portanto, o Dia dos Pais continua movimentando o varejo. Mas os números de 2026 mostram um consumidor atento não apenas ao que comprar.
Entre orçamento apertado, preços muito diferentes e compras decididas nas últimas horas, pesquisar ganhou importância. Ao mesmo tempo, a própria percepção sobre a data indica outro movimento: para uma parcela relevante dos brasileiros, estar junto continua valendo mais do que o tamanho do presente.





