/
/
Os consumidores também votam e, muitas vezes, votam com a carteira

Os consumidores também votam e, muitas vezes, votam com a carteira

Enquanto o País volta os olhos para as urnas de outubro, decisões de compra, adiamento de consumo e trocas de marca desenham um termômetro paralelo da economia.
Enquanto o País volta os olhos para as urnas de outubro, decisões de compra, adiamento de consumo e trocas de marca desenham um termômetro paralelo da economia.
Ricardo Nunes, fundador da Ricardo Eletro e do Grupo R1.
Foto: Divulgação/Ricardo Nunes.
Todos os dias, o consumidor brasileiro participa de uma eleição silenciosa: compra, adia, troca de marca ou simplesmente para de consumir, e cada gesto sinaliza algo sobre a economia real. Com o PIB crescendo apenas 0,5% no segundo trimestre, Selic ainda elevada e inflação pressionando o orçamento das famílias, esse comportamento se torna um indicador tão relevante quanto qualquer pesquisa eleitoral.


Existe uma eleição que acontece a cada quatro anos nas urnas. E existe outra que acontece todos os dias nas lojas, nos aplicativos, nos restaurantes, nos bancos, nas plataformas digitais e dentro das empresas. É a eleição do consumidor. À medida que nos aproximamos das eleições de outubro, o mercado começa a discutir pesquisas, candidatos, cenários e possíveis mudanças na economia. É natural. Mas, para quem vive o dia a dia dos negócios, existe uma pergunta ainda mais importante: o que o consumidor brasileiro está sinalizando com suas escolhas?

Minha experiência no varejo me ensinou que o consumidor não faz discursos. Ele vota com a carteira. Quando compra, está dizendo que acredita naquele produto, naquela marca ou naquele preço. Quando adia uma compra, está sinalizando insegurança. Quando troca de marca, está dizendo que a relação custo-benefício mudou. E quando deixa de consumir, está mostrando que alguma coisa na economia chegou ao limite. É por isso que acredito que as eleições de 2026 precisam ser observadas também sob a ótica do consumo.

O Brasil chega a esse momento com uma economia que continua crescendo, mas em velocidade menor. O PIB avançou 0,5% no segundo trimestre deste ano, enquanto as projeções do mercado apontam crescimento próximo de 2% para 2026. Ao mesmo tempo, a Selic permanece em patamar elevado e a inflação continua sendo uma preocupação para famílias e empresas. Para o empresário, isso significa uma palavra que vale ouro: previsibilidade. Não precisamos de um Brasil sem problemas. Precisamos de um Brasil em que seja possível planejar. Quem administra uma empresa sabe disso muito bem.

Uma decisão de investimento não acontece porque alguém acordou otimista em uma segunda-feira. Ela envolve crédito, custo de capital, demanda, impostos, contratação, estoque, logística e expectativa de consumo. Quando essas variáveis ficam excessivamente imprevisíveis, o empresário segura o investimento. E quando o investimento é adiado, toda a economia sente. É por isso que o debate eleitoral não pode ficar restrito a nomes e pesquisas. Precisamos discutir projetos.

Qual será a política econômica? Como ficará o ambiente tributário? Haverá estímulo à produção? Como será tratado o crédito? Como o País pretende aumentar sua produtividade? Que condições teremos para gerar empregos e atrair investimentos?

Essas perguntas interessam muito mais ao Brasil produtivo do que qualquer torcida política.

E existe algo que considero ainda mais importante: o consumidor não espera o resultado das eleições para tomar decisões. Ele continua pagando contas. Continua escolhendo onde comprar. Continua comparando preços. Continua buscando crédito. Continua decidindo se troca de carro, reforma a casa, compra um celular, viaja ou simplesmente guarda dinheiro. Esse comportamento é um dos termômetros mais importantes da economia. No varejo, aprendemos rapidamente que confiança é tão importante quanto renda. Um consumidor que acredita no futuro compra de maneira diferente de um consumidor que teme perder o emprego ou enfrentar uma inflação maior. Da mesma forma, uma empresa que acredita no futuro contrata e investe de maneira diferente daquela que está esperando para ver o que acontecerá. É aí que política, economia e comportamento se encontram.

Confiança movimenta consumo. Consumo movimenta empresas. Empresas movimentam empregos. E empregos movimentam novamente o consumo.

É um ciclo. Por isso, vejo as eleições como uma oportunidade para o Brasil discutir esse ciclo com mais maturidade. Não precisamos escolher entre indústria e varejo. Não precisamos colocar serviços contra comércio. Não precisamos tratar empresário e consumidor como lados opostos. Eles fazem parte da mesma cadeia.

Uma indústria competitiva precisa de consumidores. O varejo precisa de indústria. Os serviços precisam de empresas e consumidores. E todos precisam de infraestrutura, crédito, tecnologia, mão de obra qualificada e regras claras. O Brasil tem um mercado consumidor gigantesco. Tem empreendedores. Tem empresas capazes de competir. Tem criatividade, recursos e capacidade de inovação. O que ainda precisamos construir é um ambiente que permita transformar todo esse potencial em crescimento consistente.

Como empresário, não espero que o próximo governo resolva todos os problemas. Espero que ele crie condições para que quem empreende consiga resolver uma parte deles. O empresário brasileiro não precisa que o Estado empreenda por ele. Precisa que o Estado permita que ele empreenda melhor. Essa diferença é enorme. E talvez seja justamente essa a conversa que deveríamos ter depois das eleições. Porque o dia seguinte ao resultado não pode ser apenas sobre vencedores e perdedores. O verdadeiro teste começa depois. Será que teremos mais investimentos? Mais empregos? Mais produtividade? Mais consumo? Mais empresas crescendo? Mais competitividade? Essas são as métricas que deveriam importar.

No final, o consumidor também dará sua resposta. Ele continuará votando todos os dias, escolhendo marcas, produtos, serviços e empresas. E nós, empresários, teremos que continuar ouvindo. Porque o mercado fala. Às vezes fala por meio de pesquisas. Às vezes fala pela Bolsa. Às vezes fala pelo dólar. Mas, principalmente, fala pelo comportamento de quem entra em uma loja, abre um aplicativo, pesquisa um preço e decide se vai comprar. As urnas definem o próximo governo. As escolhas de milhões de consumidores ajudam a definir o próximo ciclo econômico.

E essa é uma eleição que acontece todos os dias.

*Ricardo Nunes é fundador da Ricardo Eletro e do Grupo R1.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Pesquisa da CNC mostra leve alívio na inadimplência e no endividamento em outubro, puxado pela renda média e alta. Na base da pirâmide, contas em atraso avançam, enquanto o fim das bets começa a abrir espaço no orçamento.
O alívio no endividamento não chegou à base da pirâmide
Pesquisa da CNC mostra leve alívio na inadimplência e no endividamento em outubro, puxado pela renda média e alta. Na base da pirâmide, contas em atraso avançam, enquanto o fim das bets começa a abrir espaço no orçamento
O que fará o consumidor escolher uma marca em 2027?
Estudo da Euromonitor mostra que preço baixo perdeu espaço para uma conta mais ampla, que inclui confiança, consistência, controle e benefícios que possam ser percebidos imediatamente
A estratégia precisa mudar de idade
O impacto da diversidade geracional vai muito além das relações internas. Três dimensões deveriam permear as decisões estratégicas: quem trabalha, quem decide e quem consome
Black Friday: por que as tentativas de fraude mais que dobraram no último ano?
De outubro a dezembro, o volume financeiro das fraudes ficou 57% acima da média mensal dos últimos 12 meses, segundo dados do Asaas. Pix concentrou 73% das tentativas de fraude e 62% do valor financeiro ligado aos casos analisados

Webstories

SUMÁRIO – Edição 298

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Vice-Presidente Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadora
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Seu banco está na lista? Veja o ranking de reclamações do BC Idosos estão ficando para trás no digital? Veja o que revela a Anatel Lula reeleito: o que muda no bolso do brasileiro até 2030? Keds volta ao Brasil após 22 anos e aposta na nostalgia para crescer