A Inteligência Artificial nos bancos brasileiros está entrando em uma nova fase. Depois de acelerar atendimento, pagamentos e operações simples, as instituições financeiras agora querem que a IA se torne uma espécie de “copiloto financeiro” do consumidor. Sendo capaz de interpretar hábitos, explicar gastos e ajudar na tomada de decisão em tempo real.
O movimento ganhou um novo capítulo nesta semana com a ampliação das funcionalidades do C6 Assistant, ferramenta de Inteligência Artificial do C6 Bank integrada ao aplicativo do banco. A partir de agora, clientes podem conversar diretamente com a fatura do cartão e com a conta corrente para entender melhor despesas, padrões de consumo e movimentações financeiras.
Na prática, o cliente pode perguntar quanto gastou com delivery nos últimos meses, descobrir quais dias da semana mais pede comida por aplicativo ou até identificar quais estabelecimentos mais frequenta. Também é possível consultar pagamentos recorrentes, localizar Pix enviados para contatos específicos e pedir um resumo detalhado da vida financeira recente.
Novo relacionamento com o banco
A proposta vai além dos tradicionais relatórios financeiros organizados por categorias. A ideia, segundo Gustavo Torres, head de Inovação do C6 Bank, é transformar dados bancários em uma experiência conversacional e personalizada, aproximando o banco da lógica dos assistentes de IA que já fazem parte do cotidiano dos consumidores.
“O que estamos construindo é uma nova forma de relacionamento com o banco. O C6 Assistant está evoluindo para se tornar um assistente de fato, capaz de ajudar o cliente a entender melhor suas finanças e a usar o banco de forma cada vez mais simples e intuitiva de inovação do C6 Bank”, diz Gustavo. “A IA passa a atuar como uma camada de inteligência que ajuda o cliente não só a executar tarefas, mas a compreender seus hábitos financeiros e tomar decisões com mais clareza.”
Investimentos em IA
O avanço acompanha um movimento mais amplo do setor financeiro. Mais de 82% dos bancos no Brasil já incorporam IA generativa, segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2025, realizada pela Deloitte. O levantamento aponta um aumento médio de 11,4% na produtividade das tarefas ao adotar a tecnologia, e os bancos estimam elevar seus investimentos em IA, Analytics e Big Data em 61%.
Já um estudo do Boston Consulting Group (BCG) projeta que o lucro dos bancos pode saltar de US$ 900 bilhões, em 2024, para US$ 1,3 trilhão até 2030, impulsionado principalmente por ganhos de produtividade e redução estrutural de custos. Nesse cenário, instituições classificadas como AI First podem reduzir seus custos entre 30% e 40% ao longo dos próximos anos.
Experiência bancária conversacional
O avanço acompanha um movimento mais amplo do setor financeiro. O Itaú Unibanco, por exemplo, também vem ampliando o uso de Inteligência Artificial em experiências de atendimento, organização financeira e investimentos. É o caso da ferramenta Inteligência de Investimentos, agente baseado em IA generativa que orienta clientes sem acesso a assessores humanos.
Já no Bradesco, a BIA, assistente virtual lançada em 2017, já sugere produtos e orientações financeiras. O Banco do Brasil, por sua vez, usa IA para ajustar ofertas de crédito, enquanto o Santander aplica a tecnologia para recomendar investimentos e limites de cartão.
Nos bastidores do mercado, a percepção é que a IA generativa deve se tornar uma das principais frentes de diferenciação entre bancos digitais e tradicionais nos próximos anos.
A disputa acontece em um momento em que instituições financeiras buscam aumentar engajamento e recorrência dentro dos aplicativos. Quanto mais o cliente utiliza o app para entender sua rotina financeira, e não apenas para realizar transações, maior tende a ser o vínculo com o banco.
Ao mesmo tempo, cresce a aposta em experiências mais intuitivas para investimentos. O próprio C6 Bank lançou recentemente uma funcionalidade que permite encontrar produtos de renda fixa e iniciar aplicações diretamente pelo chat com IA. O objetivo é reduzir a complexidade percebida por clientes que ainda se sentem intimidados diante da linguagem técnica do mercado financeiro.
Contextualizando comportamentos
O movimento também revela uma mudança importante na relação entre consumo e tecnologia. Se antes aplicativos financeiros mostravam apenas números, agora começam a contextualizar comportamentos. A IA deixa de ser uma ferramenta operacional para assumir um papel mais próximo de um assistente pessoal de finanças.
Esse avanço, porém, ainda navega em terreno regulatório incerto. O Banco Central incluiu na sua agenda de prioridades para o biênio 2025/2026 o estudo dos riscos e impactos do uso de IA no sistema financeiro. Mas, já sinalizou que não haverá uma regulação específica para o tema antes do fim de 2026. Enquanto isso, questões como explicabilidade de decisões algorítmicas e uso de dados pessoais seguem em aberto.
Por trás dessa transformação está um novo entendimento dos bancos sobre experiência do cliente. 83% das instituições priorizam a experiência do cliente como forma de diferenciação e direcionam os investimentos em tecnologia para esse propósito, segundo a Deloitte. O consumidor não quer apenas acesso aos dados, mas ajuda para interpretá-los. E, na corrida pela atenção dentro dos aplicativos, entender hábitos de consumo pode valer tanto quanto oferecer crédito ou investimento.





