Imagine ir ao supermercado e, em vez de se deparar com as tradicionais etiquetas de papel, encontrar pequenas telas na prateleira. Ao apertar um botão, uma delas pisca, outra acende em um LED colorido, e uma tela próxima, no corredor, começa a exibir um vídeo sobre aquele mesmo produto. Essa já é uma realidade em diversas lojas varejistas no País.
A responsável por essa cena é a Selbetti Tecnologia, que lançou uma nova geração de etiquetas eletrônicas interativas. Equipadas com botões programáveis, LEDs em sete cores e tecnologia NFC, elas permitem que o consumidor acesse informações do produto direto na prateleira. Ao mesmo tempo, podem acionar conteúdos em telas de digital signage espalhadas pelo ponto de venda.
Da eficiência operacional à experiência
O movimento das etiquetas eletrônicas nasceu como uma solução operacional. O objetivo é reduzir o tempo e o custo de trocar preços manualmente, evitar divergências entre o valor exibido na gôndola e o cobrado no caixa, e diminuir o desperdício de papel.
As etiquetas da Selbetti usam tecnologia e-paper de alta resolução, com telas de 1,6 a 11,6 polegadas, adaptáveis ao tamanho de cada gôndola. A bateria dura mais de dez anos em uso normal, o que reduz a necessidade de manutenção constante. São resistentes à água e à poeira (certificação IP67) e funcionam em ambientes refrigerados, como em seções de frios e congelados. Além disso, usam criptografia para proteger os dados.
Cada etiqueta eletrônica armazena até sete páginas de informação, que o cliente navega pelos botões. Entre elas estão:
- Preço.
- Informação nutricional.
- Origem do produto.
- Avaliações de outros consumidores.
- QR codes para cupons digitais.
É justamente aqui que a tecnologia dá um salto de propósito. Ao integrar a etiqueta com telas de digital signage no ponto de venda, a Selbetti transforma um item de controle de estoque em um canal de comunicação com o consumidor. Para a indústria e o varejo, trata-se de uma nova forma de exposição de marca.
“Quando apresentamos essa integração para indústrias e varejistas, a reação é imediata: eles enxergam ali uma ferramenta de retail media que não existia para lançamento de produtos no ponto de venda”, explica Paulo Moratore, head da Selbetti Retail Experience. “O consumidor aperta o botão na etiqueta, e o conteúdo da marca aparece na tela ao lado. É simples, é direto e não depende de aplicativo nem de QR Code.”
A gôndola como plataforma de mídia
A leitura de Moratore reflete uma mudança mais ampla na forma como o varejo passa a enxergar o espaço físico da loja. Se antes a prateleira era apenas o lugar onde o produto esperava para ser escolhido, agora ela se torna um ponto de interação. E, principalmente, um espaço de mídia mensurável. Nele, indústrias podem pagar para aparecer no momento exato em que o consumidor está diante da decisão de compra.
Um exemplo prático desse cruzamento entre tecnologia, personalização e ponto de venda é o Sommelier Digital. O totem com tela touch e Inteligência Artificial da Selbetti já opera integrado às etiquetas eletrônicas na seção de vinhos de redes varejistas. O consumidor informa a ocasião, o tipo de harmonização desejado e a faixa de preço, e o sistema recomenda rótulos disponíveis na loja. Ao selecionar um vinho, a etiqueta eletrônica correspondente pisca na prateleira, guiando o cliente até o produto físico.
“A etiqueta eletrônica entrou no varejo brasileiro pela porta da eficiência operacional, que é reduzir o custo de troca de preços e eliminar divergências no caixa. Mas o que estamos mostrando agora é que ela pode ir muito além: se tornar um canal de mídia, uma ferramenta de trade marketing e um ponto de interação com o consumidor. É a gôndola se transformando em plataforma”, resume Moratore.

Expansão das etiquetas eletrônicas
A companhia já opera sua plataforma de gestão de preços, promoções e ofertas em mais de 16 mil lojas de 240 redes varejistas no Brasil. A empresa atende nomes como Carrefour, Casas Bahia, Raia Drogasil, Pão de Açúcar, Leroy Merlin e Grupo Mateus.
Na última virada de preços do setor farmacêutico, em abril, a plataforma processou mais de 90 milhões de alterações de preço em uma única operação. O volume ilustra por que a etiqueta eletrônica, e não mais o papel, se torna o único formato capaz de sustentar esse tipo de operação em escala.
Segundo a empresa, 85% dos contratos fechados neste ano pela unidade de Retail Experience foram justamente de etiquetas eletrônicas. A meta é chegar a 100 lojas equipadas até o fim de 2026.
Movimento global
O avanço das etiquetas eletrônicas no Brasil acompanha uma tendência que já é consolidada em outros mercados. Na Europa, redes como Carrefour, Tesco, Lidl, Aldi, Morrisons e Co-op já adotam ou expandem sistemas de etiquetas digitais em milhares de lojas.
Nos Estados Unidos, o Walmart é o expoente mais visível dessa transição. A rede vem ampliando a instalação de etiquetas eletrônicas desde 2024 e projeta ter a tecnologia em todas as suas lojas americanas até o fim de 2026. Segundo a companhia, a mudança reduz significativamente o tempo que os funcionários gastam trocando preços manualmente, que é redirecionado para o atendimento ao cliente. Além disso, a tecnologia melhora a velocidade de separação de pedidos online.
No Brasil, a escassez de mão de obra operacional no varejo começa a reproduzir um cenário parecido com o que a Europa viveu há uma década. O que, por sua vez, ajuda a explicar a aceleração da demanda por automação na execução de preços e ofertas e, por consequência, por soluções como a da Selbetti, o que garante competitividade de custo e agilidade na cadeia de suprimentos.
O outro lado da etiqueta
Se a promessa de eficiência e de mídia no ponto de venda anima varejistas e indústrias, o mesmo avanço tecnológico já provoca reação em sentido oposto entre consumidores e legisladores. Isso especialmente nos Estados Unidos, onde a adoção é mais madura.
O principal argumento comercial das etiquetas eletrônicas é a capacidade de alterar milhares de preços simultaneamente e em segundos. Mas é também o que alimenta o receio de que a tecnologia seja usada para precificação dinâmica ou personalizada. Ou seja, preços diferentes para consumidores diferentes, definidos por algoritmos com base em dados de comportamento, horário ou até perfil de compra.
Nos EUA, esse temor já chegou ao Congresso. Parlamentares apresentaram projeto de lei para restringir o uso de etiquetas eletrônicas para esse tipo de precificação, muitas vezes descrita como “surveillance pricing”, ou precificação por vigilância.
O Walmart, maior varejista do país e o rosto mais visível da expansão da tecnologia, tem reagido publicamente ao debate. A empresa afirma que o sistema mantém o mesmo preço para todos os consumidores em uma mesma loja, independentemente de horário, demanda ou perfil de quem compra. Além disso, segundo o Walmart, as etiquetas não coletam dados do consumidor nem operam com câmeras ou microfones.
A controvérsia expõe uma tensão: a mesma infraestrutura que permite corrigir um preço errado em segundos é, tecnicamente, capaz de personalizar esse preço com a mesma velocidade. Porém, a diferença entre um uso e outro não está no hardware da etiqueta, mas na governança, na regulação e na transparência de cada rede sobre como e por que um preço muda.
O que fica no meio do caminho
No Brasil, o discurso em torno das etiquetas eletrônicas ainda está concentrado na eficiência operacional e, mais recentemente, no potencial de mídia no ponto de venda.
O debate sobre os limites éticos da precificação dinâmica, que já mobiliza legisladores americanos, ainda não chegou com a mesma força ao mercado nacional. Mas, tende a acompanhar o ritmo de adoção da tecnologia, à medida que mais redes brasileiras integrarem etiquetas eletrônicas aos seus sistemas de gestão de preços.
Assim, o consumidor brasileiro que topar com uma dessas telas na prateleira vai perceber, antes de tudo, uma gôndola mais interativa, mais informativa e mais conectada ao ponto de venda digital.





