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Os perigos das redes sociais para a saúde mental dos adolescentes

Os perigos das redes sociais para a saúde mental dos adolescentes

Apesar do aumento no número de usuários nos últimos tempos, uso moderado das plataformas é chave para preservar o emocional dos jovens
Legenda da foto

60% da população mundial utiliza a internet, segundo o levantamento da We Are Social em parceria com a Hootsuite. O estudo, divulgado em abril deste ano, revela que o número de usuários cresceu em 330 milhões em comparação ao mesmo período em 2020, atingindo um montante de 4,7 bilhões de pessoas conectadas. Além disso, mais de meio bilhão de indivíduos aderiram às redes sociais nos últimos 12 meses, elevando o total global para 4,33 bilhões.

E é nesse ponto que nasce o debate: o que pode haver de perigoso nas mídias digitais se, cada vez mais, há seres humanos adentrando no universo virtual e dedicando parte do seu tempo nessas plataformas?

Para Fabiano de Abreu, psicanalista, biólogo, neurocientista e PhD, o que era para ser um ambiente sadio repleto de diversão tem se tornado cada vez algo tóxico e perigoso para crianças e adolescentes. Porque, se por um lado as redes sociais permitem a exibição constante de sua imagem, por outro, o uso inadequado pode levar a certas atitudes drásticas, o que chama a atenção de pais e terapeutas.

Considerando que, em 2019, 89% da população entre 9 e 17 anos era usuária de internet no Brasil, segundo o relatório TICS Kids Online feito pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), a temática se torna relevante.

O levantamento mostrou, ainda, que quanto aos riscos sofridos no universo digital, as evidências demonstram diferenças nas proporções de meninas (31%) e meninos (24%) que reportaram terem sido tratados de forma ofensiva e que declararam ter testemunhado situações de discriminação na rede (48% entre meninas e 39% entre meninos).

Quando questionados sobre os motivos pelos quais viram alguém ser discriminado, 33% das meninas se referiram à cor ou raça e 26% à aparência física. As proporções entre os meninos foram de 20% e 15%, respectivamente.

Diferenças entre os sexos também foram observadas no contato com conteúdos sensíveis. A proporção de meninas (27%) que teve contato com cenas de violência na Internet foi superior à de meninos (17%).

O gatilho disparado pelas redes sociais

Nas redes sociais, praticamente todo mundo possui a vida perfeita: fotos produzidas em locais paradisíacos, com o celular que acabou de ser lançado, e se divertindo com os amigos. Essa combinação faz parecer que a felicidade está logo ali e só não a conquista quem não deseja. Mas quando se tem crianças e adolescentes consumindo esse tipo de conteúdo, ainda sem ter a capacidade de diferenciar claramente o que é real do que é montado apenas para um clique, surge um problema.

“Essas plataformas mexem com o sistema límbico e causam disfunções que distorcem a razão e prejudicam o desenvolvimento da inteligência. Está relacionado com a dopamina, neurotransmissor da recompensa, e na sua secreção desordenada, que prejudica a homeostase necessária no organismo para uma melhor saúde mental”, explica o especialista.

Quanto maior for a dosagem de emoções positivas, o ciclo se repete e acaba aumentando a ansiedade para se obter mais conquistas, interceptando a conexão entre a parte límbica e o lobo frontal, região da lógica-inteligência que orquestra a coerência dos comportamentos. Segundo Fabiano de Abreu, esse momento, que ocorre no cérebro, representa uma falta de controle emocional que pode desencadear disfunções. Algumas delas são:

● Falta de atenção;
● Dificuldade de memorização;
● Excesso de ansiedade;
● Desmotivação;
● Oscilações emocionais/atitudes impulsivas.

Por isso, o profissional dá algumas orientações de como os pais devem agir se notarem seus filhos nessa situação:

Limitação de tempo
Estipule um tempo máximo diário para o uso da internet, como, por exemplo, duas horas.

Uso para o bem
Busque atividades que prendam a atenção, sejam lúdicas e promovam a plasticidade cerebral. Tenha conhecimento dos sites e aplicativos que a criança ou adolescente acessa e incentive-os a utilizar a internet para pesquisas e leituras.

Nem os adultos ficam de fora
É necessário voltar os olhares para o modo com o qual o ser humano vem produzindo e consumindo conteúdo nas redes sociais digitais. E não só para os jovens e, sim, para toda a família, para se ter uma noção do impacto da internet na saúde mental. “As pessoas não estão levando a sério, pois também estão dependentes da rede social. Como um comboio que prefere não enxergar os danos que ela causa, já que também se satisfaz com ela”, sinaliza o psicanalista.

Ele alerta que, recentemente, as plataformas de vídeo curtos e interativos seriam as mais ameaçadoras, principalmente pela baixa faixa etária do público que as consomem. “As crianças e adolescentes acham mais graça onde há dança, movimento e desafios. Mas são esses os mais preocupantes. Eles só possuem o córtex pré-frontal totalmente pronto em até 24 anos de idade dependendo do indivíduo. Sua cognição ainda está em desenvolvimento e é uma fase de transição e de pouca experiência. Sem contar que há pais que estão tão viciados na rede quanto os filhos dando exemplos que podem ter consequências ruins”, pontua Fabiano de Abreu.

De acordo com a especialista, as redes sociais deveriam ser espaços apenas para adultos trocarem informações profissionais, uma vez que as constantes amostras artificiais de felicidade sugerem disputa e necessidade, e potencializa o narcisismo. Ou seja, altos e baixos emocionais bruscos com os quais, muitas vezes, o jovem não está preparado para lidar.

“Nossa sociedade e nossas crianças precisam de ajuda urgente. Ou começamos desde agora ou teremos um futuro triste. A internet está deixando as pessoas menos inteligentes”, finaliza Fabiano de Abreu.


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