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Preço de combustível entra na mira do Estado e empresas passam a ter que justificar reajustes

Preço de combustível entra na mira do Estado e empresas passam a ter que justificar reajustes

Fiscalização de combustíveis ganha escala nacional, com apoio técnico aos Procons,e novos critérios para identificar preços abusivos.
Fiscalização de combustíveis ganha escala nacional, com apoio técnico aos Procons,e novos critérios para identificar preços abusivos.
Foto: Shutterstock.
O governo federal inicia uma ação estrutural para combater preços abusivos, com critérios mais objetivos e padronização de punições, especialmente no setor de combustíveis. A elevação de preços passa a ser analisada com base na justificativa de custos, podendo gerar sanções quando houver aumento injustificado de margem de lucro. A estratégia inclui atuação integrada entre órgãos, apoio técnico aos Procons e ampliação da fiscalização em toda a cadeia, trazendo mais rigor e proteção ao consumidor.

A forma como o Brasil combate preços abusivos vai mudar. E, desta vez, de maneira estrutural.

Prova disso está em uma ofensiva inédita, na qual o governo federal passou a atuar não apenas na fiscalização do mercado de combustíveis, mas também na padronização de como punir práticas consideradas abusivas. O movimento envolve desde reuniões emergenciais com Procons até a criação de diretrizes técnicas para a aplicação de sanções

Na prática, isso significa que o governo passa a analisar decisões de preço antes tratadas como estratégia comercial com rigor técnico, jurídico e, em alguns casos, criminal.

“Não é liberdade para abusar”

O ponto de partida dessa nova fase está na redefinição do que é – ou não – um preço abusivo. Segundo o Secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita, o princípio da liberdade de preços continua válido, mas tem limites claros. “Nós temos um regime de liberdade de preços. Só que a liberdade de preços não é a liberdade para cometer abusos”, afirmou.

De acordo com ele, o critério central passa a ser objetivo:

“Qual é o abuso? É a elevação da margem de lucro que não é lastreada, não é fundamentada em custos.”

Ou seja, aumentar preço não é ilegal – desde que haja justificativa econômica consistente.

O caso que acendeu o alerta: aumento de 300%

A mudança de postura do governo não é abstrata. Ela responde a situações concretas identificadas nas fiscalizações.

“Nós tivemos um caso de 300% de aumento. Isso não é custo. Não se demonstra custo de 300%. O que houve foi elevação da margem de lucro”, explica.

Morishita então explica que esse tipo de prática, por exemplo, passa a ser diretamente enquadrada como abusiva – e, portanto, sujeita a sanções.

O Código de Defesa do Consumidor (CDC) não proíbe o aumento de preços, mas estabelece limites claros para evitar abusos. Segundo o artigo 39, o Código de Defesa do Consumidor considera prática abusiva elevar, sem justa causa, o preço de produtos ou serviços.

Na prática, isso significa que:

  • Aumentos baseados em custos são permitidos;
  • Manutenção da margem de lucro é aceitável;
  • Elevação arbitrária de margem pode ser considerada abuso.

Além disso, o artigo 51 reforça que práticas que coloquem o consumidor em desvantagem excessiva podem ser consideradas nulas. Ou seja: o problema não é o preço – é a ausência de justificativa.

O “plantão da multa”: Estado orienta como punir

Um dos movimentos mais inéditos dessa operação é a criação de um plantão técnico para apoiar os Procons em todo o País. A iniciativa começa com atendimentos semanais – e pode se ampliar conforme a demanda.

“Vamos iniciar um plantão para os Procons que estão no processo sancionatório, para tirar dúvidas e orientar”, afirma o secretário.

Na prática, o plantão funciona como um canal direto para:

  • Esclarecer dúvidas sobre notificações;
  • Orientar a aplicação de multas;
  • Padronizar procedimentos;
  • Compartilhar experiências entre estados.

“A ideia é falar sobre todo o processo sancionatório desde a notificação até a dosimetria da multa”, explica.

O movimento revela uma mudança importante: o Estado não quer apenas fiscalizar. Ele também capacita, em tempo real, quem conduz os processos sancionatórios.

Fiscalização ganha escala – e método

Além do plantão, a Secretaria Nacional do Consumidor passou a coordenar reuniões nacionais e emergenciais com os Procons, criando uma atuação integrada em todo o País. “Hoje foi a segunda reunião nacional e emergencial. A ideia é realizar uma ação cooperativa de fiscalização”, diz Morishita.

Em suma, a estratégia inclui:

  • Reuniões semanais de acompanhamento;
  • Envio de informes técnicos;
  • Criação de FAQs para padronizar entendimentos;
  • Alinhamento sobre prazos e procedimentos.

“A gente constrói junto, dá diretrizes e busca garantir segurança jurídica”, afirma.

Com isso, a expectativa é que o Brasil consiga reduzir a fragmentação na aplicação das regras. Por consequência, aumentando a previsibilidade das sanções.

A investigação sobe na cadeia

Outro ponto relevante é a ampliação do foco da fiscalização. Se antes a atenção estava concentrada nos postos, agora ela avança para outros elos da cadeia.

“Foram 11 distribuidoras notificadas pela Senacon”, destaca o secretário.

Além disso, grupos técnicos específicos estão sendo formados para atuar diretamente sobre distribuidoras e refinarias. Isso significa que a análise deixa de ser local e passa a ser sistêmica – investigando onde, de fato, o aumento de preço se origina.

Três frentes: consumidor, regulação e crime

A operação também se diferencia pela integração entre diferentes áreas do Estado.

Hoje, a fiscalização ocorre em três níveis:

  1. Consumerista: Procons e Senacon;
  2. Regulatório: ANP e órgãos técnicos;
  3. Criminal: Polícia Federal e segurança pública.

Essa estrutura permite que uma mesma conduta seja analisada sob múltiplas perspectivas – e gere diferentes tipos de sanção.

Para o setor empresarial, a mudança é profunda. A partir de agora:

  • Reajustes precisam ser documentados;
  • Margens podem ser questionadas;
  • Decisões comerciais ganham implicação legal.

Mais do que nunca, será necessário provar o porquê de cada aumento.

Do ponto de vista do consumidor, o impacto tende a ser direto. Com maior coordenação entre os órgãos, a expectativa do governo é:

  • Acelerar investigações;
  • Ampliar a cobertura da fiscalização;
  • Reduzir práticas abusivas.

Além disso, a interiorização das ações indica que o alcance da fiscalização deve crescer.

O que está em jogo

Mais do que uma operação pontual, o que está em curso é a construção de um novo modelo de atuação.

Um modelo em que:

  • Preço precisa de justificativa;
  • Margem pode ser investigada;
  • Abuso passa a ser analisado com critérios mais objetivos.

E, principalmente, em que o mercado passa a operar sob uma nova lógica: a de que liberdade econômica exige responsabilidade comprovável.

O Brasil está redesenhando as regras do jogo. E, nesse novo cenário, o preço deixa de ser apenas competitivo e passa a ser justificável.

Para empresas, isso significa um novo nível de exposição. Já para consumidores, uma promessa de maior proteção. E, por fim, para o mercado, uma certeza: a linha entre estratégia e abuso nunca esteve tão visível.

Nota: O Secretário Nacional do Consumidor, Ricardo Morishita, detalhou as medidas e diretrizes apresentadas na matéria durante coletiva de imprensa realizada na tarde do dia 23 de março de 2026.

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