O drone levanta voo carregando uma caixa com o pedido de almoço. Em cinco minutos, cruza uma distância que antes poderia consumir boa parte do tempo de uma entrega tradicional. A cena parece saída de um filme futurista, mas o maior desafio que o iFood tenta resolver com essa tecnologia não está no céu, mas sim no chão.
A partir de hoje, o iFood inicia uma nova operação de entregas por drones em Barueri, na Grande São Paulo. A rota conecta o Shopping Iguatemi Alphaville ao Residencial Alphaville Zero, em um trajeto de 3,6 quilômetros que será percorrido pelo drone em aproximadamente cinco minutos.
O objetivo não é só testar uma inovação tecnológica ou criar uma experiência diferente para o consumidor. A missão é resolver um problema operacional que há anos desafia o delivery: trajetos que cerca de 50% dos entregadores preferem evitar.
A região escolhida concentra 32 grandes condomínios residenciais, que possuem controle rigoroso de acesso e longos tempos de espera para cadastro e entrada. O resultado era um cenário caótico e demorado para todos os lados.
“O que queremos com isso é aumentar a demanda dos restaurantes, ampliar a oferta para os consumidores e garantir renda aos entregadores”, afirma Mariana Werneck, diretora sênior de Logística do iFood.
O delivery não voa sozinho
Ao contrário do que todos imaginam, o drone não substitui o entregador. Longe disso, é completamente dependente dele. Na prática, a operação funciona como uma corrida de revezamento, só que tecnológica.
O pedido é retirado do restaurante dentro do shopping por um mensageiro ou pela robô autônoma Ada, segue para o drone, percorre o trajeto e, ao chegar ao destino, é coletado por um entregador responsável pela última etapa até a casa do consumidor.
Neste caso, o entregador será fixo de cada residencial. Ou seja, ele permanecerá durante todo o período de funcionamento, que a princípio será das 10h30 às 22h30, dentro do condomínio para fazer as entregas.
Nesse modelo, cada modal faz aquilo que executa melhor: o robô reduz deslocamentos internos, o drone supera barreiras geográficas e o entregador resolve a etapa final, que ainda exige flexibilidade, contexto e interação humana.
O iFood garante que o entregador fixo não terá nenhum prejuízo financeiro por atuar apenas no condomínio. Até porque, a expectativa é que os pedidos locais cresçam e compensem as entregas externas.
O drone não quer impressionar
Existe uma tendência de associar inovação a algo espetacular. Mas as tecnologias que mais transformam mercados costumam surgir para resolver problemas específicos.
Neste caso, o drone nasceu para enfrentar uma equação: quanto mais tempo o entregador perde esperando autorização para entrar em um condomínio, menos entregas consegue realizar. Quanto menos pedidos ele aceita, menor a oferta disponível para consumidores e restaurantes. O resultado é um sistema inteiro operando longe do seu potencial máximo.
Se resolver o gargalo dos condomínios foi a motivação da operação, fazer isso em uma das regiões com maior densidade de tráfego aéreo do País foi o grande desafio técnico.
A nova rota foi desenvolvida pelo iFood em parceria com a empresa brasileira Speedbird Aero, após mais de 6 anos de conversas e testes, e após conquistar as certificações necessárias da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) e do Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA).
“A gente vai viver agora a melhor parte da junção dessas duas grandes empresas brasileiras de tecnologia. Eu já estou recebendo ligações e mensagens de outros residenciais perguntando quando poderão fazer parte dessa operação e receber sua pizza quentinha e sem chacoalhar. É uma iniciativa incrível,” celebra Batista Verardi Neto, superintendente de Segurança na Associação Residencial Alphaville Zero.
Drone como parte da logística urbana
Esta é a primeira rota de entregas do Brasil autorizada a sobrevoar áreas residenciais. A operação só se tornou possível após a certificação concedida pela ANAC à Speedbird, em dezembro de 2025, permitindo voos em regiões com densidade de até 5 mil habitantes por quilômetro quadrado.
Cada voo é monitorado em tempo real por operadores da empresa, responsáveis por garantir a convivência segura com o intenso tráfego de helicópteros da Grande São Paulo.
“Para a Speedbird Aero, essa operação é um passo importante para consolidar o drone como parte da logística urbana. Em um mercado que cresce rapidamente, o desafio vai além do voo. A prioridade é garantir a segurança aérea”, afirma Manoel Coelho, CEO da Speedbird Aero.
“Em São Paulo nós temos um grande desafio. Além de termos a maior rota de aeronaves de asa fixas e de asa rotativa, temos também a maior rota de aeronaves remotamente pilotadas. E o maior desafio é acomodar todas essas aeronaves no mesmo espaço. Porque o céu parece muito amplo, mas é um desafio fazer o gerenciamento do espaço com tanta demanda”, completou Widelyne Conceição, controladora de Tráfego Aéreo na Força Aérea Brasileira (FAB).
O laboratório do iFood em Sergipe
Antes de chegar à Grande São Paulo, a operação foi testada e aprovada em Sergipe.
Drones conectam um shopping em Aracaju aos moradores de Barra dos Coqueiros. O trajeto terrestre, que poderia chegar a 36 km e consumir cerca de uma hora entre ida e volta, foi substituído por um voo de menos de 4 km realizado em aproximadamente três minutos.
A operação já ultrapassou a marca de 5 mil pedidos realizados, desde outubro de 2025, e serviu como laboratório para a expansão do projeto para São Paulo.
Segundo o iFood, alguns restaurantes chegaram a registrar aumento de até 50% no volume de pedidos após a implantação da rota aérea. Isso mostra que a tecnologia não apenas acelera entregas. Em alguns casos, ela cria mercados que antes nem existiam.
O mesmo modelo de aeronave utilizado em Sergipe é empregado em Barueri. Desenvolvido pela Speedbird Aero, o drone transporta até 5 kg, voa a 50 km/h e opera a uma altitude de até 60 metros. Ele é equipado com GPS, paraquedas de emergência e monitoramento remoto e suporta ventos de até 55 km/h e chuvas leves.
A operação contará com dois drones disponíveis para a rota, que poderão atuar simultaneamente de acordo com a demanda dos pedidos.
O próximo capítulo da experiência do cliente

A expectativa do iFood é expandir para outros residenciais da região, para outros pontos da cidade e até para outros estados do País, como o Rio de Janeiro. Mas, a velocidade da expansão vai depender do sucesso e das limitações percebidas na operação em Alphaville.
“A ideia é ter vários shoppings grandes com diversos restaurantes e condomínios em volta. Nosso sonho é que essa rota consiga destravar novos condomínios e que a empresa consiga, com essa mesma estrutura que temos aqui, abrir novos pontos de pouso e atender novos pedidos”, conta Arnaldo Bertolaccini, VP de Logística do iFood.
Para o consumidor, na prática, não muda muita coisa além da velocidade das entregas. Ele provavelmente não verá o drone, apenas continuará abrindo o aplicativo, escolhendo um restaurante e aguardando a chegada do pedido.
Mas o que acontece nos bastidores do delivery está mudando rápido. Robôs, Inteligência Artificial, sistemas interligados e drones começam a redesenhar uma gigante operação que movimenta milhões de entregas no Brasil todos os dias.
E o melhor de toda essa inovação é que, de fato, ela seja invisível. Porque o cliente não compra um drone, não pede um robô e nem escolhe uma rota aérea. Ele quer simplesmente a conveniência de receber o seu pedido, e rápido. Então, pouco importa quantos motores estavam funcionando nos bastidores, desde que o pedido chegue conforme o previsto. E a cada inovação, as expectativas e probabilidades de sucesso crescem.





