“Não há lugar como o nosso lar.” A frase eternizada por Dorothy em O Mágico de Oz poderia facilmente servir de manifesto para a CASACOR São Paulo 2026. Mais do que apresentar tendências de arquitetura, decoração e design, a mostra deste ano lança um olhar sobre desacelerar.
Entre notificações, telas, aceleração tecnológica, ritmo frenético da Inteligência Artificial e pela sensação constante de excesso de informação, a casa volta a ocupar um lugar importante na busca por equilíbrio. O lar deixa de ser apenas um espaço funcional ou uma vitrine estética para se tornar um refúgio emocional.
A convite da CASACOR, a Consumidor Moderno percorreu os mais de 70 ambientes da mostra e encontrou uma narrativa comum entre diferentes projetos: a valorização do bem-estar, da desaceleração, da natureza e das conexões humanas.
Imersão e reconexão
Sob o tema Mente e Coração, a edição ocupa mais de 10 mil metros quadrados em meio ao Parque da Água Branca e propõe uma experiência imersiva que une arquitetura, paisagismo, design, cultura e afetividade.
Logo na chegada, a experiência começa antes mesmo de entrar nos ambientes. A fachada de muxarabis (painel vazado), criada por José Luiz Favaro e Yuri Matsui Ramos funciona como uma transição simbólica entre o ritmo acelerado da cidade e o universo da mostra. A luz filtrada pelos recortes orgânicos e as sombras projetadas pela vegetação parecem convidar o visitante a diminuir a velocidade.
O mesmo acontece no jardim de entrada, assinado por Ana Lui e Karen Marini. Com espécies brasileiras pouco usuais e inspirado nos princípios do paisagismo naturalista contemporâneo, o espaço propõe uma reconexão com a natureza local. Vidros espelhados refletem o verde ao redor, criando um lembrete visual de que, mesmo cercados por concreto, ainda buscamos vínculos com o mundo natural.

Ferramenta de bem-estar
A mensagem dialoga diretamente com uma das principais tendências de comportamento observadas atualmente: a busca por experiências que promovam presença e bem-estar. Em vez de impressionar apenas pelo luxo, os ambientes procuram provocar sensações.
Essa percepção fica visível no Jardim Onde a Mente Pousa, de Bia Abreu. O projeto de 200 metros quadrados foi concebido como um espaço para a prática da atenção plena. Aromas naturais, água, pedra, madeira e áreas destinadas ao descanso compõem um ambiente que incentiva a pausa.
“A ideia é trazer esse tempo de desaceleração. Usamos elementos que ajudam a respirar, observar e simplesmente estar presente”, explica a paisagista.
Não por acaso, conceitos como mindfulness, saúde mental e autocuidado aparecem de forma recorrente ao longo da mostra. A casa passa a ser vista como uma ferramenta de bem-estar.
O lar como território de regeneração
Se durante anos a casa foi projetada para atender necessidades práticas, agora a lógica parece ser outra: criar espaços capazes de acolher emoções.
Essa visão ganha forma na Casa Magma Portinari, criada pelo escritório Suite. O ambiente apresenta o lar como território de cura. Uma parede curva organiza a circulação e conduz o visitante por diferentes níveis de intimidade. Materiais naturais como terra, cerâmica, pedra e madeira reforçam a sensação de acolhimento.

A proposta traduz uma mudança importante no comportamento do consumidor contemporâneo. Em vez de buscar apenas ambientes instagramáveis, cresce o desejo por espaços que despertem conforto, pertencimento e conexão emocional.
A ideia de reconexão também aparece no projeto Ikigai, assinado pelo paisagista Vitor Kodama. Inspirado no conceito japonês que representa aquilo que dá sentido à vida, o espaço propõe uma reflexão sobre propósito e equilíbrio, unindo técnica, natureza e afeto.
A cozinha volta ao centro da experiência
Outra transformação percebida na mostra está na forma como os brasileiros se relacionam com os ambientes sociais da casa.
A Solum, projetada por Marcelo Rosenbaum para a Brastemp, apresenta uma residência vibrante e cheia de personalidade. Pensada para uma cozinheira profissional, a casa integra cozinha, laboratório gastronômico, sala de jantar, escritório e áreas de convivência em um único ecossistema de experiências.
O projeto reflete uma tendência observada desde a pandemia, em que a cozinha deixou de ser apenas um espaço de preparo de alimentos para assumir o papel de palco da convivência, da criatividade e da expressão pessoal.
A própria Brastemp aproveita a mostra para apresentar produtos conceito e pré-lançamentos desenvolvidos a partir de pesquisas sobre o comportamento do consumidor brasileiro. A nova linguagem visual da marca, batizada de B=Design, aposta na combinação entre tecnologia, funcionalidade e estética.
“A CASACOR é um espaço de inspiração e autoexpressão. Queremos mostrar como inovação e design podem transformar a relação das pessoas com suas casas”, afirma Bertha Fernandes, head de Marcas e Comunicação da Whirlpool Brasil.


Varejo se transforma em experiência
A busca por conexão emocional não está restrita ao ambiente doméstico. Ela também influencia o varejo.
Em sua estreia na mostra, o Studio Sitta + Barbo assina o espaço Tempo de Estar, desenvolvido para a Chocolat du Jour e a Livraria UniSaber. O ambiente traduz uma das principais tendências do mercado premium: a transformação do consumo em experiência.
Mais do que vender produtos, marcas de alto padrão buscam criar momentos de permanência, descoberta e relacionamento. Livros, chocolates, arquitetura e atmosfera se unem para formar um espaço que convida o visitante a desacelerar, exatamente como acontece em toda a mostra.
O novo luxo é sentir
Ao final do percurso, fica evidente que a principal tendência apresentada pela CASACOR 2026 não está em uma cor, material ou mobiliário específico.
O verdadeiro luxo parece ser outro.
Afinal, se estamos em tempo cada vez mais digital, acelerado e automatizado, a mostra sugere que o maior desejo do consumidor contemporâneo é recuperar aquilo que a tecnologia não consegue substituir: presença, afeto, natureza, silêncio e conexão humana.
Mais do que mostrar como os brasileiros querem morar, a CASACOR revela como eles querem viver.









