A CCR não existe mais. Pelo menos, não como nome. Aos 25 anos, a companhia adotou uma nova identidade: Motiva. Mais do que uma troca de logotipo, o movimento revela um posicionamento que vem sendo construído há dois anos. Ele busca alinhar o negócio à sua atuação diversificada e ao novo perfil de passageiro, cada vez mais atento à experiência de viagem.
A transição não é apenas estética. Originalmente criada como Companhia de Concessões em Rodovias, a CCR expandiu sua atuação para aeroportos e sistemas sobre trilhos, metrôs e VLTs. Assim, o nome anterior já não traduzia a dimensão e a ambição da companhia. Quem explica é Monique Henriques, diretora de Negócios Aeroportos Brasil da Motiva. Inspirada no latim, “Motiva” significa “o que nos move” e simboliza, segundo a empresa, o propósito de melhorar a vida das pessoas por meio da mobilidade.
“Essa mudança de cultura nos permite estar mais próximos dos nossos clientes para entendermos o que eles buscam e, assim, oferecermos experiências cada vez mais diferenciadas”, resume a executiva.
Novo perfil do viajante
Essa transformação acontece em um momento em que o setor aéreo vive uma mudança de perfil do público. Segundo levantamento da Serasa Experian, mais de 19 milhões de brasileiros têm perfil de viajante. Desses, 28,7% têm renda mensal acima de R$ 10 mil, 22,5% recebem entre R$ 2 mil e R$ 4 mil, e 17,1% ganham até R$ 2 mil.
O estudo, feito com base no comportamento de consumo de 190 milhões de CPFs, também revela a capacidade de gasto extra desse público com turismo e viagens. 38,6% conseguem desembolsar até R$ 1 mil por mês, 25,3% gastam entre R$ 1 mil e R$ 2 mil, e mais de 14% ultrapassam os R$ 2 mil mensais. Trata-se de um grupo altamente estratégico para o turismo, e que está disposto a investir em conforto, conveniência e vivências personalizadas.
É justamente esse perfil que a Motiva quer atrair e fidelizar.
Exigência, conforto e experiências

Nos aeroportos administrados pela Motiva, a transformação já é visível. A empresa identifica um passageiro mais exigente, que valoriza não apenas a viagem em si, mas tudo que acontece antes e depois do embarque. Programas de fidelidade, salas VIP e lounges premium têm ganhado espaço, inclusive em aeroportos que, antes, não eram considerados viáveis para esse tipo de serviço.
O caso do Aeroporto Internacional de Curitiba ilustra o novo cenário. A Advantage VIP, instalada no terminal, foi eleita em 2024 a melhor sala VIP da América Latina. Já no Aeroporto de Foz do Iguaçu, entre 2022 e 2025, o número de operações de alimentação e outros serviços dobrou, dentro e fora da sala de embarque. Fortalecendo, assim, o aeroporto como porta de entrada para um dos destinos turísticos mais visitados do Brasil.
“Estamos atentos a esse movimento, atraindo novos espaços para nossos aeroportos e observando o interesse de nossos cessionários em expandir as salas já existentes”, conta.
A adaptação a esse novo perfil de consumidor tem exigido altos investimentos. Em 2023, a Motiva destinou quase R$ 2 bilhões para modernizar terminais, ampliar segurança, eficiência e conforto. O Aeroporto de Teresina (PI), por exemplo, recebeu fingers inéditos e uma reestruturação completa. Em regiões de altas temperaturas, como São Luís (MA) e Palmas (TO), a climatização foi reforçada para garantir conforto térmico.
O impacto também chega à oferta de serviços. Em Goiânia, o número de opções de alimentação quase triplicou em três anos. Nos aeroportos de São Luís e Teresina, foram inauguradas as primeiras salas VIP da história desses terminais.
“Entendemos que a experiência do passageiro começa assim que ele chega no aeroporto. Essa jornada começa com a receptividade, com a ampliação das rotas, além de toda a infraestrutura que deve atender ao que ele precisa”, explica Monique.
Comércio diversificado e ocupação em alta
A presença de marcas e serviços dentro dos aeroportos também mudou de patamar. Quando a Motiva assumiu a gestão dos terminais, em 2022, a taxa média de ocupação comercial era de 39%. Hoje, está próxima de 65%. O salto é resultado de estudos de demanda em cada região e de um diálogo constante com lojistas e potenciais parceiros.
O objetivo é criar um mix de opções que atenda tanto quem busca experiências premium quanto quem procura alternativas mais acessíveis. Apesar de reconhecer que a diferença de preços entre o que é vendido no aeroporto e fora dele é um fenômeno global, a Motiva afirma estar ampliando a diversidade da oferta para acomodar diferentes perfis de consumidores.

“Essa diferença de preços não é uma questão somente no Brasil, mas também em aeroportos ao redor do mundo. Como operadores aeroportuários, nós recomendamos que seja pequena ou não haja diferença de preço, mas, de fato, não fazemos essa ingerência nos negócios dos lojistas”, explica Monique. “É importante destacar que existem alguns custos adicionais para operar dentro de um aeroporto, por ser um setor muito regulado. As equipes precisam de treinamentos específicos, como de segurança aeroportuária que é uma regra da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), dependendo do porte do aeroporto, o profissional terá que falar mais de um idioma e esses pontos acabam encarecendo a operação dos restaurantes e lanchonetes. Mas, essa gestão de preços é exclusiva de quem opera.”
Aeroportos como palco de cultura e bem-estar
Parte do reposicionamento passa por transformar os aeroportos em espaços vivos, conectados à cultura e à comunidade local. A empresa já promoveu ações como serviço gratuito de massoterapia para passageiros em Navegantes, recepção com apresentações juninas no aeroporto de São Luís e distribuição de doces típicos no desembarque de Pelotas, em parceria com a Feira Nacional do Doce (Fenadoce).


Outra iniciativa inédita é o circuito de corridas nas pistas de pouso e decolagem de sete aeroportos, aproximando a população do espaço e promovendo destinos turísticos locais.
“Sempre realizamos ativações em nossos terminais para proporcionar experiências diferenciadas aos passageiros. Marcamos nossa sintonia com a cultura regional e também mantemos um diálogo constante com as secretarias de turismo das cidades onde eles estão localizados”, conta.



Inteligência operacional
A Motiva também aposta em inteligência operacional. Pesquisas mensais avaliam indicadores como pontualidade, limpeza, atendimento e oferta de serviços. Identificando, assim, pontos fortes e oportunidades de melhoria.
Foi assim que surgiu, por exemplo, um totem de atendimento interativo, capaz de resolver questões de forma intuitiva e oferecer contato em tempo real com um atendente, caso necessário. A solução, segundo a executiva, já recebe feedbacks positivos de passageiros que valorizam agilidade e conveniência.
“Com isso, temos um diagnóstico de onde estamos nos saindo bem, o que precisamos melhorar e entender o que cada passageiro busca”, finaliza.






