O Open Finance foi desenvolvido a partir de uma promessa ambiciosa: transformar o dado financeiro, que ficava represado dentro de cada banco, em algo que pertence de fato ao consumidor. Na prática, o histórico de pagamentos, o comportamento de consumo, o relacionamento construído ao longo de anos passam a ser utilizados pelos clientes para acessar produtos com mais facilidade e melhores condições.
A teoria brilha os olhos. Mas uma provocação trazida por especialistas durante o CCX 2026 chama atenção: de que adianta compartilhar dados se o consumidor não confiar em quem vai utilizá-los?
Em vez de discutir apenas infraestrutura ou regulamentação, o painel “Open Finance: confiança, transparência e visibilidade compartilhada” trouxe um olhar mais humano para o tema. O objetivo foi entender como transformar o compartilhamento de informações em benefícios reais para quem está do outro lado da tela.
A mudança de perspectiva não é por acaso. Depois de anos dedicados à construção do ecossistema, o Open Finance entra em uma etapa em que a tecnologia deixa de ser protagonista. Agora, o desafio é fazer com que o consumidor enxergue valor suficiente para autorizar o compartilhamento de seus dados.
Ajudando a organizar a vida
Ao abrir o debate, o mediador Cleber Martins, diretor executivo da Acrefi, lembrou que o sistema evoluiu rapidamente desde sua implementação. Hoje, o desafio já não é apenas conectar instituições financeiras, mas consolidar um ambiente baseado em confiança e transparência.
Na prática, isso significa mostrar ao consumidor que compartilhar informações financeiras pode facilitar sua vida, desde que ele continue no controle das decisões.
Nesse sentido, Paula Fantinel, gerente de Open Finance do Sicredi, apresentou um exemplo de como os dados podem ser utilizados para resolver problemas concretos dos consumidores.
A cooperativa desenvolveu um organizador financeiro voltado principalmente para micro e pequenos empreendedores. A ferramenta reúne informações de diferentes instituições em um único ambiente e ajuda o associado a acompanhar fluxo de caixa, organizar contas e tomar decisões financeiras com mais segurança.
“O organizador financeiro surgiu olhando para a necessidade dos empreendedores. Eles enfrentam desafios como gestão do fluxo de caixa e tomada de crédito. Criamos essa solução para proporcionar organização financeira e reforçar nosso compromisso com o bem-estar financeiro dos associados”, explica.
Mais do que apresentar uma ferramenta, Paula defendeu uma mudança de abordagem. Segundo ela, o Open Finance só faz sentido quando o benefício é facilmente percebido pelo consumidor.
“Quando a gente fala de confiança e de benefícios claros, o associado consegue gerenciar suas contas em um único lugar. Eu não preciso explicar porque existe um benefício claro para quem utiliza.”
Na prática, a mensagem é simples: em vez de convencer o consumidor a compartilhar dados, as instituições precisam demonstrar por que esse compartilhamento vale a pena.
Confiança antes de qualquer tecnologia
Fátima Oliveira, Chief Business Development Officer (CBDO) da TP, destacou outro elemento considerado indispensável para o avanço do ecossistema: a confiança.
Ao responder uma pergunta sobre a circulação das informações entre empresas, ela destacou que todo o processo depende do consentimento do consumidor e da responsabilidade de quem recebe esses dados. Para a executiva, a confiança não pode ser encarada apenas como uma exigência regulatória. Ela precisa fazer parte da cultura das empresas.
“O cliente contratante deposita sua confiança na gente acreditando que vamos utilizar essas informações da forma correta para trabalhar o cliente final”, diz. Essa responsabilidade, de acordo com ela, também transforma a maneira como a recuperação de crédito é conduzida.
Nesse sentido, ela resume a filosofia adotada pela empresa: “Na TP, nós não somos cobradores. A gente recupera pessoas, não somente o crédito”.
O consumidor assume o protagonismo
Apesar de o Open Finance ser associado principalmente à inovação tecnológica, a discussão apresentada no CCX mostrou uma mudança de foco. Agora, mais importante do que compartilhar dados é construir relações de confiança a partir deles.
Nesse contexto, o consumidor assume o protagonismo. Afinal, é ele quem decide quais informações compartilhar, com quem e por quanto tempo.
Para Rafael Dellevedove, head de cobrança da XP Investimentos, essa é justamente a principal ruptura promovida pelo Open Finance. Em suas palavras, pela primeira vez o usuário escolhe quem poderá acessar suas informações financeiras, quais dados serão compartilhados e por quanto tempo.
“O usuário escolhe o que compartilhar. Essa autorização permite uma personalização muito mais forte, tanto para análise de crédito quanto para construção de ofertas mais adequadas.”
Na avaliação do executivo, o consentimento também muda a qualidade das decisões tomadas pelas instituições financeiras. Com uma visão mais completa da vida financeira do consumidor, torna-se possível oferecer soluções mais compatíveis com sua realidade. Ao mesmo tempo, ele fez um alerta. “O compartilhamento não é definitivo”.
O consumidor pode revisar, renovar ou cancelar sua autorização sempre que desejar. Por isso, compreender como os dados serão utilizados passa a ser tão importante quanto decidir compartilhá-los.
Dados também revelam oportunidades
A possibilidade de visualizar informações compartilhadas cria outro efeito prático para as instituições financeiras. De acordo com Paula Fantinel, quando um associado do Sicredi autoriza o compartilhamento de dados com outra instituição, ele também envia um sinal importante sobre suas necessidades.
Em vez de enxergar esse movimento apenas como risco de perder um cliente, a cooperativa passou a utilizá-lo para fortalecer o relacionamento.
“Quando o associado compartilha dados com outra instituição, ele está sinalizando que conversa com o mercado. Talvez exista um produto que ele esteja procurando e que nós ainda não oferecemos.”
Na prática, explicou Paula, o gerente pode entrar em contato no momento em que aquela necessidade surge, apresentando uma solução antes que o consumidor finalize uma contratação em outro lugar. Antes do Open Finance, esse comportamento só era percebido semanas depois, muitas vezes quando o relacionamento já havia esfriado.
Mais dados, mais cuidado
Se para o consumidor o Open Finance amplia possibilidades, para as instituições financeiras ele aumenta a responsabilidade. Essa foi a visão apresentada por Felix Almeida, superintendente de cobrança do Porto Bank.
Ele conta que a instituição nasceu dentro do ecossistema da Porto e já atende 19 milhões de clientes que utilizam diferentes produtos e serviços. Isso cria oportunidades naturais para desenvolver novas soluções, mas também exige cuidados ainda maiores com a proteção das informações.
“Grande parte do que fazemos acontece dentro do nosso próprio ecossistema. Por isso, temos muito cuidado com a segurança dos dados. Com a Inteligência Artificial, essas informações se tornam ainda mais sensíveis.”
Para o executivo, inovação e segurança caminham juntas. Ele afirmou que qualquer nova solução precisa nascer a partir de uma pergunta simples: ela realmente melhora a vida do cliente?
“Se é bom para o nosso cliente, vamos construir essa solução. Esse sempre foi o nosso DNA.”
Personalização é liberdade?
Ao longo do painel, os participantes concordaram que conhecer melhor o consumidor abre espaço para experiências mais relevantes. Na prática, isso significa oferecer produtos no momento certo, realizar análises de crédito mais precisas e construir negociações compatíveis com a realidade financeira de cada cliente.
Uma oferta pode chegar no momento certo.
Uma análise de crédito pode ser mais precisa.
Uma negociação pode considerar a realidade financeira daquele cliente.
No entanto, todos destacaram que existe uma condição indispensável para que isso aconteça: o consentimento. É justamente essa fronteira que começa a desafiar o mercado.
Quanto mais informações estiverem disponíveis, maior será a responsabilidade das empresas em utilizá-las de forma transparente, proporcional e alinhada às expectativas do consumidor. Essa discussão conduziu o painel ao seu momento mais provocativo.
Afinal, até onde vai a personalização e onde começa a sensação de vigilância? Foi justamente essa discussão que conduziu o painel ao seu momento mais provocativo.
Até onde vão os dados?
Analisando as falas, Cleber Martins, da Acrefi, fez uma provocação. Por um lado, quanto mais o consumidor compartilha informações, mais as instituições conseguem oferecer produtos personalizados, prever necessidades e aprimorar as análises de crédito. Por outro, cresce também o risco de o consumidor sentir que está sendo observado o tempo todo.
Ao responder à provocação, Felix Almeida, superintendente de Cobrança do Porto Bank, afirmou que o objetivo das instituições financeiras não deve ser utilizar todos os dados disponíveis, mas apenas aqueles que façam sentido para melhorar a experiência do cliente. “O limite é aquilo que é importante para o cliente.”
Na avaliação do executivo, respeitar esse princípio significa reconhecer que as instituições não devem utilizar toda informação disponível. Ele ressaltou que, mesmo dentro de um grande ecossistema como o da Porto, existem barreiras rígidas para impedir o compartilhamento indiscriminado de dados entre diferentes áreas de negócio.
Um exemplo envolve informações relacionadas à saúde. Embora o grupo reúna operações em segmentos distintos, cada área mantém esses dados separados e só os utiliza mediante autorização expressa do consumidor e finalidade legítima.
“Não é porque um cliente está em tratamento de saúde e também possui um cartão de crédito que podemos cruzar essas informações automaticamente”, pontuou Felix.
Para Almeida, respeitar essas fronteiras fortalece a confiança e preserva o relacionamento construído com o consumidor.
Cobrança também pode ser acolhimento
Por consequência, a discussão sobre limites levou o debate para outro tema sensível: a cobrança. Nesse momento, Fátima Oliveira retomou uma ideia apresentada no início do painel. “Recuperar crédito não significa apenas negociar uma dívida. Também envolve compreender o momento vivido pelo consumidor”.
A executiva explicou que a TP tem investido em tecnologias capazes de interpretar sentimentos durante as interações com clientes. O objetivo é tornar a comunicação mais empática, tanto em atendimentos humanos quanto em jornadas apoiadas por Inteligência Artificial.
“Hoje temos equipes trabalhando para traduzir sentimentos e tornar toda a jornada mais sensível. Queremos que o consumidor se sinta à vontade para falar sobre sua dívida.”
Na visão dela, essa abordagem reforça um princípio que resume a atuação da empresa.
Consentimento é a principal fronteira
Ao longo do debate, uma palavra apareceu repetidamente entre os participantes: consentimento.
Para os especialistas, a personalização só faz sentido quando o consumidor compreende quais dados as instituições utilizarão, para qual finalidade e durante quanto tempo. Sem essa transparência, a tecnologia deixa de gerar confiança e passa a produzir desconfiança.
Foi nesse contexto que Felix Almeida compartilhou uma orientação adotada dentro do Porto Bank: “Se você tem dúvida se é permitido, já não faça.”
Para ele, essa lógica ajuda a criar uma cultura de responsabilidade no uso das informações. E, em vez de perguntar o que a tecnologia permite fazer, os participantes do painel passam a refletir sobre o que realmente faz sentido para o consumidor.
O próximo desafio
A mensagem ficou clara: forma como as instituições utilizarão os dados, e não a quantidade de informações compartilhadas, definirá o futuro do Open Finance.
Isso significa construir relações sustentadas por transparência, segurança e benefícios claros. A tecnologia continuará evoluindo. As possibilidades de personalização também. Entretanto, a confiança continuará sendo o fator que definirá o sucesso (ou o fracasso) dessa transformação.
Os dados pertencem ao consumidor, mas a responsabilidade sobre seu uso pertence a todo o ecossistema.





