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Privacidade vira ativo competitivo na era da IA

Privacidade vira ativo competitivo na era da IA

Transparência e governança ajudam empresas a transformar proteção de dados em confiança quando inteligência artificial amplia personalização e uso de informações do consumidor
Foto: Rodrigo Sodré
Na era da IA, privacidade pode deixar de ser apenas obrigação regulatória para se tornar um ativo competitivo. Mas essa mudança depende de transparência, governança e, principalmente, confiança. No CONAREC 2026, especialistas discutiram como personalizar experiências e usar dados sem ultrapassar a fronteira da discriminação, além dos princípios de CDC e LGPD que já orientam as empresas. Se a IA sabe cada vez mais sobre o consumidor, como usar esses dados sem romper sua confiança? Leia mais.

Privacidade não precisa ser apenas uma obrigação regulatória ou um risco que as empresas tentam controlar. Em um mercado no qual Inteligência Artificial, personalização e tratamento de dados já fazem parte da jornada do consumidor, ela pode se transformar em um ativo competitivo.

A mudança depende, porém, de uma condição: confiança. Para conquistá-la, não basta apresentar termos de consentimento ou políticas de privacidade. O consumidor precisa compreender como seus dados são utilizados, para qual finalidade e que valor esse uso pode gerar em sua experiência.

Essa foi uma das conclusões do painel “Privacidade virou ficção? IA e o consumidor rastreado”, realizado no CONAREC 2026, na Arena A Era do Diálogo. Mediado por Guilherme Guidi, Head of Digital Law do Freitas Ferraz Advogados, o debate reuniu Angélica Dente, Diretora Jurídica do Grupo Fleury, e Fernando de Paula, sócio do LPCA.

No centro da conversa estava um desafio que cresce à medida que a Inteligência Artificial avança: como aproveitar dados para personalizar produtos, serviços e experiências sem romper a relação de confiança com o consumidor?

Transparência além do consentimento

No setor de saúde, onde empresas lidam com dados sensíveis, essa discussão ganha ainda mais peso. Angélica Dente destacou que a transparência precisa ultrapassar aquilo que está formalmente previsto em um termo de consentimento ou de uso.

“A transparência é essencial e ela deve estar ligada à confiança”, afirmou.

Na prática, isso significa permitir que o consumidor entenda por que seus dados estão sendo utilizados e de que maneira esse tratamento pode contribuir para sua experiência.

Para Angélica, chegar a esse nível exige uma estrutura robusta de governança. Antes de uma solução baseada em Inteligência Artificial alcançar o consumidor, diferentes áreas precisam avaliar riscos, possíveis vieses e impactos discriminatórios.

Essa análise não pode ficar restrita ao Jurídico ou à área de privacidade. O modelo defendido no painel é multidisciplinar e aproxima profissionais responsáveis por dados, segurança, negócios, inovação e experiência do consumidor.

Privacidade pode gerar valor

Fernando de Paula, por sua vez, levou a discussão um passo adiante ao defender a privacidade como um ativo empresarial. Nessa perspectiva, proteger dados deixa de representar somente custo, conformidade ou mitigação de riscos e passa a participar da geração de valor.

A lógica está diretamente ligada à confiança. Se o consumidor percebe transparência no tratamento de suas informações e entende a finalidade daquele uso, aumenta a possibilidade de manter sua relação com a empresa.

O desafio fica maior porque a tecnologia costuma avançar mais rapidamente do que a regulação. Ainda assim, Fernando argumentou que a ausência de uma legislação específica para inteligência artificial não significa ausência de parâmetros para as empresas.

Princípios já presentes no Código de Defesa do Consumidor (CDC) e na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) oferecem referências para questões como informação, finalidade, necessidade, segurança e tratamento não discriminatório. Para as organizações, portanto, esperar uma nova legislação para começar a estruturar a governança de IA pode significar chegar atrasado a um problema que já existe.

Personalizar sem discriminar

O uso de dados também colocou outra fronteira no centro do debate: a diferença entre personalização e discriminação.

Fato é que a personalização já faz parte da experiência digital. Recomendações, prevenção a fraudes, segurança e jornadas mais fluidas dependem, em diferentes graus, da capacidade de conhecer o consumidor e tratar informações sobre ele.

Isso não torna a personalização necessariamente negativa. O problema surge quando o tratamento perde sua finalidade, cria vieses ou produz efeitos discriminatórios.

No setor de saúde, Angélica exemplificou como essa equação pode gerar valor. Informações sobre o histórico de um paciente podem contribuir para indicar exames preventivos, acompanhar doenças e melhorar desfechos. Nesse caso, o uso dos dados precisa estar diretamente relacionado à saúde e à melhor experiência daquele paciente.

“Ele não pode ter outra finalidade que não seja gerar valor e a melhor experiência para aquele paciente”, afirmou.

A mesma lógica exige atenção aos riscos. Quanto mais sensível a informação, maior a necessidade de controles, análise de impacto e acompanhamento das soluções utilizadas.

Governança não termina no lançamento

Outro ponto levantado no painel é que governança não pode funcionar como uma etapa burocrática concluída antes do lançamento de um produto.

Sistemas, riscos e formas de utilização dos dados mudam. Por isso, o monitoramento precisa acompanhar todo o ciclo de vida das soluções e manter áreas de privacidade e segurança próximas dos times de negócio, inovação e desenvolvimento.

“Não é enfrentar, não é frear”, afirmou Angélica ao abordar o papel dessas áreas dentro das organizações.

Para ela, a participação precisa começar na construção dos projetos. Um parecer jurídico produzido quando todas as decisões já foram tomadas tem capacidade limitada de alterar riscos ou ajudar a encontrar alternativas.

A integração permite que diferentes áreas entendam juntas como os dados serão coletados, qual será o fluxo das informações, quais riscos estão envolvidos e que medidas podem reduzi-los.

Jurídico precisa conhecer o negócio

A mudança de perspectiva alcança ainda o papel do próprio departamento jurídico. Em vez de atuar apenas como uma área que aponta impedimentos, o Jurídico passa a participar da construção das soluções.

Fernando destacou que governança pode ajudar a viabilizar negócios ao mesmo tempo que reduz riscos. Para isso, advogados e profissionais de privacidade precisam conhecer a operação, compreender os objetivos das demais áreas e participar das decisões desde o início.

“O departamento jurídico acaba sendo um departamento que gera valor, porque isso acaba sendo um desafio de todos os departamentos: gerar valor, viabilizar negócios.”

A consequência é uma mudança importante: conformidade deixa de aparecer apenas no fim da jornada, quando um produto está pronto, e passa a fazer parte de seu desenho.

Ficou nítido no painel que esse modelo ganha relevância diante da Inteligência Artificial. Uma tecnologia capaz de ampliar personalização, automatizar decisões e processar grandes volumes de informações também amplia o impacto de escolhas equivocadas.

Regulação não começa do zero

No parecer dos participantes, o avanço de uma legislação específica para Inteligência Artificial deve acrescentar novas obrigações e parâmetros. Para eles, entretanto, as empresas já dispõem de princípios capazes de orientar suas decisões.

CDC e LGPD estabelecem bases que dialogam com vários dos dilemas trazidos pela IA. Entre eles estão transparência, informação, finalidade, necessidade, segurança e proteção contra práticas discriminatórias.

Por isso, organizações que estruturam desde agora modelos de governança alinhados a esses princípios tendem a estar mais preparadas para incorporar novas exigências regulatórias.

A ausência de um marco específico também não elimina riscos atuais. Um uso inadequado de Inteligência Artificial pode envolver problemas relacionados à proteção de dados ou resultar em práticas abusivas nas relações de consumo.

Antes da tecnologia chegar ao consumidor

No fim, a pergunta sobre privacidade na era da IA talvez não seja apenas quanto as empresas conseguem saber sobre seus consumidores. O ponto decisivo está em como utilizam aquilo que sabem.

Dados podem tornar jornadas mais simples, reforçar a segurança, prevenir fraudes e permitir experiências personalizadas. Também podem produzir vieses, discriminação e danos quando utilizados sem finalidade clara ou governança adequada.

Ao conduzir o debate, Guilherme Guidi chamou atenção justamente para “o fato dessa IA ser realmente quase uma caixa-preta, pelo menos na maioria dos casos” e questionou como essa característica se relaciona com a transparência exigida das empresas.

A discussão mostrou que a resposta passa por transparência, governança e confiança. Mesmo antes de uma regulamentação específica para Inteligência Artificial, as empresas já precisam tomar decisões sobre tecnologias que utilizam dados e interferem na experiência do consumidor.

Para as organizações, a privacidade deixa então de ser somente uma obrigação a cumprir. Quando incorporada desde o desenho de produtos e serviços, ela pode se tornar parte da experiência oferecida ao consumidor e um elemento de diferenciação em um mercado cada vez mais orientado por dados e IA.

Para as organizações, a privacidade deixa então de ser somente uma obrigação a cumprir. Quando incorporada desde o desenho de produtos e serviços, ela pode se tornar parte da experiência oferecida ao consumidor e um elemento de diferenciação em um mercado cada vez mais orientado por dados e IA.

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