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Resenha: A estranheza do Vale do Silício

Resenha: A estranheza do Vale do Silício

Entre novos conceitos de produtividade e modelos de negócios, autora descreve a realidade das startups de San Francisco.

Em 1970, o especialista em robótica Masahiro Mori cunhou o termo uncanny valley, ou vale da estranheza. É uma tentativa de definir o desconforto que sentimos ao nos depararmos com robôs muito similares aos seres humanos. Em vez de sentirmos prazer e acharmos agradável uma semelhança cada vez mais próxima à nossa, a ideia nos causa espanto. Quando as máquinas voltam a ter uma aparência distante da dos seres humanos, esse estranhamento vai embora.

É essa experiência que Anna Wiener, profissional do mercado editorial, sentiu na pele. Mas em vez do sentimento de absurdo vir diretamente dos robôs, o absurdo estava em um lugar – e tudo o que está contido nele: o Vale do Silício. As ricas e vastas terras da cidade de San Francisco dominadas por startups, empresas de tecnologia, investidores e empreendedores, além de movimentar quantias estratosféricas de dinheiro e recursos, é também fonte de novas relações de trabalho, culturas organizacionais e comportamentos que tiveram sua influência em outras partes do mundo.

No livro Vale da estranheza: Fascínio e desilusão na meca da tecnologia (Companhia das Letras), Wiener narra a sua trajetória profissional entre as startups de tecnologia. Ao descobrir a existência de uma nova empresa de tecnologia focada em construir uma solução de leitura de livros por meio de um modelo de assinatura – algo parecido com que a Kindle Unlimited, da Amazon, e a Skeelo oferecem hoje –, Anna Wiener decidiu se mudar para o Vale do Silício e tentar uma nova incursão num mercado em pleno crescimento.

Nessa e em outras startups nas quais atuou, a autora encontrou novas formas de trabalhar, com descrições de responsabilidades e atribuições fluídas, conceitos inéditos de produtividade, estilo de vida e de relação com o dinheiro que lhe eram tão diferentes de sua experiência prévia trabalhando numa agência literária na cidade de Nova York. Essas aproximações e estranhamentos contidos na descrição de Wiener nos ajudam a entender não só o fascínio com o Vale do Silício como também suas bizarrices e extrapolações em relação ao mercado norte-americano.

Informalidade tecnológica

Em 2013, Anna Wiener decidiu deixar a agência literária onde trabalhava para embarcar em uma nova trajetória profissional, explorando todo o potencial que o Vale do Silício poderia lhe oferecer. Por mais que estivesse entrando para uma empresa tecnologia, não era tão longe de sua alçada, uma vez que a startup tinha como proposta criar um modelo de assinatura para facilitar a leitura de livros digitais em seus dispositivos.

No entanto, os primeiros contatos com os fundadores da startup lhe foram bastante diferentes de sua experiência prévia. Eram jovens em meados de seus 20 e poucos anos com grande ambição por sucesso e dinheiro – algo ainda tabu no meio editorial com o qual trabalhava. Sua entrevista de emprego para a vaga foi informal, com perguntas que pouco tinham relação com as habilidades necessárias e esperadas para o cargo.

A autora aponta para essa informalidade presente no ambiente da startup. As definições sobre suas responsabilidades e atribuições no cargo não eram claras – mais do que isso, esperava-se que fosse além de suas competências, desafiando-se para executar mais tarefas e, assim, ajudar o negócio a crescer.

“O que eu tampouco entendia na época era que os fundadores esperavam que eu fizesse meu próprio trabalho, sem instruções deliberadas”, afirma a autora na obra. “A marca da pessoa ativa, do verdadeiro espírito empreendedor, era criar o emprego que queria e fazê-lo parecer indispensável, mesmo que fosse desnecessário do ponto de vista institucional. Tratava-se de uma estratégia existencial para a própria indústria tecnológica, e não me ocorria naturalmente”.

Além disso, por mais que a empresa tivesse como produto principal a oferta de um modelo de leitura de livros, seus fundadores pouco sabiam sobre literatura. Tampouco tinham um produto pronto para ofertar ao mercado. Já a ideia de um plano de assinatura se dava após o sucesso de outras empresas que adotaram o modelo, com a justificativa de que os Millennials estavam mais interessados em ter experiências do que em acumular posses – ignorando a crise financeira enfrentada pelos jovens dessa geração.

Crescimento precoce

Em outra experiência no Vale do Silício, Anna Wiener trabalhou numa startup de análise de dados, em um período em que Big Data começava a ganhar grandes proporções entre as empresas de tecnologia como o futuro dos negócios. Novamente, havia algo de informalidade: os fundadores eram dois jovens na casa de seus 20 anos que haviam largado a faculdade para criar um novo negócio em San Francisco – algo bastante comum para o Vale do Silício, inspirado nas trajetórias de grandes nomes da tecnologia, como Bill Gates, Steve Jobs e Steve Wozniak.

Mas não eram só os fundadores que apresentavam essas grandes passadas em curtíssimo tempo, mas seu negócio também. A startup já havia recebido US$ 12 milhões em financiamento e contava com uma carteira de milhares de clientes, por mais que só tivesse 17 funcionários. Havia ainda uma expectativa por participação acionária por parte da pequena equipe desde cedo, por mais que a empresa nem ao menos tivesse um modelo de receita viável. Seu foco estava, na verdade, na maior penetração no mercado. Mesmo assim, somente seu potencial já garantia uma valoração de quase US$ 1 bilhão.

“O produto, na verdade, era extremamente técnico, mas a empresa ressaltava sua usabilidade. A quantidade de informações que eu precisava absorver para ser ao menos um pouco útil a nossos clientes era assustadora. A curva de aprendizado me parecia invencível”, conta. “Estava feliz; estava aprendendo. Pela primeira vez na minha vida profissional, não era a responsável por fazer o café de alguém. Estava resolvendo problemas. […] A primeira vez que olhei um bloco de códigos e entendi o que estava acontecendo, me senti nada mais nada menos que um gênio”.

Para alcançar esse objetivo, era esperado que seus funcionários também evoluíssem a uma velocidade quase impossível. A expectativa era de que a equipe defendesse a chamada “causa” da empresa a todo custo, colocando os interesses do negócio acima de si próprio, fazendo atividades e assumindo responsabilidades além das assumidas com o cargo. A produtividade deixava de estar atrelada à quantidade de horas trabalhadas semanalmente.

A cultura de San Francisco

O Vale do Silício mudou não somente o ecossistema de negócios – dos Estados Unidos e de todo o mundo, nos mais diferentes segmentos –, como também a própria cidade onde está localizado. Como novo centro financeiro, San Francisco se transformou de diferentes formas, acolhendo e se adaptando a novos comportamentos e estilos de vida, e também lidando com uma crescente desigualdade social e econômica em sua população.

Anna Wiener descreve como, ao começar a trabalhar na startup de análise de dados, alugou um apartamento para si. Um espaço pequeno, de 25 metros quadrados, que podia chamar de seu em plena San Francisco e a poucos quarteirões do escritório da empresa. No entanto, no quarteirão também acontecia a venda de drogas a céu aberto, brigas à luz do dia e outras atividades perigosas que apontavam para um crescente distanciamento entre a riqueza das empresas de tecnologia e a população mais vulnerável.

“A cada três meses, um engenheiro aspirante a empreendedor, recém-chegado à cidade, postava uma ladainha em uma plataforma de blogs sem modelo de receitas. Desancava os pobres por se agarrarem à regulamentação governamental do preço dos aluguéis e assim provocar a subida dos valores dos apartamentos, ou desancava as séries de barracas à beira da autoestrada por serem feias. Sugeria a monetização dos sem-teto, transformando-os em pontos de wi-fi”.

A cidade também passou a receber cada vez mais visitantes hospedados em casas de residentes por meio de plataformas de aluguel de quartos e imóveis, conforme mais pessoas buscavam a vida no Vale do Silício. San Francisco passou a atender esse público que buscava novas experiências e serviços, como bares, restaurantes, atividades e serviços. Aos poucos, San Francisco se tornava um estilo de vida.

“Funcionários de startups vindos de fora se queixavam da infraestrutura de trânsito, um sistema antigo repleto de falhas que se encerrava quase totalmente à meia-noite – não que alguém que ganhasse um salário de médio escalão na indústria tecnológica fosse pegar ônibus”, explica Anna Wiener no livro. “Uma fartura de aplicativos de transporte havia surgido para ocupar o posto dos bondes decadentes de San Francisco e sua duvidosa frota de táxis. A maior era uma startup de caronas sob demanda, uma empresa empenhada na dominação a qualquer preço, inclusive o da lucratividade”.

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