Enquanto você lê esse conteúdo, dezenas de mensagens fraudulentas são enviadas pelas redes sociais. São, em média, 186 por minuto. Em 2025, mais de 98 milhões de mensagens associadas a golpes nesses ambientes foram identificadas pelo monitoramento contínuo de cibersegurança da Serasa Experian.
O número revela um avanço de 38,5% em relação ao volume mapeado em 2024, acompanhando um ritmo acelerado de digitalização. No mesmo período, foram detectados mais de 2 mil grupos voltados à circulação e troca de conteúdos fraudulentos (+205% na comparação anual).
O levantamento também aponta a aceleração da infraestrutura usada por criminosos: em média, 4 sites falsos/fraudulentos são criados por hora no Brasil.
Para Rodrigo Sanchez, diretor de Autenticação e Prevenção à Fraude da Serasa Experian, os criminosos agora dispõem de um recurso potente: a Inteligência Artificial. “Cada vez mais recursos de IA generativa vêm sendo incorporados ao ecossistema de golpes para dar mais escala, consistência e aparência de legitimidade a anúncios, textos, imagens e páginas falsas.”
Golpes mais comuns
Os especialistas da Serasa identificaram alguns formatos de golpe que têm se repetido com maior frequência. Eles usam temas do cotidiano para ganhar escala e credibilidade, especialmente quando combinados com recursos de IA generativa e engenharia social.
Entre os principais, destacam-se:
- Anúncios “turbinados” por IA para vendas: especialmente usados em anúncios de “remédios milagrosos”, golpistas usam imagens e vídeos com celebridades e influenciadores digitais, muitas vezes manipulados ou fora de contexto, para dar credibilidade à oferta e induzir o consumidor ao clique e à compra em páginas fraudulentas.
- Deepfakes e páginas falsas com temática governamental: fraudadores espalham notícias falsas que direcionam vítimas a sites maliciosos que solicitam dados pessoais e sensíveis. Para aumentar a confiança, eles combinam vídeos e imagens manipulados de supostos agentes públicos, como presidentes e governadores, com referências visuais a veículos de imprensa e elementos de comunicação institucional.
- Fraudes envolvendo concursos públicos: diligentes exploram o alto interesse por vagas e promessas de estabilidade, com anúncios oferecendo salários acima do mercado que funcionam como isca para capturar informações como nome e CPF. Esses dados são usados em etapas posteriores de fraude ou são até comercializados.
Como evitar golpes nas redes sociais
A Serasa Experian elencou algumas práticas para os consumidores se protegerem desses golpes nas redes sociais:
- Desconfiar de urgência (“só hoje”, “últimas vagas”, “últimas unidades”) e de promessas irreais, como cura milagrosa, descontos extremos, salários muito acima do mercado.
- Tratar como suspeito qualquer conteúdo “com cara de autoridade”, e confirmar a informação em canais oficiais, porque vídeos e imagens podem ser manipulados por IA.
- Verificar o perfil antes de interagir: data de criação, histórico de posts, padrão de comentários, relação de seguidores/engajamento e selo de verificação.
- Digitar o endereço no navegador ou usar o app/site oficial em vez de clicar em links de anúncio, DM ou grupo.
- Conferir a URL completa antes de prosseguir e evitar links encurtados e domínios com variações (letras trocadas, hífens, extensões incomuns, páginas “parecidas” com prefeitura/órgão).
- Não informar senhas, códigos de confirmação (SMS/WhatsApp/e-mail), dados do cartão ou documentos em páginas acessadas por links de mensagens ou anúncios.
- Não instalar aplicativos fora das lojas oficiais e conferir sempre desenvolvedor, avaliações e número de downloads para evitar apps clonados.
- Evitar abrir arquivos e links recebidos em grupos e mensagens diretas, e sair de conversas suspeitas que incentivem “cadastro rápido” ou “pagamento imediato”.
- Ativar a autenticação em duas etapas (2FA) no e-mail e nas redes sociais, e usar senhas fortes e exclusivas.
- Monitorar o CPF com frequência e agir rapidamente ao notar movimentações suspeitas.
Como as empresas devem se proteger
A Serasa também separou algumas dicas para empresas reduzirem risco de imitação de marca e golpes em plataformas digitais:
- Implementar monitoramento contínuo para identificar anúncios, perfis, páginas e aplicativos falsos que usem a marca.
- Manter um playbook de resposta com triagem, priorização, preservação de evidências, acionamento de remoção e comunicação ao cliente.
- Reforçar autenticação e prevenção à fraude em camadas nas jornadas críticas (cadastro, login, recuperação de conta e pagamento).
- Proteger ativos de marca: registrar domínios similares (typosquatting), padronizar perfis oficiais e buscar verificação quando possível.
- Facilitar a checagem pelo consumidor: destacar canais oficiais e publicar orientações curtas e consistentes, como o que a empresa nunca solicita, quais domínios utiliza e como denunciar.
- Treinar atendimento e social media para reconhecer impersonação, deepfakes e anúncios suspeitos e orientar o público com respostas rápidas.
- Analisar padrões de abuso como picos por canal, criativos recorrentes, redirecionamentos, para ajustar regras e bloqueios de forma contínua.
Os golpes que se escondem no TikTok Shop
Nesse contexto de fraudes digitais, o TikTok se tornou uma das plataformas mais visadas pelos golpistas. E não é à toa. Com a chegada do TikTok Shop, o que antes era apenas uma rede social de vídeos divertidos virou transação direta para as marcas.
Segundo relatório do Itaú BBA, o TikTok Shop no Brasil saltou de cerca de US$ 1 milhão em volume bruto de vendas em maio para US$ 46,1 milhões em agosto, uma alta superior a 4.500% em poucos meses. Projeções de mercado indicam que a ferramenta pode movimentar até R$ 39 bilhões até 2028, o equivalente a algo entre 5% e 9% de todo o e-commerce nacional. Hoje, são cerca de 50 mil lojas ativas no País e aproximadamente 500 mil criadores produzindo conteúdo para vendedores.
Para Adrianus Warmenhoven, especialista em cibersegurança da NordVPN, é justamente nesse ponto que a discussão entra no campo da cibersegurança e da proteção do consumidor digital.
“Quando a jornada de compra se torna quase invisível, integrada ao entretenimento e ao fluxo natural do conteúdo, os mecanismos tradicionais de atenção e verificação tendem a enfraquecer. Esse novo comportamento é eficiente para marcas e plataformas, mas cria um ambiente perfeito para fraudes”, explica o especialista.
Ou seja, os golpes que surgem nesse ecossistema não são sofisticados em essência, mas se tornam eficazes pelo contexto. “No TikTok, a venda vem embalada em narrativa. Um rosto familiar testa o produto, reage, sorri, recomenda. O conteúdo parece espontâneo, íntimo, quase uma conversa entre amigos. O cérebro interpreta aquilo como experiência social, não como publicidade. Quando o botão de compra surge, ele aparece como extensão natural da história. Não há tempo para desconfiança. A estética da informalidade mascara o risco”, explica Adrianus.
Brasil é terreno fértil para golpes
O Brasil é um terreno especialmente fértil para esse tipo de dinâmica. O País combina alta penetração de redes sociais, forte cultura de influência digital e um público historicamente sensível a ofertas.
Com a ampliação de modelos de pagamento instantâneo somado a compras por impulso, o risco não está apenas no golpe em si, mas, segundo Adrianus “na normalização de um comportamento em que refletir parece desnecessário”.
Nas redes sociais, Adrianus avalia que a compra nesse ambiente, onde tudo convida à rapidez, é necessário “desacelerar”. “É fundamental verificar quem vende, desconfiar de preços irreais, recusar qualquer transação fora da plataforma, ler avaliações, comparar. Sobretudo, aceitar que nem toda oportunidade precisa ser aproveitada.”
Em um mercado que caminha para mover bilhões em poucos anos, Adrianus avalia que a pergunta não é se os golpes vão existir. E sim, quantos consumidores estarão preparados para reconhecê-los? “Quando o entretenimento vira vitrine e a vitrine vira armadilha, o prejuízo deixa de ser individual e passa a ser coletivo”, conclui o especialista.





