O Brasil, além de ostentar o título de maior produtor global, é também um dos maiores consumidores mundiais de café. O País fica em segundo lugar, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), atrás apenas dos Estados Unidos. Porém, mesmo um produto tão tradicional precisa se reinventar. A paixão pelo café tem levado os brasileiros a buscarem novas experiências.
Hoje, o café brasileiro é utilizado em drinks sofisticados, sobremesas criativas, pré-treinos esportivos e até linhas funcionais com benefícios à saúde. Essa versatilidade tem sido acompanhada de perto por uma indústria atenta aos novos hábitos de consumo, que aposta na inovação sem perder as raízes de vista.
A premiumização do café está em alta. Consumidores mais exigentes buscam características como aroma, sabor, corpo e acidez diferenciados. O preparo vira um ritual, e a experiência não se restringe apenas ao paladar. Vai além da xícara, envolvendo desde a escolha dos grãos, notas do café, cápsulas ou até harmonizações com alimentos e métodos alternativos de preparo – como é o caso da prensa francesa, da aeropress e do pour-over.
Essa valorização da qualidade tem refletido diretamente no mercado. De acordo com a Abic, o consumo interno foi de 21,9 milhões de sacas industrializadas em 2024. No cenário global, o consumo total chegou a 177 milhões de sacas de 60 kg no ciclo 2023/2024. Mas o destaque está na experiência dos cafés especiais.

Resultado na xícara de café
A experiência do cliente ganhou protagonismo nas estratégias das grandes empresas. No Grupo 3corações, essa transformação não só foi incorporada, como também impulsionou uma série de inovações em produto, presença de marca e relacionamento com o consumidor. Fundada em 1959, a organização é hoje uma das líderes no segmento de cafés no País. A empresa exporta para toda a América Latina e para os Estados Unidos. Mas, tem como foco principal o consumidor brasileiro. Em 2024, o Grupo faturou R$ 10 bilhões e projeta crescimento de 5% até o fim do ano.
Um dos pilares para crescer está na inovação. Em 2018, o grupo lançou a linha Rituais, focada em cafés especiais com origem em diferentes regiões do País. Com o tempo, no entanto, percebeu uma mudança no paladar do consumidor: mais do que saber de onde vem o grão, ele quer entender o que vai sentir ao prová-lo.

“Hoje, o que mais importa para o consumidor é o resultado na xícara”, afirma Carolina Barreto, especialista em cafés e gerente de Treinamento e Experiência de Consumo do Grupo 3corações. A partir dessa escuta ativa, a marca reformulou a linha e passou a trabalhar com perfis sensoriais, como chocolate, frutas secas, frutas vermelhas e exótico.
“Cada perfil entrega uma experiência específica, com notas aromáticas e sabores marcantes. Para isso, subimos nosso patamar de qualidade: saímos de cafés com pontuação entre 80 e 82 para cafés com 85 pontos ou mais. Agora, todos os nossos cafés especiais partem de 85 pontos”, explica Carolina, referindo-se à escala de avaliação da Specialty Coffee Association (SCA).
A empresa também lançou o Café 100 Pontos, edição histórica do Projeto Tribos. Produzido por indígenas do povo Suruí, na Terra Indígena Sete de Setembro (RO), este microlote raro atingiu a pontuação máxima no protocolo de avaliação sensorial da espécie Canéfora, um marco inédito atestado por dois especialistas. Dentre eles, Silvio Leite, reconhecido internacionalmente pela autoridade em cafés especiais.
Além da inovação, há um esforço para impactar positivamente toda a cadeia. A empresa compra grãos diretamente dos produtores e mantém um centro de compras em Varginha (MG), onde oferece treinamentos, análises gratuitas e apoio técnico.
Café para todos os gostos
Apesar do foco nos especiais, o Grupo 3corações busca atender todos os perfis de consumidores, dos mais tradicionais aos mais exigentes. Assim, a experiência do cliente se tornou uma prioridade estratégica. “É um consumidor que cresce, que se interessa e que busca mais. Entendemos que, hoje, para conseguirmos democratizar esse consumo, precisamos atender todos os perfis de consumidores, independente do momento em que ele está. Esteja ele está na transição, esteja ele evoluindo, queremos oferecer cafés de alta qualidade para todos os perfis”, diz a especialista.
Segundo Carolina, o perfil do consumidor de café tem mudado. E essa transição influencia a cadeia como um todo. “Os produtores têm trabalhado para trazer cafés diferentes, com processamentos diversificados, para atender a essa demanda. É muito palpável essa evolução acontecendo e, ano após ano, notamos essa busca.”


Por que o café está mais caro?
Mas nem tudo são flores. O preço do café disparou nos últimos anos e segue pressionando a inflação. Segundo Carolina Barreto, o aumento tem origem em uma série de fatores, como mudanças climáticas severas, incluindo secas e geadas, além de impactos geopolíticos que afetaram a logística internacional.
“O café é uma planta perene. Quando uma lavoura é afetada, não é possível plantar de novo e colher no ano seguinte. A produção leva de três a quatro anos para se recuperar”, explica. “Além disso, houve problemas em rotas comerciais internacionais e uma crise de oferta global com os dois maiores produtores, Brasil e Vietnã, tendo dificuldades. O resultado foi uma explosão nos preços. Além disso, o café é uma commodity, negociada em bolsa, e o preço acabou explodindo.”
Para complicar, uma nova barreira surgiu no cenário externo. O governo norte-americano, Donald Trump, anunciou uma taxa de 50% sobre exportações brasileiras. O café é um dos principais produtos de exportação para os Estados Unidos, país que mais consome o grão. A medida tem sido debatida por diversos especialistas, e o Ministério da Agricultura disse em nota que já estuda ampliar as vendas para mercados do Oriente Médio, Sul Asiático e Sul Global como alternativa.
Com a alta histórica no preço do café em 2025, o grupo tem buscado estratégias para minimizar os impactos sem comprometer a qualidade. “Este é um desafio de todo o setor, e temos adotado uma estratégia responsável e gradual. Buscamos absorver ao máximo os impactos da alta dos insumos com ganhos de eficiência, ampliação do portfólio e inovação. Repasses de preços ao consumidor são feitos de forma transparente e cuidadosa, sempre preservando o valor percebido dos produtos e mantendo a qualidade como prioridade”, explica Anderson Spada, head de Marketing do Grupo 3corações.
Experiência e relacionamento

A mentalidade empreendedora também tem guiado o Grupo 3corações em outras frentes. A empresa lançou o Mercafé, seu e-commerce próprio e plataforma de relacionamento com os consumidores. Ali, é possível conhecer toda a gama de produtos e explorar novas formas de consumo.
“Essa mentalidade está presente na criação de produtos personalizados, no desenvolvimento de cafés funcionais, no incentivo à inovação dentro e fora da xícara”, afirma Anderson Spada. “Mais do que reagir ao mercado, buscamos antecipar movimentos e oferecer soluções que se conectem com os desejos e as necessidades reais das pessoas, de acordo com o seu momento e estilo de vida.”
Essa lógica de viver o café em todas as ocasiões também impulsionou a presença da marca nos principais eventos culturais e esportivos do País. A 3corações esteve no Carnaval do Rio e de Salvador, no Rock in Rio, onde distribuiu mais de 21 mil litros da bebida em refil ilimitado, e em festivais regionais, como o São João. “A estratégia também inclui ter o café como aliado para todas as ocasiões, como uma bebida obrigatória em todos os eventos e momentos de descontração”, diz Spada.
Influência digital e parcerias estratégicas
A presença digital é outro pilar importante da estratégia da empresa, que conta com um time de mais de 300 influenciadores e embaixadores da marca, como Simone Mendes, Alok, Silvia Braz, João Gomes e Alex Atala. A atuação nas redes sociais é reforçada por conteúdo proprietário e ações específicas para plataformas como Instagram, TikTok e LinkedIn.
A marca também aposta em parcerias com grandes nomes do entretenimento. Um exemplo é o lançamento de máquinas de café TRES e cápsulas inspiradas em Star Wars, fruto de uma colaboração com a The Walt Disney Company Brasil, que ampliou o alcance da marca junto aos fãs da cultura pop.






