Após estrear em Santos e São Vicente no fim de outubro, a Keeta, braço internacional da gigante chinesa Meituan, anunciou nesta manhã sua entrada oficial na capital paulista e em outros oito municípios da região metropolitana. O lançamento, que reuniu parceiros, jornalistas, influenciadores e representantes do governo, marcou o passo mais ousado da companhia no País – considerado seu maior mercado fora da China.
A chegada promete agitar o setor de entregas por aplicativo, reacender a disputa por consumidores e restaurantes, e testar se a fórmula que transformou a Meituan em um colosso asiático também funciona em solo brasileiro.
A grande aposta da Keeta para conquistar usuários é uma política chamada pela empresa de Promessa de Pontualidade. A plataforma informa ao consumidor um horário fixo de entrega. Se o pedido atrasar mais de 15 minutos, um cupom é creditado automaticamente, sem conversa com atendente, sem disputa com o restaurante. A prática já é aplicada num formato similar pela 99Food, concorrente da Keeta.
Mas Tony Qui, presidente de Operações Internacionais da Keeta, faz questão de destacar que cumprir a promessa não tem nada a ver com pressionar entregadores. “Não pedimos que eles corram. O que faz diferença é o algoritmo”, explica. “Atribuímos o pedido certo ao entregador certo, no momento certo. Assim, ninguém perde tempo parado no restaurante.”
A estratégia tem origem no modelo chinês da Meituan, famoso por combinar logística, dados e Inteligência Artificial (IA) para orquestrar entregas em alta escala e com baixa margem de erro.
Restaurantes: caixa rápido e marketing inteligente
Enquanto consumidores são seduzidos pela pontualidade, os restaurantes recebem ofertas que miram dores antigas do setor, principalmente para PMEs. A Keeta promete para alguns estabelecimentos o pagamento em 7 dias (e não em 30), com isenção de taxas de antecipação. Também oferece ferramentas de marketing que analisam comportamentos de compra para atrair novos clientes, além de atendimento humano 24 horas, desde o onboarding até a gestão de pagamentos. “Como existem muitos restaurantes no Brasil, não podemos firmar parceria com todos”, diz Qui.
Segundo a empresa, mais de 27 mil restaurantes estarão disponíveis a partir de 1º de dezembro. No piloto em Santos e São Vicente, iniciado em 30 de outubro, já foram 1.600 estabelecimentos cadastrados, com crescimento mensal de 60%.
Um dos movimentos mais estratégicos da Keeta é o lançamento da Compra Intermediada. O modelo foi criado para ampliar a cobertura sem depender da adesão formal dos restaurantes. Funciona assim: o consumidor faz o pedido pela plataforma; a Keeta compra o item diretamente no restaurante, e o entregador retira em nome do cliente. Isso permite que o consumidor acesse restaurantes que não estão cadastrados. Além disso, possibilita que pequenos negócios, muitas vezes sem estrutura tecnológica, também ganhem visibilidade.
É uma solução já usada pela Meituan na China e que, segundo Qui, tem impacto direto na inclusão digital do setor.
A experiência do entregador
A Keeta também promete investir pesado na base que sustenta o ecossistema: os entregadores. Serão R$ 100 milhões destinados a benefícios e infraestrutura, incluindo:
- Primeiro Centro de Suporte ao Entregador em São Paulo, na região de Santo Amaro, com área de descanso, água, banheiros e cozinha.
- Saques diários sem taxas.
- Treinamento presencial para uso do app.
- Capacetes inteligentes com tecnologia proprietária, começando com ciclistas e, futuramente, motociclistas, que possibilitam o direcionamento do condutor sem o mesmo precisar olhar para o aplicativo.
Hoje, a plataforma afirma ter 98 mil entregadores parceiros cadastrados em todo o estado de São Paulo.
Nos últimos meses, a Meituan foi alvo de acusações sobre coleta excessiva de dados, o que levantou questionamentos sobre práticas da Keeta no Brasil. Sobre o tema, Tony Qui evitou o embate, mas reforçou que a competição deve se resolver na experiência do usuário. “Os consumidores agora têm escolha. A longo prazo, acho benéfico. No fim das contas, ganha quem oferece a melhor experiência.”
Drones? Ainda não, mas no radar
Outro tema que desperta curiosidade é o uso de drones. A Meituan já ultrapassou mil entregas aéreas na China, utilizadas principalmente em áreas de difícil acesso, como trechos da Muralha da China. No Brasil, porém, o cenário ainda é distante: falta regulamentação, e o ambiente urbano de São Paulo dificulta a operação.
Mesmo assim, Qui admite que a empresa estuda casos de uso para o futuro e cita regiões remotas, áreas de camping e locais na Amazônia como possíveis pontos para testes, caso o Brasil avance na regulação.
A expansão da Keeta faz parte de um investimento total de R$ 5,6 bilhões que a Meituan destinará ao Brasil. Trata-se do maior montante já aplicado pela empresa fora da China. Do valor, R$ 1 bilhão será direcionado à operação que estreia agora em São Paulo, financiando tecnologia, logística, ações para atração de consumidores, marketing para PMEs e expansão de equipes. A estratégia busca acelerar o crescimento da plataforma em um mercado competitivo, mas ainda carente de previsibilidade e atendimento consistente, segundo avaliação da empresa.
Por fim, a curiosidade sobre o nome “Keeta” também foi respondida. Meituan, difícil de pronunciar fora da China, deu lugar a um nome inspirado na cheetah (ou guepardo), animal conhecido pela velocidade e agilidade. Uma metáfora direta para o tipo de entrega que a companhia quer oferecer no Brasil.
São Paulo é o teste decisivo
Segundo a empresa, o desempenho em Santos e São Vicente, onde os cadastros de entregadores cresceram 135% em apenas 20 dias, foi usado como termômetro para justificar a entrada na capital. Mas é São Paulo, com sua complexidade logística e consumidores exigentes, que será o verdadeiro teste para saber se a combinação de algoritmos, incentivos agressivos, suporte ao entregador e inclusão de pequenos restaurantes será suficiente para transformar a Keeta em um novo protagonista do delivery brasileiro.
São números que chamam atenção. Mas será a capital paulista que definirá a real capacidade da Keeta em transformar logística, atrair restaurantes e conquistar consumidores em um dos mercados mais competitivos de delivery do mundo.
Quem é a Meituan?
- Fundada em 2010, a Meituan oferece uma ampla gama de serviços de entrega online por meio de seu aplicativo, incluindo entregas de comida, serviços de supermecardo e fármacia, ingressos para cinema, shows, entre outros.
- Atende 770 milhões de usuários ao ano e uma média de 80 milhões de pedidos por dia.
- A empresa chegou a um recorde de 120 milhões de pedidos em único dia.
- Na China, são cerca de 14,8 milhões de restaurantes parceiros e 7 milhões de entregadores.
- Mais de 10 mil engenheiros especialistas em algoritmos.





