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Apostas online em alta: Proposta de novo imposto quer frear avanço do mercado

Apostas online em alta: Proposta de novo imposto quer frear avanço do mercado

Nos últimos meses, a discussão sobre o impacto das apostas online no endividamento das famílias ganhou destaque. Mas será que a culpa é realmente das apostas?
Nos últimos meses, a discussão sobre o impacto das apostas online no endividamento das famílias ganhou destaque. Mas será que a culpa é realmente das apostas?
Foto: Shutterstock.
É importante lembrar que o crédito de curto prazo é o verdadeiro vilão! O cartão de crédito é o principal responsável pelas dívidas dos brasileiros, seguido por empréstimos pessoais e cheque especial. E por que isso acontece? A perda de poder de compra leva muitos a recorrerem a linhas de crédito caras para suprir necessidades básicas. Em um cenário de inflação e juros altos, essa dependência só aumenta!

O recém-regulamentado mercado de apostas esportivas no Brasil, iniciado em janeiro de 2025, está se consolidando como um verdadeiro impulsionador da economia nacional. Para se ter uma ideia, a estimativa de movimentação é de R$ 36 bilhões em faturamento apenas neste ano. Dessa forma, o setor não só está gerando empregos, como também contribuindo significativamente para a arrecadação de impostos. Um estudo elaborado pela LCA Consultores e Cruz Consulting provê a informação.

Segundo eles, a previsão é que o mercado de apostas injete R$ 28 bilhões na economia. Ademais, trata-se de um mercado que está sustentando cerca de 15 mil empregos diretos e indiretos. E os salários médios superam os R$ 7 mil mensais. Isso é mais que o dobro do salário médio nacional, o que mostra que as oportunidades nessa área são atraentes e vantajosas para os trabalhadores.

Entre os benefícios diretos para a sociedade, a arrecadação estimada em tributos federais é de R$ 9 bilhões e R$ 600 milhões em 2025.

Reprodução: LCA Consultores e Cruz Consulting.

Profissões do setor de apostas

O crescimento do setor também trouxe novas profissões, com 67 novas ocupações surgindo, desde desenvolvedores de sistemas até analistas de risco. Isso não só diversifica o mercado de trabalho, mas também exige que os trabalhadores se capacitem em áreas tecnológicas e gerenciais, elevando o nível de qualificação da mão de obra.

Outra grande novidade é que o setor de apostas se tornou o maior patrocinador do futebol brasileiro. Em 2025, 18 dos 20 clubes da Série A contaram com casas de apostas como patrocinadores master, totalizando R$ 1,1 bilhão em investimentos por temporada. Esse valor é comparável a prêmios de grandes competições, e mostra como esses patrocínios são cruciais para a sustentabilidade financeira dos clubes.

A regulamentação do mercado trouxe também segurança e transparência, com regras claras sobre licenciamento e rastreabilidade de pagamentos. Isso é fundamental para proteger o consumidor e garantir que as apostas sejam feitas de forma responsável. A luta contra o mercado clandestino, que ainda representa cerca de 50% das apostas, é outro ponto essencial, pois o jogo ilegal não gera receita para o País e pode trazer diversos prejuízos.

Em resumo, a regulamentação do mercado de apostas no Brasil não é apenas uma nova forma de entretenimento, mas sim uma oportunidade de crescimento econômico e social. Com investimentos, empregos e uma contribuição significativa para os cofres públicos, esse setor promete transformar a realidade de muitos brasileiros. Esse ponto de vista foi destacado por André Gelfi, do Instituto Brasileiro de Jogo Responsável: “Estamos diante de um novo ciclo de oportunidades que pode beneficiar a todos”.

Principais insights do estudo:

  • O setor recebeu R$ 7,5 bilhões em capital social investido, com um efeito multiplicador estimado em R$ 28 bilhões em outros segmentos da economia. Por consequência, cada R$ 1 investido no mercado de apostas gera R$ 3,74 em demanda adicional em diferentes setores, segundo o modelo de insumo-produto elaborado pela LCA a partir das Contas Nacionais do IBGE.
  • Atualmente, 82 empresas estão ativas no País, com 193 marcas autorizadas a operar, concentradas principalmente em São Paulo, Pernambuco e Paraíba. Por lei, ao menos 20% do capital social dessas empresas deve ser de titularidade brasileira.
  • Com a regulamentação, o mercado formalizou 15,5 mil postos de trabalho diretos e indiretos até 2025. Desses, 10 mil são empregos diretos (entre contratados e terceirizados) e 5,5 mil indiretos.
Reprodução: LCA Consultores e Cruz Consulting.

Qualificação profissional

  • O setor de apostas se destaca pela qualificação dos profissionais: 47% dos empregados diretos têm nível superior. O salário médio é de R$ 7 mil para contratados e R$ 4 mil para terceirizados, acima da média nacional de R$ 3,2 mil. A massa salarial anual gerada pelos empregos diretos é de R$ 460 milhões, somada a R$ 87 milhões em encargos sociais como INSS e FGTS. Esse rendimento tem potencial de gerar R$ 1 bilhão em renda adicional na economia brasileira.
  • No que tange à arrecadação tributária, o faturamento bruto (GGR) das operadoras de apostas deve alcançar R$ 36 bilhões em 2025, com arrecadação federal estimada em R$ 9 bilhões e municipal em R$ 600 milhões. Os principais tributos recolhidos são IRPJ, CSLL, PIS, Cofins e ISS, além de uma contribuição obrigatória de 12% sobre o faturamento bruto e uma taxa de fiscalização de R$ 128 milhões. A Contribuição sobre o GGR deve gerar R$ 4,4 bilhões em 2025, sendo destinada principalmente a esporte (R$ 1,6 bi), turismo (R$ 1,2 bi) e segurança pública (R$ 590 mi). Parte desses recursos equivale, por exemplo, à manutenção de 23 unidades básicas de saúde (UBSs) ou à contratação de 7.421 professores do ensino básico.

Vem aí um novo imposto?

De um lado, o consumo de apostas digitais no Brasil crescendo em ritmo acelerado. Do outro, a preocupação com o endividamento. Isso porque a proporção de famílias com dívidas subiu a 79,5% em outubro, maior patamar da série histórica iniciada em 2010. Diante desse cenário, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) lançou o manifesto Pela Tributação das Bets, defendendo a criação da CIDE-Bets, um imposto seletivo sobre o valor das apostas.

Em suma, a proposta sugere uma alíquota de 15%, semelhante à aplicada a produtos como cigarros e bebidas alcoólicas. Primordialmente, a cobrança seria feita no momento da aposta, e os recursos arrecadados seriam destinados à saúde e à educação. Segundo o diretor de Economia da CNI, Mário Sérgio Telles, a medida busca “trazer justiça tributária e controlar o crescimento do mercado, evitando problemas socioeconômicos sem inviabilizar o setor”.

O presidente da entidade, Ricardo Alban, reforça o argumento: “Enquanto o setor produtivo enfrenta uma carga tributária elevada, o mercado de apostas digitais paga muito menos impostos e ainda drena recursos da economia real”.

A estimativa da CNI é que a medida possa gerar R$ 8,5 bilhões em arrecadação já em 2026, caso seja aprovada ainda em 2025. Em 2027, a CIDE-Bets seria substituída pelo imposto seletivo previsto na reforma tributária.

Impacto direto no bolso do apostador

Na prática, o imposto elevaria o custo imediato da aposta. Um exemplo citado no manifesto mostra que, ao apostar R$ 10, o consumidor teria um gasto de R$ 11,50 com a nova alíquota aplicada. Nesse ínterim, a CNI acredita que o aumento pode desestimular o comportamento de risco e reduzir o volume total de apostas. Hoje esse volume ultrapassa R$ 70 bilhões por ano. Como resultado, a entidade quer reduzi-lo para cerca de R$ 56 bilhões.

Por outro lado, especialistas alertam que o efeito pode recair sobre o próprio apostador, que tende a gastar mais em busca de retorno. O Instituto Locomotiva revela que 51% dos apostadores já usaram dinheiro que poupavam para jogar, e 59% afirmam conhecer alguém endividado por causa das apostas.

Crédito versus Pix

 
Nos últimos meses, o debate sobre o impacto das apostas online no endividamento das famílias ganhou espaço público. À primeira vista, o crescimento do setor parece apontar para um novo culpado pela inadimplência. No entanto, os números revelam uma realidade diferente – e mais profunda.

O verdadeiro motor do endividamento no País continua sendo a dependência do crédito de curto prazo. Segundo dados de mercado, o cartão de crédito segue como o principal responsável pelas dívidas dos brasileiros, seguido por empréstimos pessoais e cheque especial. Esse comportamento está diretamente ligado à perda de poder de compra, que leva milhões de consumidores a recorrerem a linhas de crédito caras e emergenciais para manter o consumo básico.

Atualmente, a CNDL e a SPC Brasil, em parceria com a Offerwise, publicaram um material mostrando que o cartão de crédito é o maior responsável pela inadimplência no País. O levantamento aponta que 23% dos consumidores inadimplentes têm dívidas no cartão, seguidos por empréstimos em bancos (16%) e crediário (12%).

Em um cenário de inflação persistente, juros elevados e falta de controle financeiro, o crédito fácil é armadilha. A taxa média do rotativo do cartão de crédito, por exemplo, pode ultrapassas os 11 dígitos ao ano, tornando praticamente impossível sair do vermelho quando o saldo não é quitado integralmente.

Regras rígidas

Enquanto isso, o setor de apostas regulamentadas opera através do Pix. Todas as transações devem ser feitas via Pix, o que garante rastreabilidade, transparência e controle das operações – diferentemente do crédito, que frequentemente empurra o consumidor para o endividamento sem garantias reais de solvência.

Uma nova pesquisa da Fundação Procon-SP trouxe à tona um alerta importante para quem pretende recorrer ao crédito. Com a taxa Selic mantida em 15% ao ano, os custos do crédito continuam altos. Por exemplo, a taxa média do empréstimo pessoal subiu para 8,16% ao mês, um aumento de 0,07 ponto percentual em relação ao mês anterior.

O contraste expõe um paradoxo: enquanto o discurso público mira as bets como símbolo de irresponsabilidade financeira, o problema estrutural está no sistema de crédito, que continua caro, desigual e desregulado na prática. Apostar pode ser um risco, mas viver à base do crédito rotativo é uma certeza de perda.

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