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Brasileiros perdem o medo da IA e tecnologia vira motor de mudança no trabalho

Brasileiros perdem o medo da IA e tecnologia vira motor de mudança no trabalho

Estudo mostra que, em um ano, a relação dos brasileiros com a Inteligência Artificial evoluiu da desconfiança para a incorporação cotidiana.
Brasileiros perdem o medo da IA e transformam o uso pessoal em motor de mudança no trabalho
Foto: Shutterstock.com
Em menos de um ano, os brasileiros deixaram o medo e passaram a adotar a Inteligência Artificial de forma natural no dia a dia, segundo estudo da AntennasBI e CX Brain. A tecnologia agora é vista como aliada na organização pessoal e no equilíbrio entre trabalho e vida, impulsionando mercados como saúde e educação. Enquanto o uso pessoal cresce rapidamente, as empresas ainda enfrentam barreiras culturais e precisam avançar em governança e propósito para integrar a IA de forma estratégica.

Em menos de doze meses, a percepção dos brasileiros sobre a Inteligência Artificial (IA) passou por uma virada cultural. Se em 2023, a metade da população ainda via a tecnologia com receio – com o medo de perder o emprego, desconfiança da capacidade das ferramentas ou preocupações com o mau uso –, hoje a IA se tornou parte natural do dia a dia dos brasileiros. A conclusão faz parte de um estudo conduzido pela AntennasBI com a CX Brain.

O levantamento, que ouviu mais de mil pessoas em vídeo, revela um País que incorporou a IA de forma espontânea e transversal. “Em menos de um ano, fomos de céticos a ultra-adotados desta nova ferramenta por uma simples questão de encaixe social. Ela entra em diferentes momentos e camadas com usos distintos, sempre se adequando às necessidades de todos nós, brasileiros”, resume Gustavo Lotufo, COO da AntennasBI.

A barreira do medo, segundo Gustavo, simplesmente desmoronou. As pessoas passaram a aprender e a testar IA em todas as atividades do cotidiano: no trabalho, na casa, no skincare, nos estudos dos filhos, em conversas sobre relacionamentos amorosos e até em dicas sobre a saúde.

Essa apropriação natural da tecnologia, que antes era restrita a ambientes corporativos e nichos de inovação, agora se expande para a vida pessoal. E, ao fazer isso, muda também a forma como o brasileiro se relaciona com o trabalho, com o consumo e com o próprio tempo.

Do medo à ferramenta de autoconhecimento

Para Jacques Meir, diretor-executivo de Conhecimento do Grupo Padrão, o fenômeno reflete uma mudança mais profunda na mentalidade do brasileiro. Há uma transformação na forma como ele se relaciona com a tecnologia, e isso tem a ver com o desejo de facilitar a própria vida.

“O brasileiro percebe que a tecnologia, de certa maneira, o ajuda a enfrentar o corre do dia a dia. A Inteligência Artificial caiu no gosto de quem começou a experimentar e usar. Isso porque ela facilitou uma série de atividades para as quais não havia interlocutor, tempo de troca com outras pessoas ou acesso a fontes de pesquisa. Por quê? Porque o brasileiro está o tempo todo correndo atrás”, explica.

O estudo mostra que 63% dos entrevistados gostariam que a IA ajudasse mais naquilo que os pesquisadores chamaram de “organização pessoal”. Aqui, trata-se de um conjunto de tarefas que abrange a gestão do tempo e a rotina doméstica.

“Gerenciar uma casa, com família e aspectos financeiros, é algo que, de certa forma, parece fácil, mas demanda tempo e geralmente traz surpresas. Estamos falando de uma necessidade real da população: facilitar a vida para poder aproveitá-la melhor”, observa Gustavo. “As pessoas querem que a IA as ajude a organizar a agenda da casa para ter mais tempo com a família e com seus hobbies.”

O Brasil hiperconectado como terreno fértil

Se o uso de IA floresce no País, é porque o terreno é fértil. Esse contexto se reflete em mercados inteiros. Segundo Gustavo, o crescimento de edtechs, healthtechs, martechs e retailtechs é consequência direta dessa adesão cultural.

“A IA está entrando no nosso cotidiano porque as pessoas estão se sentindo tão à vontade e confortáveis com a sua adoção que já fazem testes próprios nas mais diversas áreas, como saúde, educação, consumo, entre muitas outras. Logo, é esperado que o mercado de saúde, educação e consumo em geral também acompanhe este movimento para criar produtos e serviços que atendam essa demanda”, diz.

Nos vídeos analisados, o estudo identificou que as interações com IA não são dominadas por marcas específicas, mas revelam padrões de preferência e influência que apontam para um novo tipo de consumo.

“Agora, com a IA, é preciso estar atento ao que ouvimos: primeiro, as pessoas perguntam ou transacionam algo com IA, um ambiente ainda ‘independente’ ou ‘neutro’ da presença de marcas que deve ser percebido”, analisa Gustavo. “Como encaixar esse contexto cultural de forma natural e que entenda as premissas deste novo consumidor que surge já imaginando a transação via IA como um lugar neutro, sem nenhum interesse comercial? Um grande desafio para as marcas marcarem presença neste campo hoje.”

Quando o uso pessoal invade o trabalho

A pesquisa também expõe uma inversão curiosa: a adoção individual da IA avança mais rápido que a corporativa. Segundo Jacques, isso acontece porque as empresas ainda enfrentam barreiras culturais, enquanto os indivíduos se sentem livres para explorar.

“As pessoas físicas sempre andam mais rápido que as jurídicas. É da natureza das pessoas físicas mergulhar e explorar mais essas ferramentas. Por quê? Porque as empresas precisam seguir determinados rituais e processos que envolvem segurança da informação, seus próprios temores, e a necessidade de aplicar tempo e recursos disponíveis para gerar negócios”, explica.

Já quanto ao uso corporativo, Jacques frisa que as companhias que ainda resistem à adoção precisam entender que o movimento é inevitável. “Não adianta ficar em compasso de espera. As pessoas vão forçar as empresas a usar IA”, diz. “E há o outro lado: setores mais intelectuais, com medo de serem substituídos, precisam fazer o oposto: mergulhar de vez na tecnologia.”

Governança e propósito: o novo desafio empresarial

A solução, segundo Jacques, está em estabelecer processos de governança claros para o uso da IA, e não apenas em promover treinamentos genéricos.

“O treinamento é consequência de uma política de governança. Treinar por treinar, muitas vezes, pode não gerar o melhor resultado. Ainda assim, é melhor treinar e trazer à luz do dia o uso da IA. Mas o fundamental é dar às áreas de negócio a possibilidade de estabelecer por onde elas querem começar a utilizar a Inteligência Artificial e, assim, desenvolver pilotos que tragam resultados claros e mensuráveis em pouco tempo”, afirma.

A advertência final é clara: sem uma cultura voltada à inovação, a IA pode se tornar um ornamento, não uma alavanca. “Sem alinhar pessoas e cultura, você não faz a IA trabalhar a seu favor”, reforça Jacques. Gustavo complementa: “Não é um tema simples. Ainda carece de regulamentação e entendimento por parte da população, das autoridades em cada país e dos gestores das tecnologias. Este momento deve evoluir, mas minha opinião é que as pessoas continuarão interessadas e querendo usar cada vez mais”.

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