As pequenas e médias empresas (PMEs) desempenham um papel crucial na economia brasileira. Apenas no primeiro trimestre de 2025, segundo um levantamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), o número de novos CNPJs chegou a 1.407.010. O destaque vai para os microempreendedores individuais (MEIs), que correspondem a 78% do total.
Porém, elas ainda enfrentam desafios quando se trata de acesso a crédito, tecnologias de pagamento e gestão financeira. Nesse cenário, Mario Rocha, diretor de Produtos e Soluções para PMEs e B2B na Mastercard Brasil, explica como a empresa tem atuado para impulsionar a digitalização e a inclusão financeira das PMEs. Confira!
Desafios das PMEs no ecossistema de pagamentos
Consumidor Moderno: Hoje, qual é o papel estratégico das PMEs no ecossistema da Mastercard?
Mario Rocha: As pequenas e médias empresas já participam do ecossistema da Mastercard principalmente por meio da figura dos seus empresários enquanto indivíduos – até mais do que desses empresários atuando efetivamente como gestores de seus negócios. A grande oportunidade que temos hoje é, justamente, educar esse segmento, essas empresas, nas práticas que já são consagradas nas grandes corporações.
A Inteligência Artificial (IA) é, definitivamente, uma grande aceleradora das nossas soluções de pagamento.
Mario Rocha, diretor de Produtos e Soluções para PMEs e B2B na Mastercard Brasil.
CM: Quais são os principais desafios enfrentados por essas empresas no acesso a soluções de pagamento e crédito?
O primeiro desafio pode parecer muito básico: educar e dar acesso a essas empresas a tudo aquilo que já está disponível. Não apenas do ponto de vista tecnológico, mas também em relação a controles, à integração de dados e, logicamente, ao entendimento do cartão, principalmente o de crédito. Não apenas como meio de pagamento, mas como instrumento de financiamento.
Quando você faz um pagamento com cartão, há ali embutido um conceito de capital de giro. Durante o período em que aquela fatura está em vigência, isso significa que você não tem custo. É dinheiro a um custo muito baixo, numa economia em que a taxa de juros é muito alta. E, muitas vezes, o empresário não se conscientiza disso, porque está muito familiarizado com o uso do cartão de crédito como pessoa física. Porém, como empresário, ele se esquece dessa possibilidade.
Apoio às PMEs
CM: Como a Mastercard tem evoluído na oferta de produtos e serviços voltados para as PMEs?
Por meio de uma pesquisa de mercado, identificamos que um dos grandes temores dos empresários em relação à aceitação do cartão como meio de pagamento é o risco de fraude. Ou seja, o medo de que o cartão seja utilizado de forma indevida. E, por meio de uma série de produtos e funcionalidades, a principal delas se chama Business Payment Controls (BPC). Essa ferramenta permite atribuir a um cartão, físico ou virtual, controles de uso. Por meio dessa funcionalidade, posso definir o horário em que o cartão pode ser utilizado, os dias da semana, o número de transações permitidas por dia e, até mesmo, o tipo de estabelecimento ou a categoria de produtos que podem ser comprados com ele.
São mais de 14 tipos de controles, o que permite que o empresário tenha cartões não apenas no próprio bolso, como proprietário ou presidente da empresa, mas também possa distribuir cartões em funções críticas, como com a secretária, com a área de compras ou com o time de gestão de viagens.
Tudo isso que já é muito comum em grandes corporações, agora, com as novas tecnologias e o uso de APIs, tornou-se mais acessível também às pequenas e médias empresas. Elas conseguem, inclusive, superar desafios de integração que grandes corporações ainda enfrentam.
CM: De que forma a Mastercard tem apoiado a digitalização e a inclusão financeira das PMEs?

O próprio conceito que o cartão traz permite, de alguma forma, financiar o capital de giro sem necessariamente tomar recursos de terceiros e, muitas vezes, sem custo. Isso é uma parte muito importante da nossa solução: entender o cartão não só como meio de pagamento, mas também como fonte de capital de giro.
Por outro lado, existe um ponto muito relevante quando falamos da aceitação. O desafio do pagamento via cartão não está apenas em disponibilizar esse meio para os empresários, mas em garantir que eles tenham uma rede de fornecedores apta a receber via cartão.
Nesse sentido, a Mastercard tem diversos programas. Um deles, que me chama muito a atenção e já está em vigor no Brasil, é o Micro Merchant Program. Ele torna a aceitação de serviços via cartão mais acessível para os pequenos empresários.
Assim, não basta simplesmente oferecer a maquininha. É preciso também oferecer condições econômicas para que aceitar cartão seja vantajoso para o vendedor. Não importa o porte da empresa, se é uma grande corporação ou um pequeno comércio. As grandes empresas têm condições específicas para negociar. Já os pequenos empresários não contam com essa estrutura. Esse programa busca universalizar o uso do cartão tanto nos pagamentos quanto nos recebimentos.
CM: Como vocês enxergam a atuação das fintechs no atendimento às PMEs e como isso impacta ou complementa a atuação da Mastercard?
As fintechs são, definitivamente, grandes parceiras. Primeiro, pela agilidade e pela capacidade de distribuição de crédito. Elas fazem uma alocação eficiente de recursos, com o uso de algoritmos e mecanismos de qualificação de crédito mais modernos.
Esse universo é, muitas vezes, mais agressivo em termos de oferta e entrega de serviços, todos em formato digital. O BPC, por exemplo, está em fase de implementação em quatro grandes fintechs brasileiras neste momento. A ideia é justamente essa: trazer soluções que já são clássicas no universo das grandes empresas para a realidade das pequenas e médias.
Saúde financeira com inovação
CM: Olhando para inovação, que tecnologias vocês estão adotando ou planejam adotar nos próximos anos para impulsionar o público B2B?
A Inteligência Artificial (IA) é, definitivamente, uma grande aceleradora das nossas soluções de pagamento. Sempre digo: quando falamos da pessoa física, o pagamento é uma experiência. Você paga e depois liquida a fatura no fim do mês. Mas, no caso da pessoa jurídica, o pagamento é um processo, que começa com a emissão de uma ordem de compra, passa pela recepção do pedido e só depois gera o pagamento, que precisa ser reconciliado, classificado e monitorado.
A Inteligência Artificial, especialmente com o uso de Machine Learning, tem muito a contribuir nesse processo. Já temos, dentro da Mastercard, algumas provas de conceito focadas na gestão de despesas das empresas, e em breve teremos novidades para o mercado brasileiro.
CM: Na área de crédito e cobrança, a Mastercard tem ferramentas que ajudam as pequenas e médias empresas a lidar com inadimplência e gestão de risco?
Temos ferramentas focadas nesse público que permitem qualificar o risco de um comprador. Vale lembrar que a Mastercard é uma empresa de tecnologia. Nosso papel é fornecer infraestrutura para o sistema financeiro, processando transações, mas também ajudando a qualificá-las. Entre os elementos de qualificação, além do risco operacional e da cibersegurança, está também o risco de crédito. E temos ferramentas que auxiliam na qualificação desse crédito.
CM: Diante do cenário de instabilidade financeira, como vocês instruem as empresas a manter uma boa gestão de crédito e saúde financeira?
Educação é um dos pilares da nossa estratégia para pequenas e médias empresas. Trabalhamos com três frentes: educar, equipar e engajar. No pilar da educação, o bom uso das finanças tem um papel fundamental na comercialização das nossas soluções. Reforçamos a necessidade de fazer a segregação entre finanças pessoais das empresariais, especialmente para micro e pequenas empresas.
É muito comum empresas com faturamento entre R$ 2 e 5 milhões usarem contas de pessoa física ou o cartão pessoal do dono para comprar itens da empresa. Isso até pode ser uma alternativa pontual de fluxo de caixa, mas não é uma boa prática de gestão.
Temos soluções para indivíduos, mas há soluções similares, ou até mesmo mais robustas, para utilização dentro do universo de pessoa jurídica. A Mastercard acredita nisso: mais do que vender uma solução, é preciso ensinar como usá-la.





