Não há como mudar: tecnologia e negócios não devem mais estar separados, mas vistos como partes interdependentes de uma mesma empresa. Hoje, seja no varejo ou na indústria, a infraestrutura tecnológica sustenta o crescimento e a efetividade do negócio, e vice-versa.
Nessa jornada, a Inteligência Artificial é a tecnologia do momento. Porém, sua aplicação eficaz ainda exige uma base sólida de dados, liderança atenta, equipes capacitadas e conhecimento avançado.
Essa integração da IA no varejo é crucial. Assim, a Consumidor Moderno conversou com Nathalia Camargo, diretora de Negócios e Commerce do Google Brasil, para entender como as lideranças brasileiras podem enfrentar desafios de experimentação (test and learn) com objetivos claros de negócios.
Para ela, mais do que entender a IA como a “bola da vez”, o líder de varejo deve ser “um aprendiz contínuo”, um “generalista criativo”, que usa “tecnologia de forma intencional” para impulsionar crescimento e bons resultados. Confira!
IA não pode “dividir” a empresa
CM: Com o avanço acelerado da IA no varejo, a relação entre tecnologia, negócios e operações ficou ainda mais interdependente. Como essa transformação cultural tem se manifestado dentro das empresas varejistas no Brasil? Quais são os principais pontos de tensão ou oportunidade que você observa quando tecnologia e áreas tradicionais do varejo precisam trabalhar de forma mais integrada?
Nathalia Camargo: É até engraçado falar como se fossem duas áreas. Na verdade, é uma empresa. E uma empresa precisa ter uma infraestrutura de tecnologia que vai fomentar o negócio e vice-versa. Isso é a base para permitir com que as empresas possam crescer e ter mais efetividade nos seus negócios. Hoje, quando a gente fala de tecnologia, a AI é a bola da vez, como palavra, mas até que ponto começamos a aplicá-la, de fato?
É aí que vejo a primeira tensão: 70% dos consumidores são omnicanais no seu comportamento de compra. Mas, do ponto de vista de negócios, vemos pouca integração. A segunda tensão está nas aplicações para uso da IA. E no varejo, o desempenho da IA está ligado à capacidade das empresas terem um banco de dados robusto. Então, o desafio, não só do varejo como também de toda a indústria, começa com uma base de dados bem estruturada, para que a empresa possa usar o máximo daquilo que a IA pode fazer por ela.
O líder deve experimentar para inspirar a inovação
CM: Quando olhamos para esse cenário, o varejo tem a consciência que se ele não investir em tecnologia, ele ficará para trás. Ou seja, ele tem a consciência que o consumidor é mais digitalizado. Mas o que falta para que esse movimento, que muda a expectativa sobre times digitais e analíticos dentro do varejo, seja realmente visto pela liderança como necessário?
De alguma forma, a indústria já enxerga isso como necessário, de fato. Acredito que a grande dificuldade é como fazer. Tudo começa com a liderança. Se você não usa aquela tecnologia, como é que você consegue inspirar e injetar isso dentro da sua organização? O primeiro passo deve vir desse letramento e da intenção de fazer o uso das novas tecnologias para o dia a dia.
Em seguida, ter a consciência de um período de teste e aprendizado. E então, melhorar sua operação e escolher as grandes áreas onde realmente investir. Não se trata de novas habilidades, mas de compreender que agora muita inovação pode vir de baixo para cima, e não mais top-down. A gente vê essa inversão, e ela diz muito mais respeito sobre o líder ter que experimentar as novas tecnologias.
Tecnologia precisa ser intencional
CM: Pensando nos próximos anos, em um contexto em que IA, ética, dados e sensibilidade humana se tornam temas cada vez mais estratégicos, quais desafios você considera os mais complexos na evolução dos líderes do varejo?
Acho que não tem como prever. O que dá para dizer sobre liderança e tecnologia é: não busque a perfeição, busque o progresso. Essa é a grande diferença do líder de hoje. Esse futuro do qual tentamos imaginar do ponto de vista da liderança, está no progresso constante, ao invés de se estar no controle constante. O excesso do controle limita a inovação. E progresso envolve KPIs claros; ter objetivos de onde você quer chegar com a nova tecnologia e, novamente, poder testar e aprender de forma rápida.
Costumo dizer que a IA não vai te substituir. Mas o que diferenciará seu sucesso ou fracasso a partir de agora é como usar IA para gerar novos negócios, aumentar ou ampliar o seu capital intelectual, ou o capital de produtividade e de execução. A Inteligência Artificial pode, sim, te auxiliar a diminuir essa grande lacuna entre viabilizar e executar uma ideia, e de uma forma muito mais eficiente do que no passado. O líder do futuro será um generalista criativo. Aquele que tem a capacidade de trazer a inovação, a tecnologia de forma intencional para dentro da organização, e fazer o uso dela com clareza de onde ele quer chegar.
Principais insights da entrevista
O papel da liderança na adoção de tecnologia
- A transformação começa na liderança. Líderes precisam usar tecnologia no dia a dia para inspirar suas equipes. É crucial uma mentalidade de “test and learn” (testar e aprender), escolhendo áreas estratégicas para investir e permitindo que a inovação surja de baixo para cima (bottom-up).
Foco em progresso, não em perfeição
- O líder do futuro deve priorizar progresso constante em vez de controle constante, que limita a inovação. Isso requer KPIs claros, objetivos de negócio atrelados à inovação e testes rápidos para validar incrementos gerados. Inovação não deve ser um fim em si mesma.
O líder como generalista criativo
- A IA não substituirá pessoas, mas diferenciará quem sabe usá-la para gerar negócios. A IA reduz a lacuna entre ideia e execução. O líder do futuro será um aprendiz contínuo, um generalista criativo que constrói grandes times e usa tecnologia de forma intencional para alcançar objetivos claros, sem presumir que possui todas as respostas.





