O aumento dos pedidos de recuperação judicial no varejo confirma uma tendência estrutural, reflexo direto de um ambiente econômico ainda pressionado, de margens operacionais mais estreitas e de modelos de negócio que não acompanharam a velocidade das transformações do consumo e do crédito. O cenário, por ora, não indica melhora. Segundo o IVS (Índice do Varejo Stone), as vendas do comércio recuaram 0,5% no 3º trimestre de 2025 em relação a 2024.
A retração pressiona um setor que depende fortemente da confiança dos clientes, tornando qualquer processo de recuperação judicial especialmente delicado. Quando uma indústria entra em recuperação, o impacto se restringe a credores e fornecedores. Quando uma varejista faz o mesmo, há reflexos imediatos no caixa, na imagem e no relacionamento com o mercado. O consumidor associa recuperação judicial à falência.
Mesmo que juridicamente equivocada, essa leitura afeta diretamente a receita. O caso das Lojas Americanas, com dívidas estimadas em mais de R$ 43 bilhões, é o exemplo mais emblemático de como a fragilidade de controles internos e o excesso de alavancagem podem comprometer rapidamente a confiança de credores, fornecedores e consumidores.
Outra fragilidade do setor é que ele vive de giro. Linhas de financiamento, antecipação de recebíveis e crédito de fornecedores são o que mantém a operação de pé. Quando a empresa entra em recuperação, essas fontes secam (ou encarecem) de forma abrupta. A situação se agrava porque, diferentemente de outros setores, as varejistas não costumam ter ativos tangíveis para oferecer como garantia ou gerar liquidez na hipótese de alienação. Além disso, mesmo em um contexto de digitalização acelerada, lojas físicas seguem sendo essenciais para transmitir credibilidade ao consumidor e servir de apoio logístico, dificultando cortes radicais de custos.
A deterioração do ambiente macroeconômico contribui com o cenário. A inflação persistente pressiona custos e corrói margens. Juros altos encarecem o capital de giro e dificultam a rolagem de dívidas. O crédito, mais escasso e caro, atinge empresas que dependem de financiamento de estoque e antecipação de recebíveis. A volatilidade cambial amplia o custo de produtos importados ou indexados, enquanto o repasse ao consumidor nem sempre é possível.
A aproximação do fim do ano tende a acentuar essa pressão. Historicamente, o quarto trimestre é o período de maior peso para o varejo, com novembro e dezembro representando de 25% a 30% do faturamento anual, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Em 2025, porém, o cenário é menos favorável. O Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA) indica que o consumo segue em ritmo moderado, com desaceleração nas compras de bens duráveis e tíquete médio abaixo da inflação.
Há padrões nos casos de recuperação judicial no varejo. Muitas empresas cresceram financiadas por dívidas e sem a geração de caixa correspondente. Outras falharam no controle de estoque, precificação e eficiência logística, comprometendo retornos já pequenos, ou que não conseguiram se adaptar ao ambiente digital ou omnicanal. Soma-se a isso a rigidez de contratos de aluguel, franquia e fornecimento, amarras que reduzem a possibilidade de ajustes rápidos.
Empresas que conseguem atravessar o processo com chance de retomada costumam combinar medidas financeiras e operacionais. A renegociação de dívidas estruturais permite fôlego de caixa e a venda de ativos não essenciais pode injetar liquidez e reduzir pressões de curto prazo.
A revisão do modelo de negócio, reforçando canais digitais, ajustando a base física e repensando o mix de produtos, torna a operação mais eficiente. A Tok&Stok, por exemplo, tenta atravessar sua recuperação com uma estratégia que combina venda de ativos não essenciais e reestruturação de canais digitais, mostrando que a sobrevivência depende de ajustes simultâneos nas frentes financeira e operacional.
Outro ponto importante é a gestão de reputação. Quem se comunica com transparência preserva parte da confiança de consumidores e fornecedores. Nesse processo, a análise jurídica é central. Nem toda empresa em crise se beneficia de um pedido de recuperação. Somente uma compreensão detalhada da composição da dívida é capaz de definir o melhor caminho. Há créditos que não são abrangidos pela recuperação, obrigações fiscais que exigem regularização com descontos e alargamentos e riscos de perda de ativos dados em garantia.
Os próximos meses devem manter o ritmo elevado de pedidos de recuperação judicial no varejo. O ciclo atual é marcado por empresas que já passaram por renegociações ou obtiveram waivers. Mas a sustentabilidade no médio prazo depende de transformações mais profundas do que planos financeiros isolados. Outras redes, como a Casas Bahia, vêm adotando medidas de reestruturação preventiva, renegociando dívidas, ajustando a base física e redesenhando o modelo operacional como forma de evitar o caminho judicial.
Para as empresas que ainda não entraram em recuperação judicial, antecipar diagnósticos e renegociar passivos de forma preventiva pode ser a diferença entre recuperação e liquidação. A verdadeira recuperação depende de uma operação financeiramente saudável e competitiva, capaz de resistir às próximas ondas de pressão econômica que, ao menos por ora, não parecem perto de cessar.
*Giovanna Michelleto é advogada especializada em reestruturação empresarial e operações estruturadas, fundadora do Michelleto Advogados.





