O consumidor brasileiro já não vê a delegação da experiência de compra como perda de autonomia. Pelo contrário: ele vê a IA como uma extensão dela, tornando a sua tomada de decisão mais eficiente.
Segundo o Agentic Commerce Consumer Study, levantamento global realizado pela Visa com 4 mil consumidores no Brasil, nos Estados Unidos, no Reino Unido e em Singapura, o País demonstra confiança elevada nos agentes de Inteligência Artificial, tanto em disposição quanto em segurança percebida. Trata-se de um sinal de que um novo modelo de comércio digital, no qual a IA age, decide e paga em nome do consumidor, tem no Brasil um dos seus mercados mais promissores.
Enquanto 76% dos brasileiros entrevistados afirmam que pretendem utilizar agentes de IA para realizar compras, esse índice cai para 44% nos Estados Unidos. A diferença aponta para uma receptividade que não encontra paralelo nos demais mercados analisados.
O consumidor brasileiro que se diz aberto ao Agentic Commerce também mantém uma percepção clara de controle sobre a experiência. Segundo o estudo, 57% afirmam sentir que continuam no comando de toda a jornada, mesmo ao delegar tarefas a um agente autônomo. Nos EUA, esse percentual é de 35%; em Singapura, de 34%.
Confiança como diferencial competitivo
Confiança é, historicamente, a principal barreira para a adoção de novas formas de pagamento. De acordo com o Panorama E-commerce da Visa Conecta, 58% dos consumidores brasileiros que desistem de uma compra online o fazem justamente no momento do pagamento. Ou seja, o ponto de maior atrito em toda a jornada. É nessa tensão entre conveniência e segurança percebida que o Agentic Commerce precisa se firmar.
O estudo da Visa mostra que, nesse quesito, o Brasil também lidera. Entre os entrevistados, 67% se dizem muito ou extremamente confiantes em permitir que agentes de IA realizem compras em seu nome. Nos EUA, esse nível de confiança é declarado por apenas 35% dos respondentes. Em Singapura, por 34%.
Quando a pergunta é sobre o compartilhamento de dados financeiros com plataformas baseadas em IA, o Brasil segue na dianteira. 46% dos consumidores brasileiros afirmam confiar no uso de suas informações de pagamento por esses sistemas. O dado equivale ao dobro do registrado nos EUA (23%) e supera os índices de Singapura (24%) e do Reino Unido (32%).
Esse nível de confiança não é à toa. O Brasil tem um histórico de adoção rápida de inovações em pagamentos, do internet banking ao Pix. Esse acúmulo de experiências positivas parece estar criando uma base de receptividade para o próximo salto.
Os pilares da adoção em escala
Essa confiança construída, no entanto, não prescinde de segurança. O estudo da Visa revela que 85% dos consumidores brasileiros enxergam a autenticação biométrica – os chamados Passkeys – como uma ferramenta importante para reforçar a segurança em experiências mediadas por IA.
Outros 95% consideraram claro o processo de habilitação de pagamentos em plataformas com agentes de IA. O que sugere que a jornada de adoção tende a encontrar menos resistência técnica do que em outros mercados.
A percepção de segurança também se reflete em números expressivos: 50% dos brasileiros afirmam sentir-se seguros ao utilizar agentes de IA em compras. O índice é o dobro do registrado nos EUA (25%) e em Singapura (26%).
Para Frederico Succi, vice-presidente de Produtos e Inovação da Visa do Brasil, os dados reforçam que a abertura do consumidor brasileiro a experiências de compra mediadas por IA vem acompanhada de uma exigência clara: confiança, segurança e controle precisam estar no centro de qualquer solução.
A infraestrutura que viabiliza o salto
O cenário descrito pela pesquisa não está desconectado da realidade operacional. Em março de 2026, o Brasil registrou um marco concreto no desenvolvimento do comércio agêntico. O Banco do Brasil e a Visa realizaram a primeira transação iniciada por um agente de Inteligência Artificial no País, utilizando a plataforma Visa Intelligent Commerce (VIC).
A operação foi concluída em ambiente de produção controlado. O cartão BB Visa do portador foi habilitado para o processamento, permitindo que o agente de IA realizasse o pagamento em nome do cliente mediante autorização prévia. A autenticação, a tokenização e os controles de segurança em tempo real ficaram a cargo da infraestrutura da Visa.
O modelo que sustenta essa transação, e que deverá guiar as próximas, funciona da seguinte forma: o consumidor define parâmetros e limites previamente; o agente de IA busca produtos, compara ofertas e conclui a compra dentro dessas regras. A intervenção humana deixa de ser necessária em cada etapa da jornada, mas o controle estratégico permanece com o usuário.
“”Essa revolução desafia os arranjos de pagamentos existentes e mexe não apenas com audiência, mas com todos os players da cadeia de meios de pagamento”, afirmou Pedro Bramont, diretor de Meios de Pagamento e Serviços Bancários do Banco do Brasil no IACX 2026 ao apresentar a solução.
Brasil no centro da expansão global
O movimento não se limita a um único banco ou a uma única operação. Em abril de 2026, a Visa lançou no Brasil o programa Visa Agentic Ready, iniciativa global voltada a preparar o ecossistema de pagamentos para a chegada em escala do comércio agêntico. Na primeira fase, cinco emissores e processadores brasileiros aderiram ao programa: Banco do Brasil, Bradesco, Dock, Santander e XP.
A iniciativa oferece um ambiente controlado, como uma espécie de sandbox, para que parceiros testem e validem transações iniciadas por agentes de IA em colaboração com a Visa e com comerciantes selecionados. Todo o suporte de segurança da plataforma, incluindo tokenização e autenticação biométrica, acompanha cada operação para garantir que cada transação está vinculada a uma pessoa real.
O Brasil não está sozinho nessa corrida, mas ocupa uma posição estratégica. A título de contexto, projeções da McKinsey & Company indicam que vendas conduzidas por agentes de IA devem ultrapassar US$ 5 trilhões globalmente até 2030. O País, com seu histórico de adoção acelerada de inovações em pagamentos e com o maior índice de confiança entre os mercados pesquisados, está bem posicionado para capturar uma parcela relevante desse volume.
O comércio que aprende a agir
O agentic commerce representa uma mudança qualitativa no modelo de e-commerce. No formato tradicional, o consumidor pesquisa, compara, decide e paga. Cada etapa é executada manualmente, a partir de microdecisões. No modelo agêntico, essa cadeia de ações passa a ser delegada a sistemas que operam dentro dos limites definidos pelo próprio usuário.
O que o estudo da Visa revela é que o consumidor brasileiro compreende e está mais disposto a realizar essa transição. A questão que fica em aberto é a velocidade em que o ecossistema – que inclui varejistas, bancos, plataformas e reguladores – conseguirá acompanhar essa disposição.





