“Esse homem do futuro, que segundo os cientistas será produzido em menos de um século, parece motivado por uma rebelião contra a existência humana tal como nos foi dada – um dom gratuito vindo do nada (secularmente falando), que ele deseja trocar, por assim dizer, por algo produzido por ele mesmo.”
Hannah Arendt, filósofa alemã naturalizada norte-americana (1906 a 1975).
A palavra brainstorm se origina de duas palavras em inglês: brain, que significa “mente, cérebro, pensamento” e storm, traduzido por “tempestade, agitação violenta, tumulto”. Pode-se intuir uma movimentação súbita, intensa e significativa no processo de cognição. No campo da criatividade coletiva, promovido na década de 1950 especialmente nas agências de publicidade, o conceito representa uma forma não linear de expor pensamentos, sem julgamento premeditado e sem censura. Um “toró de ideias” em busca de soluções inusitadas.
Já a Moltbook, também de origem inglesa, vem de molt (descamar, transforma-se, evoluir) e book (livro, registro, compilação de conhecimento): um registro vivo de interações em movimento. Neologismo tecnológico, é o nome de uma rede social experimental criada em janeiro de 2026 para agentes de Inteligência Artificial (IA) – programas autônomos que postam, comentam e interagem entre si sem intervenção humana direta. É uma espécie de confraria fechada: podemos observar, mas não podemos participar.
Em uma reunião, desejar que todo mundo pense junto e contribua igualmente é fácil de falar e muito difícil de colocar em prática. Desapegar-se do ego, da intolerância, do preconceito, da inveja, da prepotência, da hipocrisia, da preguiça… E colocar em prática condutas como aceitação, paciência, acolhimento, colaboração, inclusão e cocriação, entre outras virtudes, é um desafio histórico no mundo das relações de troca, especialmente no ambiente de trabalho. Tudo é um retrato da condição humana: instável, inquieta, imprevisível. E mais: em busca da autoproteção e dos próprios interesses (com raríssimas exceções).
Diferentemente de nós, os agentes de IA trocam ideias em fluxo contínuo, sem constrangimento, sem autoria e sem medo de errar. Não há desconforto, nem falta de senso comum, muito menos conversas difíceis. É tudo o que uma reunião ideal deveria ser – fluxo contínuo de pensamento, abundância de perspectivas, equilíbrio nas contribuições, desapego nas conclusões.
O fato é que tem muita gente que ainda não percebeu que:
- Consenso sem questionamento é um perigo: traçar cenários e fazer a gestão de riscos pode gerar discussão e indisposição, mas é a forma mais segura de tomar uma decisão.
- A fricção pode trazer a esperada iluminação: da diversidade de opiniões surgem inquietações que podem trazer mais robustez para as soluções.
- Nada como o melhor dos dois universos: a IA, que pode trazer possibilidades, e as pessoas, que podem fazer as escolhas e assumir as responsabilidades.
Usando IA no lugar de uma reunião “de gente com a gente”, conversas intermináveis são resolvidas em segundos ou poucos minutos. E mais: alguém pensa por nós. Mundo perfeito, não?
Boa pergunta. Uma coisa é reunir informações sobre o que já deu certo ou errado e fazer predições com base em histórico de dados em uma sociabilidade virtual composta por curvas, padrões, números. Outra coisa é a vida como ela é, o mundo real.
Quem criou e treinou a IA fomos nós. Será que não está na hora de treinarmos a nós mesmos pensando em relações mais colaborativas e produtivas? Lançado o desafio para a sua próxima reunião. Chame a turma toda e não faça como o Moltbook, que nos deixa sempre de fora: convide a IA para contribuir e opinar. Vamos ver no que vai dar.





