De acordo com o Índice Hibou do Consumidor Brasileiro, que avalia o estado emocional, econômico e social da relação com o mercado no País, predomina entre os brasileiros um cenário de insegurança financeira e baixa confiança no ambiente econômico. É o chamado “consumidor sobrevivente”.
Nesse contexto, o indicador analisa como as pessoas percebem sua capacidade real de viver, gastar e planejar o futuro. Para isso, considera três dimensões centrais dessa dinâmica no País: segurança financeira, confiança no sistema e potência de consumo.
Os resultados da pesquisa mostram que o consumo no Brasil hoje acontece sob forte tensão econômica e emocional. A principal emoção associada ao futuro do País é a preocupação (41,8%), seguida por insegurança (22,6%) e revolta (12,3%).
Sentimentos positivos aparecem em menor proporção, como esperança (9,3%) e confiança (3%). Em um País onde a população é naturalmente mais otimista, esse olhar acende um alerta importante.
A vida como consumidor está pior
A percepção econômica também é majoritariamente negativa, segundo o índice. Em comparação com um ano atrás, quase metade (48,4%) considera que a vida como consumidor está pior, 29,8% dizem que está um pouco pior e 18,6% afirmam estar muito pior. Enquanto 26,4% consideram que está igual, 19,5% dizem estar um pouco melhor e 5,7% avaliam que está muito melhor.
Entre os fatores que mais pesam no cotidiano financeiro, o preço dos alimentos (57%) aparece como principal preocupação. É seguido por impostos altos (42,1%), dificuldade para guardar dinheiro (33,9%), contas básicas como luz, água e gás (28,3%) e gastos com saúde (27,9%).
O medo financeiro também reflete essa pressão. O maior temor dos brasileiros é o aumento constante dos preços (27%), seguido por não conseguir pagar contas básicas (21,6%) e não conseguir se aposentar com segurança (16,6%).
Trabalho e custo de vida
Essa percepção se reflete na sensação de que o trabalho já não garante estabilidade. Segundo o estudo, apenas 15,8% dizem que trabalhar garante qualidade de vida totalmente, enquanto 39,7% afirmam que garante em parte, 15,9% dizem pouco e 28,7% avaliam que não garante.
A percepção sobre o custo de vida também reforça o cenário de pressão econômica:
- 78,9% afirmam que o custo de vida está muito acima da renda;
- 14% dizem que está um pouco acima;
- 2,6% consideram equilibrado;
- 4,6% afirmam estar abaixo da renda.
Desconfiança em governantes
Esse ambiente impacta diretamente a segurança para planejar o futuro. 39,9% dizem sentir nenhuma segurança para planejar o futuro financeiro. Já 38,4% relatam pouca segurança, enquanto 14,7% afirmam ter alguma segurança, e 5,1% dizem ter boa segurança. Apenas 1,9% relatam muita segurança.
A relação com o sistema institucional também é marcada por desconfiança. 77,1% acreditam que os governantes não entendem a realidade do consumidor brasileiro, enquanto 16% dizem que entendem em parte e 5% afirmam que sim. Quando pensam em política no Brasil, os sentimentos predominantes são raiva (33,2%), desconfiança (28,7%) e cansaço (17,9%).
Para Ligia Mello, CSO da Hibou e coordenadora da pesquisa, os dados acendem um alerta. “O Brasil é continental, e quando olhamos todo o País e não apenas os grandes centros, essa percepção de perda de qualidade de vida e o não entendimento local aumentam e reforçam a necessidade de políticas públicas eficientes que ajudem todos os brasileiros a terem uma vida mais equilibrada emocional e financeiramente.”
O pesadelo dos impostos
Essa percepção se reflete também na avaliação sobre impostos: 74,7% acreditam que os impostos pagos não retornam em serviços de qualidade, enquanto 22,9% dizem que retornam parcialmente. Apenas 1,8% afirmam que há retorno.
Ao mesmo tempo, a população atribui grande responsabilidade ao poder público na melhoria da vida do consumidor. Para 51,8%, o governo deveria ter maior responsabilidade em melhorar a vida do consumidor brasileiro. Enquanto 39,6% acreditam que essa responsabilidade deve ser de todos os envolvidos (governo, empresas, bancos e a população em geral).
Onde está o problema?
Diante desse cenário, as prioridades apontadas pelos consumidores são claras. Se o governo pudesse resolver apenas um problema imediatamente, os brasileiros indicam:
- Diminuir impostos (27,5%);
- Controlar a inflação (21,2%);
- Melhorar a educação (15,8%);
- Melhorar a segurança (15,3%);
- Melhorar a saúde pública (12,3%).
O impacto direto da pressão econômica aparece também no comportamento de consumo. Nos últimos 12 meses, os brasileiros reduziram principalmente gastos com lazer e entretenimento (50%), viagens (46,7%), comer fora de casa (46,3%) e roupas e calçados (39%).
Nas avaliações dos consumidores, há um problema crônico de um País de renda média como o Brasil, que está mudando sua forma de consumo e de se relacionar com o dinheiro: o consumidor luta para ter o básico – em alguns casos, sequer isso.
Na avaliação de Ligia Mello, o resultado do Índice sintetiza um momento em que o consumo continua acontecendo, mas sob forte restrição financeira e emocional.
“Na leitura do índice, a faixa de 0 a 39 pontos indica um consumidor em sobrevivência, marcado por insegurança econômica, baixa confiança institucional e pouca autonomia para decisões de consumo além do básico” conclui Ligia.
Entenda o IHCB
O IHBC é construído a partir de uma pesquisa quantitativa nacional realizada com 1.825 respondentes, considerando percepções sobre custo de vida, estabilidade financeira, confiança institucional e capacidade de fazer escolhas de consumo. As respostas são convertidas em um indicador padronizado que varia de 0 a 100 pontos, permitindo acompanhar o humor do consumidor brasileiro ao longo do tempo, dividido em quatro estágios de leitura.
- 0 a 39 pontos: consumidor em sobrevivência. Cenário marcado por insegurança financeira e baixa confiança no ambiente econômico. O Brasil pontuou 27 pontos.
- 40 a 59 pontos: consumidor pressionado. Mantém o consumo, mas com renúncias frequentes e pouca margem para planejamento.
- 60 a 74 pontos: consumidor cauteloso. Maior estabilidade, mas com decisões mais conservadoras.
- 75 a 100 pontos: consumidor confiante. Percepção positiva sobre o futuro econômico e maior liberdade de decisões de consumo.





