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Do consumo ao controle: como a pressão financeira mudou o brasileiro

Do consumo ao controle: como a pressão financeira mudou o brasileiro

Bruno Vieira, CEO da Ativos S.A., analisa o impacto da pressão financeira sobre o comportamento de consumo e a recuperação de crédito
Bruno Vieira, CEO da Ativos S.A., analisa o impacto da pressão financeira sobre o comportamento de crédito do consumidor.
Foto: Shutterstock.
O brasileiro está sob pressão financeira estrutural: com 49% da renda comprometida com dívidas e custo de vida médio de R$ 3.520 mensais, o orçamento familiar opera permanentemente no limite. Bruno Vieira, CEO da Ativos S.A., conversou com a Consumidor Moderno sobre o que os indicadores macroeconômicos não capturam. Para ele, a saída passa por renegociações viáveis, hiperpersonalizadas e orientadas à reabilitação financeira, não apenas à recuperação do crédito.

A inadimplência no Brasil parece ter se tornado o novo normal. Os números mais recentes pintam um quadro que já não cabe na categoria de emergência conjuntural: o custo de vida médio mensal do brasileiro chegou a R$ 3.520, com moradia, supermercado e contas recorrentes consumindo 57% desse total, segundo pesquisa da Serasa em parceria com a Opinion Box.

Já o comprometimento de renda das famílias com dívidas atingiu 49% em 2025, de acordo com o Banco Central. Ou seja, praticamente metade do que o brasileiro ganha já está comprometida antes de qualquer imprevisto. E os imprevistos, como se sabe, não avisam a hora da chegada.

Nesse cenário, 59% dos brasileiros iniciaram 2026 sob pressão financeira, segundo levantamento da Creditas com a Opinion Box. Isso fez o consumo mudar de natureza: guardar dinheiro, organizar as finanças, quitar dívidas e aumentar a renda substituíram viagem, roupa nova e lazer como principais objetivos declarados para o ano.

A consequência disso foi a classificação do País inteiro na faixa “sobrevivente” pelo Índice Hibou do Consumidor Brasileiro. Isso significa que a insegurança financeira, a baixa confiança institucional e a pouca autonomia para decisões além do básico atingem a maioria da população.

É dentro desse ambiente que a Ativos S.A., empresa de recuperação de crédito e securitização do Banco do Brasil, opera com um cuidado importante: compreender a interface entre o dado frio e o comportamento real do consumidor sob pressão.

Bruno Vieira, CEO da companhia, conversou com a Consumidor Moderno exatamente sobre o que os indicadores macroeconômicos não capturam. O executivo é uma das presenças confirmadas no CCX Seminário, que reunirá as principais lideranças e especialistas de crédito e recuperação para discutir o futuro do setor. O evento é 100% online e gratuito, inscreva-se já!

O que os números não mostram

Bruno Vieira, CEO da Ativos S.A..

Para Bruno Vieira, o que diferencia a visão da Ativos de qualquer indicador público é precisamente a granularidade do cotidiano.

“Os indicadores macroeconômicos ajudam a entender o cenário geral, mas eles não capturam, com a mesma clareza, as decisões do dia a dia: a conta que venceu, o imprevisto de saúde, a perda de renda, o aumento do custo de vida ou escolhas de consumo que pesam mais do que pareciam no início”, afirma o executivo.

Uma dessas nuances é o rejuvenescimento do endividamento. As carteiras da Ativos revelam uma presença crescente de pessoas jovens em situação de inadimplência. O dado dialoga diretamente com um ambiente de consumo cada vez mais digital, instantâneo e permeado por novas pressões, entre elas as apostas online.

O perfil do consumidor que chega à empresa também mudou. “Hoje percebemos o endividamento mais espalhado entre diferentes faixas de renda. Não é mais um fenômeno restrito a um único perfil. Há clientes de rendas diferentes, idades diferentes e níveis distintos de conhecimento financeiro”, descreve Vieira.

Ao mesmo tempo, esse consumidor chegou mais informado, mas nem sempre da melhor forma. “Existe muita informação incorreta circulando, especialmente sobre prescrição de dívidas, descontos e condições de negociação. Às vezes, o cliente deixa de aproveitar uma condição muito vantajosa porque recebeu uma orientação equivocada.”

A decisão com o orçamento no limite

Quando quase metade da renda já está comprometida antes do primeiro imprevisto do mês, a lógica de decisão do consumidor muda. “Ele passa a planejar de forma muito mais imediata”, explica o CEO da Ativos.

“O consumidor faz escolhas conforme a urgência do momento. Ele olha para o dinheiro disponível e pergunta: o que é mais importante pagar agora?”

Nessa hierarquia de urgências, alimentação, moradia e transporte ocupam os primeiros lugares. A renegociação de dívidas só entra na equação se couber no orçamento sem comprometer essas necessidades básicas.

É o que explica, em parte, por que tantas propostas de acordo fracassam: não há falta de interesse do consumidor, mas inviabilidade real.

Para a Ativos, isso tem uma consequência direta na forma de operar. “A renegociação boa é aquela que o cliente consegue cumprir. Caso contrário, ela deixa de ser solução e vira uma nova frustração”, diz Vieira. “O mais importante não é apenas o desconto; é construir uma solução que faça sentido para aquela pessoa naquele momento.”

A pesquisa da Creditas com a Opinion Box aponta que essa mudança de prioridades pode ser mais do que uma resposta temporária à conjuntura. O brasileiro está trocando metas de consumo por metas de controle. Guardar dinheiro (56%), organizar as finanças (54%), aumentar a renda (53%) e quitar dívidas (45%) são os principais objetivos declarados para 2026.

Vieira vê nisso uma transformação real, ainda que acelerada pelas circunstâncias. “O brasileiro está mais atento ao peso dos juros, ao risco do descontrole financeiro e à importância de manter a adimplência dos seus compromissos. Há uma consciência maior de que crédito mal utilizado pode gerar um problema duradouro.”

Mas ele ressalva: essa mudança só se consolida com acompanhamento. “O cliente não quer mais uma abordagem fria, técnica ou agressiva. Ele quer entender o que está sendo oferecido, quanto vai pagar, qual é o benefício e como aquilo melhora sua vida.”

Novos vetores de pressão

A pressão sobre o orçamento familiar não vem só do custo de vida ou dos juros. Nos últimos anos, dois fenômenos novos passaram a ocupar espaço relevante nessa equação: a democratização do crédito digital e a explosão das apostas online.

A expansão do crédito digital no Brasil é vertiginosa. Segundo o Relatório de Cidadania Financeira 2025 do Banco Central, o número de adultos com relacionamento com instituições financeiras atingiu 175 milhões ao final de 2024, o equivalente a 96,4% da população adulta brasileira. Desse universo, quase 130 milhões têm acesso a alguma modalidade de crédito, e 9 em cada 10 com acesso efetivamente o utilizam.

No segmento específico das fintechs, a Pesquisa Fintechs de Crédito Digital 2025, realizada pela PwC Brasil em parceria com a Associação Brasileira de Crédito Digital (ABCD), mostra que o volume de crédito concedido por essas empresas chegou a R$ 35,5 bilhões em 2024. Uma alta de 68% em relação ao ano anterior, com uma base de 67,5 milhões de clientes pessoa física.

“O crédito digital trouxe benefícios importantes: mais acesso, mais agilidade e mais inclusão. Mas todo acesso ao crédito deveria vir acompanhado de orientação financeira. Quando o crédito chega rápido demais, sem que o consumidor compreenda bem o custo, o prazo e o impacto no orçamento, o risco também se espalha”, alerta o executivo.

Em outras palavras, a democratização do crédito democratizou também o risco. O próprio Banco Central já sinalizou a contradição: em seu Relatório de Estabilidade Financeira, a instituição afirma que a capacidade de pagamento das pessoas físicas “continua desafiadora, sob impacto da participação elevada de modalidades mais caras”.

O efeito da bets na pressão financeira

No segundo caso, as bets surgem como um vetor de atenção crescente. Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) estimam que os gastos com plataformas de apostas superaram R$ 30 bilhões por mês entre 2023 e 2026, retirando R$ 143 bilhões do comércio varejista.

Vieira é cauteloso ao tratar do tema. “Hoje não temos uma marcação específica nas carteiras que permita afirmar, caso a caso, que determinada inadimplência foi causada por apostas online. Seria irresponsável fazer essa associação direta sem esse dado individualizado.”

Ainda assim, o executivo não ignora o sinal. “Olhando o ambiente econômico mais amplo, é evidente que as apostas online passaram a ocupar espaço relevante no orçamento de muitas famílias. Quando uma parte da renda é desviada para esse tipo de gasto, sobra menos dinheiro para compromissos essenciais, inclusive o pagamento de dívidas.”

A pressão financeira também cria um paradoxo comportamental que a Ativos observa de perto. “Há clientes que, depois de pagar uma dívida com muita dificuldade, dizem: nunca mais quero crédito. E há clientes que renegociam justamente com o objetivo de conseguir se reabilitar e ter acesso a linhas de crédito”, descreve Vieira.

O problema, na leitura do executivo, é quando o crédito passa a ser usado para cobrir buracos permanentes no orçamento, ou quando vem acompanhado de condições que o consumidor não compreende.

Da cobrança à reabilitação

Há cerca de um ano, a Ativos passou por um rebranding que traduziu em linguagem pública uma mudança de posicionamento que já vinha sendo construída internamente. O conceito da “virada de jogo da vida financeira”, segundo Vieira, expressa uma reorientação estratégica da empresa.

“Recuperação de crédito não é apenas cobrança. É reabilitação financeira. É ajudar o cliente a resolver uma pendência, recuperar acesso ao mercado e reconstruir sua relação com o crédito”, afirma.

Para isso, a empresa tem investido em canais digitais, portais de negociação, comunicação mais simples e uso de tecnologia para tornar a jornada de renegociação menos hostil. “A cobrança tradicional olha para a dívida. A reabilitação olha para o cliente.”

Na prática, o instrumento central dessa mudança é a hiperpersonalização. Com renda comprometida e orçamento no limite, uma proposta genérica não resolve e, pior, pode afastar o consumidor de uma oportunidade real de regularização.

“Não faz sentido oferecer uma proposta que pareça boa no papel, mas que o cliente não consiga pagar. Por isso, usamos dados, tecnologia e análise de comportamento para construir alternativas mais aderentes à realidade de cada pessoa”, explica Vieira.

O executivo resume a lógica em termos de equilíbrio de interesses: “Quando a parcela cabe no orçamento, todos ganham: o cliente recupera tranquilidade, o credor melhora sua recuperação e a economia volta a movimentar aquele consumidor.”

Conjuntural ou estrutural?

A pergunta que paira sobre qualquer análise desse cenário é se trata-se de uma crise passageira ou de uma nova realidade permanente. Para Vieira, a resposta está no meio do caminho, mas pende para o lado estrutural.

“Vejo como um fenômeno que tem elementos conjunturais, mas já apresenta sinais estruturais. A conjuntura pesa: juros altos, custo de vida elevado, renda pressionada e maior exposição ao crédito. Mas o problema se repete há tempo suficiente para mostrar que não se trata apenas de uma fase curta.”

Os dados da Serasa dão suporte a essa leitura. O número de brasileiros inadimplentes saltou de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em 2026, crescimento de 38,1% em uma década. Mais revelador do que o crescimento, porém, é a reincidência: 42% dos inadimplentes de 2026 já estavam com o nome negativado há dez anos. O endividamento crônico é padrão.

“Quando milhões de pessoas entram, saem e voltam à inadimplência, isso indica que a dificuldade não está só no pagamento de uma dívida específica. Está na forma como renda, crédito, consumo, educação financeira e proteção ao consumidor se conectam”, analisa o executivo.

Para romper esse ciclo, Vieira identifica três frentes que precisariam avançar simultaneamente:

  • Um ambiente macroeconômico mais favorável, com inflação controlada, crescimento de renda e juros em patamares mais saudáveis.
  • Políticas de crédito mais responsáveis, que democratizem o acesso sem transferir o risco integralmente para o consumidor.
  • E educação financeira permanente, que comece cedo e não se limite a momentos de crise.

Nesse ecossistema, a Ativos se posiciona como uma ponte. “A renegociação tem uma função social importante: ela devolve o cliente ao mercado, reduz a angústia financeira e permite uma nova chance de organização”, conclui Vieira.

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