A pressão por resultados, a rotina intensa de reuniões e a necessidade de manter decisões assertivas 24 horas por dia têm levado um número crescente de executivos ao consultório médico. Mas, não pelos motivos tradicionais, como check-ups anuais. A procura é por algo mais estratégico, como saúde preventiva e alta performance.
Esse movimento faz parte de uma transformação na forma como profissionais de alta gestão encaram a própria saúde. Para o médico Vinícius Cunha, especialista em longevidade, medicina esportiva e integrativa, a prevenção precisa ser tão importante quanto a entrega de resultados.
“Muitas vezes – e esse é justamente o perfil dos executivos que me procuram –, eles acabam negligenciando os próprios cuidados com a saúde em nome da performance. O problema é que isso se torna um verdadeiro tiro no pé. Quando você deixa a saúde de lado, também compromete a sua capacidade de performar, porque não conseguirá manter o mesmo nível a longo prazo”, afirma.
Da medicina clássica à performance cognitiva
Formado em 2020 e com 3 pós-graduações, Vinícius trilhou um caminho que foge do modelo tradicional de atendimento. Ao perceber que o foco exclusivo em tratar doenças não supria as necessidades de quem buscava mais qualidade de vida, ele direcionou sua carreira para áreas como longevidade, saúde preventiva e performance cognitiva.
Hoje, o público do especialista é dividido entre pessoas que querem melhorar a saúde geral, com foco em emagrecimento, ganho de massa muscular e vitalidade, e executivos que precisam de máxima performance física e mental.
“Eles são muito objetivos: querem raciocínio rápido, energia, disposição e clareza mental. Mas, chegam ao consultório exaustos, com fadiga mental, sono não reparador e sintomas de ansiedade ou burnout”, explica.

Quando a mente dá sinais de alerta
Mesmo executivos com acesso aos melhores planos de saúde e recursos acabam negligenciando cuidados básicos. A cobrança por resultados é tão alta que sacrificam a própria saúde para entregar mais.
“Basicamente, o estresse provoca uma inflamação crônica. Essa inflamação crônica a nível cerebral gera uma fadiga, um cansaço mental importante, um limiar de cansaço muito baixo e um estresse excessivo. Além de irritabilidade, ansiedade, até mesmo sintomas de depressão”, explica Cunha.
Entre os sinais de alerta que indicam que algo não vai bem, Vinícius cita fadiga constante, noites mal dormidas, irritabilidade, perda de libido e até queda de massa muscular. “Muitos chegam dizendo que não têm problema hormonal, mas apresentam sintomas claros de exaustão”, completa.
Burnout iminente
Esse cenário não é isolado. Segundo o Relatório Global de Bem-Estar no Trabalho de 2024, divulgado pela plataforma de empregos Indeed em parceria com o Centro de Pesquisa de Bem-Estar da Universidade de Oxford, 60% dos trabalhadores relatam sentir-se constantemente estressados em suas funções. Enquanto apenas 20% acreditam que estão prosperando no trabalho.
O levantamento, que analisou dados de 25 milhões de pessoas em 19 países, incluindo o Brasil, reforça que o burnout é um risco cada vez mais iminente. Só no Brasil, o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) registrou 421 afastamentos por burnout em 2023, evidenciando o peso emocional que o trabalho exerce na saúde mental dos profissionais.
O impacto do excesso de telas
Além da sobrecarga profissional, a hiperconexão é outro vilão. Termos como brain fog, traduzido como “névoa mental”, estão cada vez mais comuns no vocabulário médico. “Hoje, nunca saímos do modo ‘ligado’. São mensagens, notificações, redes sociais. Nosso cérebro é o mesmo de 40 anos atrás, mas a quantidade de informação aumentou centenas de vezes. Isso gera confusão mental, dificuldade de concentração e vício em dopamina, semelhante ao que ocorre com drogas”, alerta Vinícius.
Em 2024, o termo “brain rot“ – traduzido de forma literal como “podridão cerebral” – ganhou destaque global ao ser eleito pela Oxford University Press como a palavra do ano. A expressão reflete um fenômeno crescente: a deterioração mental causada pelo consumo excessivo de conteúdo online em plataformas de redes sociais. A frequência do termo aumentou 230% entre 2023 e 2024, reflexo de um impacto na cultura digital em um público cada vez mais dependente das telas para estudar, trabalhar, comer e se divertir.
Como virar o jogo: da prevenção à performance
Para manter o equilíbrio e evitar que a saúde seja o preço da performance, o especialista recomenda estratégias simples e específicas:
• Sono de qualidade: pelo menos 7 horas por noite.
• Alimentação limpa: priorizar comida de verdade, evitando ultraprocessados e bebidas artificiais.
• Atividade física regular: fundamental para liberar hormônios ligados ao bem-estar.
• Momentos de desconexão: práticas como meditação, leitura ou hobbies ajudam a reduzir a sobrecarga mental.
Em casos mais avançados, Vinícius segue com um protocolo individualizado, que inclui suplementação vitamínica, avaliação hormonal e substâncias que otimizam cognição e raciocínio. “Cada paciente é único. Não dá para aplicar uma fórmula pronta. Por isso, cada consulta dura pelo menos uma hora, avaliando tudo que pode impactar na performance”, explica.
Mais empresas no jogo
A tendência também começa a chegar ao ambiente corporativo. Segundo o médico, companhias que investem na saúde integral dos colaboradores percebem ganhos expressivos em produtividade. “Não basta ter um plano de saúde que só atende emergência. As empresas precisam enxergar a saúde como parte da estratégia de alta performance”, defende.
“A empresa olha para você como alguém que sabe que que pode e quer performar. Por isso, precisa dar o suporte médico, profissional, psicológico adequado para que você tenha essa performance. Isso vai muito além do básico da medicina hoje. Isso vai para uma medicina integrativa, de performance cognitiva, com suplementações adequadas, com, às vezes, reposições vitamínicas adequadas. Saindo, assim, daquela medicina clássica de olhar se o seu exame médico está dentro do quadrado não”, explica.
No fim das contas, os princípios que garantem equilíbrio aos executivos também valem para qualquer pessoa. “Todos temos demandas e pressões. Se não cuidarmos da base – sono, alimentação, mente –, não adianta ter metas, porque não teremos energia para cumpri-las”, reforça.





