O cenário econômico brasileiro é repleto de desafios. Alta taxa de juros, inflação de dois dígitos, câmbio desfavorável frente ao dólar, além de 51% da população adulta em inadimplência. Essa realidade, por sua vez, impõe ainda mais obstáculos na eficiência das estratégias de concessão e recuperação de crédito no País.
No CCX Seminário 2026, o principal encontro de lideranças sobre o futuro do setor de crédito brasileiro, Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa, faz um convite para fincar os dois pés no chão. “Quando falamos de câmbio e de economia, é preciso conhecer também os desdobramentos internacionais que estão afetando o nosso cenário econômico”, explica.
A começar que, como aponta a especialista, os juros nos Estados Unidos influenciam os juros no Brasil. Ao longo de 2025, o Federal Reserve promoveu cortes na taxa de juros americana. O que, por sua vez, gerou um efeito em cadeia. Com retornos menores nos títulos dos EUA, investidores globais passaram a buscar economias emergentes em busca de maior rentabilidade. O resultado foi um dólar mais fraco no mundo todo e um real mais valorizado, sustentado por uma forte entrada de capital estrangeiro na B3.
Pressão cambial
No entanto, em 2026, esse quadro mudou de figura. O conflito no Oriente Médio trouxe um componente de instabilidade que pressiona o preço do petróleo. E, por consequência, toda a cadeia de custos que depende de combustível.
Some-se a isso um novo sinal dos EUA: em vez de cortar mais os juros em 2026, o mercado americano parece caminhar para uma postura mais dura. Esse movimento, somado à guerra no Oriente Médio, já fez o real perder um pouco da força ganha em 2025. Segundo dados da Serasa Experian, a valorização acumulada do real frente ao dólar em 2026 chegou a 10% até abril, mas recuou para 5,7% até junho.
As projeções também mudaram de direção. O Boletim Focus, do Banco Central, indicava em janeiro de 2026 um câmbio de R$ 5,50 para o fim do ano. Em maio, a expectativa havia melhorado para R$ 5,16. Em julho, porém, a projeção voltou a subir, para R$ 5,20, um reflexo direto da incerteza internacional.
Há ainda outro fator que deve pressionar o câmbio nos próximos meses: a eleição presidencial. Levantamento da Serasa Experian sobre os três últimos ciclos eleitorais (2014, 2018 e 2022) mostra um padrão de desvalorização do real nas semanas que antecedem a votação, historicamente entre R$ 5,27 e R$ 5,58, com média de R$ 5,40.
Depois da eleição, o comportamento do câmbio varia muito mais, entre R$ 5,05 e R$ 6,47, dependendo da credibilidade que o mercado atribui à política econômica do governo eleito.

Inflação desacelera, mas não o suficiente
O câmbio impõe pressão externa sobre os preços. Já a inflação doméstica tem dinâmica própria. Ao longo de 2025, o IPCA desacelerou, o que permitiu ao Banco Central iniciar, em março, o atual ciclo de corte da Selic, que caiu de 15% para 14,25%.
“Não estou falando que a inflação melhorou. Estou falando que ela desacelerou”, pontua Camila. Em suma, os preços continuam subindo, só que em ritmo menor. Boa parte dessa desaceleração veio justamente do câmbio mais favorável, que ajudou a segurar os preços de alimentação em casa.
O problema é que a inflação de serviços – puxada por um mercado de trabalho aquecido e por políticas ainda expansionistas – resiste. Por isso, o corte de juros não trouxe o alívio esperado nos preços que o consumidor sente no dia a dia.
As projeções para os próximos anos pioraram desde o início de 2026. O Focus aponta um IPCA de aproximadamente 4,20% para 2027 e entre 3,75% e 3,80% para 2028. Valor bem acima da meta de 3% perseguida pelo Banco Central, reforça a economista.
Diante desse cenário, a expectativa é que o próximo corte da Selic seja de apenas 0,25 ponto percentual, levando a taxa a 14%.

Cabo de guerra entre políticas
Para Camila, esse impasse tem uma explicação estrutural: falta coordenação entre a política monetária, conduzida pelo Banco Central, e a política fiscal, sob responsabilidade do governo.
“Hoje, a gente tem um cabo de guerra entre essas duas políticas. Não há uma coordenação, não há uma convergência”, resume.
Enquanto o Banco Central sobe os juros para esfriar a inflação – na expectativa de, no futuro, poder reduzi-los de forma sustentável –, o lado fiscal caminha na direção oposta. A dívida bruta do governo, hoje em 84% do PIB, segue trajetória de alta e deve chegar a 88,3% em 2027, segundo projeções da Serasa Experian com base em dados do Banco Central.
Esse endividamento crescente tem um efeito concreto sobre o custo do crédito no País inteiro. Como o governo precisa pagar juros cada vez mais altos para financiar sua própria dívida, as empresas privadas que também buscam captar recursos no mercado acabam competindo com o Tesouro, e pagando caro por isso.
“A gente está falando de juros reais na casa de 8,9%. É um valor absurdo”, avalia a economista.
Um problema de comprometimento de renda
É nesse cenário de juros altos e câmbio instável que a inadimplência brasileira segue batendo recordes desde janeiro de 2025. Hoje, 83,7 milhões de brasileiros estão inadimplentes. O número equivale a 51% da população adulta, com uma média de quatro dívidas por CPF. O valor médio devido por pessoa é de R$ 6.920,63, distribuído em dívidas de cerca de R$ 1.677,45 cada, segundo levantamento da Serasa Experian.
Um dos pontos que mais gera dúvida no mercado, segundo Camila, é o aparente paradoxo entre esse recorde de inadimplência e um mercado de trabalho historicamente aquecido, com desemprego próximo de 5,6% e renda real em crescimento.
“A inadimplência, neste momento, não é um problema de renda. Não é que o brasileiro esteja mais alavancado em dívidas”, explica.
A explicação está em outro número: o comprometimento de renda. Considerando dívidas e contas básicas do dia a dia, como água, luz, gás, telefone, o brasileiro compromete em média 74,6% da renda, segundo estudo da Serasa Experian. Entre quem ganha até um salário-mínimo, esse comprometimento chega a 87,9%. Ou seja, não se trata de falta de renda, mas de margem de manobra.

Quem são os credores?
A inadimplência também é regressiva: 48% dos inadimplentes ganham até um salário-mínimo, e a soma de quem recebe até dois salários-mínimos representa 78% da base. Programas como o Desenrola 1.0 e 2.0 conseguiram conter o ritmo de novos entrantes na inadimplência, mas com um alerta. “Foi apenas capaz de balizar o aumento, não de promover uma redução”, resume a economista.
Outra mudança relevante está em quem concentra essas dívidas. Bancos ainda respondem pela maior fatia do saldo inadimplido (50,5% em 2026), mas essa participação vem caindo. Em comparação, em 2018, era de 65,4%. Em contrapartida, cresce a presença de credores não bancários, como cooperativas financeiras e financeiras, na composição da dívida do consumidor.
O quadro empresarial segue lógica parecida. São 9,1 milhões de CNPJs inadimplentes, com sete dívidas em média por empresa e um valor médio de dívida de R$ 3.515,77. Os processos de recuperação judicial também bateram recorde em 2025, com 2.600 CNPJs envolvidos. Número que é reflexo direto da dificuldade de rolar dívidas com juros nesse patamar.
Crédito mais caro e mais seletivo
Diante desse cenário, a concessão de crédito desacelera, mas de forma desigual. As linhas rotativas – como cartão de crédito e cheque especial, historicamente mais caras – vêm ganhando espaço, enquanto linhas não rotativas, de juros menores, perdem tração. Para pessoa física, o crédito consignado privado é a exceção que confirma a regra: cresceu 234% em 12 meses, puxado justamente pela garantia que oferece ao credor.
Do lado das empresas, o capital de giro segue crescendo com força – com 42% no acumulado em 12 meses –, sustentado por fundos garantidores do governo. Já a antecipação de recebíveis, que não conta com esse tipo de garantia, entrou em território negativo, recuando 2,4%. “O crédito sem garantia tem ficado mais difícil, tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica”, aponta Camila.
Ainda assim, a demanda por crédito segue muito acima da oferta em todos os segmentos. Segundo a Pesquisa de Condições de Crédito do Banco Central, isso acontece desde o consumo das famílias ao crédito habitacional, passando por pequenas, médias e grandes empresas.
Para Camila, isso reflete uma mudança de comportamento: o crédito deixou de ser usado só para ampliar consumo e passou a sustentar o orçamento familiar. Ao mesmo tempo, as taxas de recuperação de crédito, tanto para pessoa física quanto para pessoa jurídica, vêm caindo. Um sinal de que a inadimplência está durando mais tempo.
A raiz da questão
Esse descompasso entre demanda por crédito e capacidade de honrá-lo ajuda a explicar por que o governo tem recorrido a um pacote de medidas de crédito e renda – como o Desenrola 2.0, o Brasil Soberano e a reforma do IRPF. O objetivo é sustentar o consumo das famílias, responsável por 62% do PIB brasileiro. Segundo estimativas da Serasa Experian, esse conjunto de medidas deve adicionar cerca de 1,5 ponto percentual ao PIB no curto prazo.
Na leitura de Camila, esse impulso resolve o problema de curto prazo, mas não ataca a raiz da questão. “Se a gente não mudar a diretriz da política econômica, vamos ficar fadados a continuar navegando com uma taxa de juros de dois dígitos”, afirma Camila.
Diante dessa análise, o recado está dado para quem decide sobre crédito e cobrança no Brasil. O desafio de equilibrar concessão e recuperação deve continuar exigindo atenção redobrada nos próximos meses. Não só por um cenário econômico complexo doméstico e internacional, mas porque o consumidor continua demandando crédito, mesmo diante de altas taxas de juros para manter suas contas equilibradas.





