/
/
A lógica de proteção ao consumidor no mercado de apostas

A lógica de proteção ao consumidor no mercado de apostas

Governo detalha regras para bets, publicidade, jogo responsável e combate ao mercado ilegal durante reunião da Senacon com o SNDC.
Governo detalha regras para bets, publicidade, jogo responsável e combate ao mercado ilegal durante reunião da Senacon com o SNDC.
Foto: Shutterstock.
Debate na 38ª reunião da Senacon com o SNDC mostra como o governo estrutura regras, comportamento do consumidor e publicidade no mercado de apostas.

Embora o mercado de apostas já conte com regras definidas, a regulação brasileira ainda está em processo de consolidação. A criação da Secretaria de Prêmios e Apostas e a implementação das normas infralegais marcaram o início de um novo momento, em que o foco deixa de ser apenas a autorização das empresas e passa a incluir o acompanhamento do funcionamento do mercado.

Nesse cenário, a exigência de critérios técnicos, operacionais e financeiros para atuação das plataformas passa a ser um elemento estruturante. O processo de autorização, segundo a própria Secretaria, envolve análise detalhada de capacidade econômica, origem de recursos e conformidade regulatória, o que indica uma tentativa de organizar o setor sob padrões mais rigorosos.

Durante a 38ª reunião da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) com o Sistema Nacional de Defesa do Consumidor (SNDC), realizada em Belo Horizonte, autoridades detalharam como o País vem estruturando a regulação do setor. Não apenas do ponto de vista econômico, mas também sob a ótica do comportamento do consumidor, da comunicação e da sustentabilidade da atividade.

O encontro reuniu representantes diretamente envolvidos na construção desse ambiente regulado, trazendo diferentes perspectivas sobre o avanço das apostas no País.

A regulação das apostas no Brasil envolve diferentes áreas do governo, combinando fiscalização, comportamento do consumidor e formulação de políticas públicas.

Responsáveis pela agenda das bets

  • Daniele Corrêa Cardoso: Responsável pela regulação das apostas no Brasil, lidera a agenda de autorização, fiscalização e definição de regras para operação das empresas no setor. Ela destaca o estágio atual do mercado, que foi regulado há pouco mais de um ano. Ademais, ao contextualizar a evolução da regulação das bets no País, também ressalta o histórico normativo: “A lei previa regulamentação, mas isso não aconteceu naquele momento”.
  • Andriara Braga: Atua na implementação das políticas de jogo responsável e no monitoramento do comportamento do consumidor nas apostas. Ao abordar o consumo no setor, reforça a necessidade de transparência: “A tendência é perder. Isso precisa ser comunicado ao consumidor”. Em síntese, explica a lógica da regulação voltada à proteção do usuário: “O jogo responsável é um conjunto de regras para proteger o consumidor na saúde mental e financeira”.
  • Daniel Carnaúba: Representa a perspectiva da defesa do consumidor na regulação das apostas no Brasil e analisa os impactos do setor sobre os usuários. Ele destaca a especificidade do mercado: “É uma atividade que castiga o consumidor em regra”. E complementa ao diferenciar o setor de outras relações de consumo: “A lógica da proteção aqui é diferente”.
  • Osni Filho: Responsável pela articulação das políticas públicas de defesa do consumidor, media o debate sobre apostas no Brasil. Ele destaca a relevância do tema para o setor e amplia o escopo da discussão ao incluir novas frentes regulatórias: “Vamos tratar não só de bets, mas também de prediction markets”.

Mercado ilegal pressiona consolidação das apostas

Ao mesmo tempo em que a regulação das apostas no Brasil avança, o enfrentamento ao mercado ilegal aparece como um dos principais pontos de atenção para o setor. As autoridades deixam claro que a consolidação do ambiente regulado depende diretamente da redução dessas operações.

Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, mais de 40 mil sites já foram bloqueados no País em ações coordenadas com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e outros órgãos. Ainda assim, o número é visto como um indicativo da dimensão do problema, e não como solução definitiva. Ao detalhar a estratégia adotada, Daniele Corrêa Cardoso ressalta que o combate às plataformas irregulares não pode se limitar à derrubada de páginas. “Essa frente é necessária, mas não é suficiente”, afirma. Segundo ela, a atuação do governo tem avançado para uma abordagem mais estruturada, baseada no monitoramento das operações financeiras.

Nesse sentido, a chamada estratégia de “seguir o dinheiro” passou a orientar a fiscalização. “A gente entende isso como uma estratégia de estrangulamento desses sites”, explica a secretária. A lógica é interromper o fluxo financeiro que sustenta as plataformas ilegais, atuando junto a instituições bancárias e meios de pagamento.

Ademais, a regulação já prevê restrições claras: instituições financeiras não podem dar curso a transações destinadas a operadores não autorizados. Na prática, isso amplia o alcance da fiscalização e cria uma barreira adicional para o funcionamento dessas operações.

Jogo responsável amplia foco na saúde

Se a regulação define o funcionamento do mercado, o conceito de jogo responsável redefine a relação com o consumidor. Esse tema aparece como um dos pilares da política pública para o setor. Andriara Braga destaca que a lógica adotada é preventiva. “Eles têm que monitorar o comportamento desde o momento em que o consumidor entra”, afirma ao se referir às obrigações das plataformas. Segundo ela, o acompanhamento deve ser contínuo e capaz de identificar padrões de risco.

Ainda, as empresas devem atuar de forma ativa. “Elas precisam alertar, entrar em contato e até suspender o usuário, se necessário”, explica. Esse modelo busca evitar que o consumo evolua para situações mais graves, como o transtorno do jogo. Do ponto de vista regulatório, Daniele Cardoso reforça que esses mecanismos já estão previstos nas normas. “Eles precisam suspender ou excluir o consumidor quando isso é identificado.”

Os dados apresentados durante o encontro indicam que o tema já é concreto. A plataforma nacional de autoexclusão registra centenas de milhares de solicitações, sendo a maior parte relacionada à perda de controle e impactos na saúde mental.

Comunicação e publicidade no centro da regulação

Outro eixo que ganha força na regulação das apostas no Brasil é a forma como o setor se comunica com o consumidor. À medida que o mercado cresce, a publicidade passa a ser tratada como um elemento estratégico, e também sensível, para o equilíbrio da atividade. Dessa forma, durante o 38º Encontro da Senacon com o SNDC, Daniele Corrêa Cardoso reforça que a legislação já estabelece limites claros. “Criança e adolescente não podem ser público-alvo”, afirma. Além disso, ela destaca que a comunicação não pode induzir erro: “O jogo não substitui renda, não substitui emprego”.

Na mesma linha, Andriara Braga aponta que a publicidade precisa incorporar uma dimensão educativa. “É preciso informar os riscos de dependência”, afirma, ao defender que a comunicação deve refletir o funcionamento real do produto.

Outro ponto que entrou no radar regulatório é a atuação de influenciadores digitais. Com forte impacto sobre o comportamento de consumo, esses agentes passam a ser considerados parte relevante da cadeia de comunicação das bets. A tendência, segundo o debate, é que novas regras avancem sobre esse tema, especialmente no que diz respeito à transparência. E, por consequência, foi traçado um paralelo com a regulação do tabaco, indicando que restrições mais rigorosas à publicidade podem contribuir para reduzir a entrada de novos consumidores, sobretudo entre jovens.

Mercado em transição e sob monitoramento

O mercado de apostas no Brasil entrou em uma fase de amadurecimento. Se, em um primeiro momento, o foco esteve na autorização e estruturação do setor, agora a agenda se amplia para temas mais complexos, como comportamento do consumidor, comunicação e sustentabilidade da atividade.

Nesse contexto, como destaca Daniel Carnaúba, o desafio é estrutural. “Aqui a lógica da proteção é diferente”, afirma, ao indicar que o setor exige uma abordagem mais cuidadosa do que outras relações de consumo.

A discussão também avança para temas que ainda não estão totalmente enquadrados na regulação atual. Osni Filho chama a atenção para o crescimento dos chamados mercados de previsão. “Vamos tratar não só de bets, mas também de prediction markets”.

Na prática, isso significa que a agenda regulatória das apostas no Brasil começa a se expandir para além do modelo tradicional. Ao longo do debate, representantes do governo deixaram claro que o foco agora está em acompanhar a evolução do mercado em tempo real; tanto no que diz respeito ao comportamento do consumidor quanto às novas formas de operação digital.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Determinação da Anvisa reacende debate sobre segurança, rastreabilidade e responsabilidade das marcas diante do risco ao consumidor.
CM Responde: Entenda os direitos do consumidor no recall dos produtos Ypê
Determinação da Anvisa reacende debate sobre segurança, rastreabilidade e responsabilidade das marcas diante do risco ao consumidor.
Debate promovido pela ANELA reuniu juristas, pesquisadores e executivos para discutir os impactos econômicos, sociais e institucionais da litigância excessiva no País.
O Brasil está judicializando tudo?
Debate promovido pela ANELA reuniu juristas, pesquisadores e executivos para discutir os impactos econômicos, sociais e institucionais da litigância excessiva no País.
Seminário do IAB reúne juristas para discutir como a reforma do Código Civil impacta o direito do consumidor e os contratos digitais.
Reforma do Código Civil evidencia a "plataformização" das relações de consumo
Seminário do IAB reúne juristas para discutir como a reforma do Código Civil impacta o direito do consumidor e os contratos digitais.
O consumo phygital redefine a jornada do consumidor e levanta dúvidas sobre a aplicação do direito de arrependimento no artigo 49 do CDC.
CM Entrevista: Consumo phygital está redefinindo o direito de arrependimento no CDC
O consumo phygital redefine a jornada do consumidor e levanta dúvidas sobre a aplicação do direito de arrependimento no artigo 49 do CDC.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.