/
/
Quem sua marca não consegue enxergar?

Quem sua marca não consegue enxergar?

Equipes intergeracionais ampliam o repertório das marcas e ajudam a criar experiências relevantes para mais pessoas
Legenda da foto
A experiência do consumidor não depende apenas de tecnologia ou dados, mas dos repertórios de quem cria produtos e serviços. Tati Gracia defende que equipes formadas por pessoas com diferentes gerações, vivências e referências conseguem enxergar necessidades que grupos homogêneos tendem a ignorar, evitando jornadas excludentes.

Quando uma experiência falha, as empresas costumam procurar o problema na tecnologia, no atendimento, na interface ou na comunicação. Mas muitas falhas começam antes, na forma como aquela experiência foi imaginada.

Todo produto, serviço ou jornada carrega as referências de quem participou de sua criação: o que essas pessoas consideram simples, intuitivo, moderno, desejável ou necessário. Quando os repertórios presentes nesse processo são muito parecidos, a experiência pode funcionar perfeitamente para quem pensa e se comporta de maneira semelhante à equipe que a desenhou e excluir silenciosamente todos os demais.

“Dados ampliam o conhecimento. Repertórios diferentes ampliam a compreensão.”

As empresas nunca tiveram tantos dados sobre seus consumidores. Sabem onde clicam, o que compram, quando abandonam uma jornada, quais canais utilizam e quais mensagens geram mais resposta. Ainda assim, conhecer o comportamento registrado não significa compreender a experiência vivida.

A edição de 2026 do estudo Consumer Experience Trends, da Qualtrics, ouviu mais de 20 mil consumidores e identificou que quase um em cada cinco usuários de inteligência artificial no atendimento não percebeu benefício na experiência, um índice de fracasso quase quatro vezes superior ao registrado em outras aplicações de IA.

O dado expõe uma confusão frequente: avanço tecnológico não significa, necessariamente, avanço na experiência.

Uma jornada digital pode parecer simples para quem domina sua lógica e confusa para quem nunca teve a oportunidade de aprendê-la. Um atendimento automatizado pode representar eficiência para a empresa e abandono para o consumidor. Uma linguagem pode parecer próxima e soar infantilizada. Uma inovação pode reduzir etapas e, ao mesmo tempo, retirar autonomia.

“A marca pode conhecer cada clique do consumidor e ainda não compreender o que ele precisou enfrentar para chegar até ali.”

O consumidor vive o efeito, não a intenção

Essa é uma das limitações de equipes excessivamente homogêneas. Elas não criam necessariamente experiências ruins. Criam experiências incompletas, porque reconhecem rapidamente os obstáculos que conhecem e têm mais dificuldade para perceber aqueles que nunca precisaram enfrentar.

É nesse ponto que o encontro entre diferentes gerações deixa de ser apenas uma discussão sobre cultura organizacional e passa a ter impacto direto na experiência do cliente.

Não porque profissionais mais jovens representem automaticamente a tecnologia e profissionais mais velhos representem experiência. Essa divisão não produz diversidade. Produz estereótipos.

O valor está nas diferentes trajetórias, referências culturais, formas de aprender e maneiras de
interpretar o comportamento humano. Pessoas formadas em contextos tecnológicos, culturais
e sociais distintos naturalizam comportamentos diferentes e, por isso, também fazem perguntas
diferentes.

“Diferentes gerações não precisam criar juntas para representar todas as idades. Precisam criar
juntas para ampliar o que a empresa é capaz de enxergar.”

O problema começa quando a idade define o território de contribuição. O mais jovem é convocado para falar de tecnologia; o mais velho, para representar experiência. Um fica preso à novidade, o outro ao passado. Ao transformar gerações em funções, a empresa desperdiça repertórios que poderiam melhorar a experiência do consumidor.

Só que inovação não pertence aos mais jovens, assim como profundidade e repertório não são exclusividade dos mais velhos. Quando uma empresa reduz pessoas à idade, reduz também a inteligência que poderia colocar a serviço do consumidor.

Criar junto é mudar as perguntas

Quando diferentes repertórios participam desde o início, eles não apenas ampliam as respostas. Eles transformam as perguntas.

A jornada precisa somente ser rápida ou também compreensível? A automação amplia autonomia ou aumenta a sensação de abandono? A comunicação aproxima ou infantiliza? A facilidade é real para todos ou apenas para quem já conhece aquela lógica? A inovação resolve um problema do consumidor ou serve apenas para demonstrar modernidade?

Essas perguntas não atrasam a inovação. Impedem que a empresa inove apenas para quem já
pensa como ela.

O CX Trends 2026, da Zendesk, mostra que a expectativa por velocidade não eliminou a necessidade de compreensão: 74% dos consumidores esperam atendimento disponível 24 horas por dia por causa da IA, enquanto 95% querem explicações sobre as decisões tomadas por esses sistemas.

Velocidade, portanto, não sustenta confiança sozinha. O consumidor também espera clareza, contexto e capacidade de entender o que está acontecendo.

Isso ajuda a desmontar outra simplificação geracional. Consumidores jovens não querem apenas rapidez. Consumidores mais velhos não querem necessariamente ajuda. Pessoas de diferentes idades podem desejar eficiência, autonomia, transparência e presença humana, ainda que expressem essas necessidades de formas distintas.

“O risco de pensar o consumidor por estereótipos é substituir a escuta por suposições.”

Diversidade que chega no final chega tarde

Muitas organizações ainda tratam a diversidade como uma etapa de validação. Criam primeiro
e convidam públicos diferentes para testar depois.

O teste é importante, mas pode chegar tarde. Quando ele acontece, quase todas as decisões relevantes já foram tomadas: qual problema seria resolvido, para quem, de que maneira e com base em quais premissas.

Incluir consumidores diferentes na validação ajuda a encontrar erros. Incluir repertórios
diferentes na origem da decisão ajuda a impedir que esses erros sejam incorporados ao projeto.

“Diversidade no final corrige. Diversidade no início transforma.”

Essa diferença é decisiva porque toda experiência estabelece, mesmo que silenciosamente, quem deverá se adaptar a quem. Quando a empresa cria um processo confuso e espera que o consumidor aprenda a utilizá-lo, transfere para ele a responsabilidade por uma falha de projeto.

Quando elimina os canais humanos e chama isso de evolução, determina unilateralmente como
aquela relação deverá acontecer. Uma experiência ruim não é apenas aquela que impede uma compra. É também aquela que faz a pessoa acreditar que o problema está nela: que não entendeu, não acompanhou, não aprendeu ou não pertence àquele ambiente.

“A experiência não é definida pela intenção de quem a desenhou, mas pelo efeito produzido em
quem precisa vivê-la.”

O consumidor talvez nunca saiba quem participou da criação de uma jornada. Mas reconhecerá quando a marca considerou diferentes ritmos, repertórios e formas de interação. É nesse momento que a diversidade deixa de ser uma fotografia da equipe e passa a se transformar em valor para quem está do outro lado.

Marcas não precisam de diferentes gerações apenas para parecer mais diversas. Precisam delas para pensar melhor. Porque, quando todo mundo parte das mesmas referências, não é apenas a equipe que se torna parecida. A experiência também.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Estudo do Nu Empresas com a Bridge Research mostra que impostos, notas fiscais e conciliação de recebimentos consomem 468 horas por ano de quem toca um pequeno negócio.
O expediente invisível do pequeno empreendedor brasileiro
Estudo do Nu Empresas com a Bridge Research mostra que impostos, notas fiscais e conciliação de recebimentos consomem 468 horas por ano de quem toca um pequeno negócio
Pagamentos online e em aplicativos já representam 26% do volume de transações domésticas no Brasil, mostra estudo da Visa.
Cresce a "economia do sofá" na rotina dos consumidores
Pagamentos online e em aplicativos já representam 26% do volume de transações domésticas no Brasil, mostra estudo da Visa.
Michelle Schneider analisa como a automação redesenha o Contact Center, eleva as exigências das vagas iniciais e desafia empresas a preservar a formação de talentos.
CM Entrevista: A IA vai fechar a porta do primeiro emprego?
Michelle Schneider analisa como a automação redesenha o Contact Center, eleva as exigências das vagas iniciais e desafia empresas a preservar a formação de talentos.
Pesquisa da Serasa Experian mostra que 41,9% das pequenas e médias empresas vão oferecer produtos em diferentes faixas de preço no Dia das Crianças, enquanto apenas 23,6% apostam em promoções.
No Dia das Crianças, PMEs trocam desconto por variedade de preços
Pesquisa da Serasa Experian mostra que 41,9% das pequenas e médias empresas do País vão oferecer produtos em diferentes faixas de preço na data, enquanto apenas 23,6% apostam em promoções

Webstories

SUMÁRIO – Edição 298

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Vice-Presidente Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadora
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Prime Video aposta em vídeos curtos e amplia funções do streaming Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência? Quando o tempo perdido vira indenização