Fernanda tem 34 anos, ensino superior completo e trabalha no setor financeiro. Nos últimos meses, ela viu a empresa implementar sistemas de Inteligência Artificial para revisar contratos, analisar dados e acelerar decisões. O discurso interno fala em produtividade. Mas, nos corredores, a pergunta é outra: “A IA vai substituir parte da equipe?”
A dúvida de Fernanda não é isolada.
E, de acordo com um novo estudo nacional, ela faz parte do grupo mais exposto à transformação tecnológica no Brasil. O levantamento O Impacto da IA nas ocupações do Brasil, da ESPM, mostra que a Inteligência Artificial já incide com mais força sobre profissões de alta qualificação – e isso pode ter reflexos diretos no mercado de trabalho, nos salários e, consequentemente, no poder de compra das famílias.
IA atinge mais quem ganha mais
Diferentemente das revoluções tecnológicas anteriores, que afetaram principalmente funções operacionais, a atual onda de IA impacta atividades cognitivas complexas.
Entre as 20 ocupações com maior exposição no Brasil estão:
- Matemáticos, atuários e estatísticos;
- Escriturários gerais;
- Contadores;
- Profissionais do Direito;
- Psicólogos;
- Dirigentes financeiros;
- Economistas;
- Juízes;
- Professores universitários.
Veja abaixo:

Em outras palavras, a pesquisa mostra uma relação direta entre renda e exposição à IA. Trabalhadores da classe A, por exemplo, representam apenas 2% da população ocupada, mas aparecem com 5% no grupo de alta exposição. Já as classes de menor renda estão menos presentes entre as ocupações mais impactadas.
Quem está relativamente protegido?
No outro extremo, aparecem ocupações que exigem presença física, variabilidade ambiental e habilidades manuais complexas:
- Pedreiros;
- Gesseiros;
- Trabalhadores da construção;
- Trabalhadores elementares da agricultura;
- Lavadores de veículos.
Isso mostra que, neste momento, a IA não substitui facilmente tarefas físicas imprevisíveis. Em outras palavras, a pesquisa evidencia que, apesar do avanço da Inteligência Artificial, ocupações baseadas em habilidades manuais, presença física e interação humana direta ainda apresentam maior resistência à automação no cenário brasileiro.
Exposição cresce há mais de uma década
O estudo acompanha a evolução desde 2013. A exposição média da força de trabalho brasileira à IA aumentou continuamente ao longo dos anos, estabilizou durante a pandemia e voltou a crescer após 2022.
Isso significa que o Brasil passou a concentrar mais trabalhadores em ocupações sensíveis à automação.

Outro dado expressivo está na escolaridade. Embora apenas 16% da população ocupada tenha ensino superior completo, esse grupo representa 58% nas ocupações de alta exposição à IA.
Já trabalhadores com ensino fundamental incompleto praticamente não aparecem nesse conjunto. O padrão reforça que, neste momento, a tecnologia transforma principalmente funções que exigem formação formal e competências cognitivas.

Mulheres e jovens aparecem mais expostos
As mulheres representam 51% da força de trabalho, mas sobem para 55% nas ocupações de alta exposição. Entre as faixas etárias, trabalhadores da Geração Y e da Geração Z aparecem ligeiramente mais concentrados nas funções mais impactadas.
O motivo está na presença desses grupos em áreas administrativas, técnicas e digitais.
No que diz respeito à região, a exposição varia bem entre os estados. O Distrito Federal lidera o ranking nacional, seguido por Rio de Janeiro e São Paulo.
Essas regiões concentram maior número de profissionais qualificados, funções administrativas e setores intensivos em informação – áreas mais sensíveis à transformação digital.

O que isso significa para o consumidor?
O estudo mede potencial de impacto, não substituição automática. A IA pode tanto eliminar tarefas quanto ampliar produtividade.
Se houver complementaridade – isto é, se a tecnologia aumentar a eficiência de quem já ocupa funções qualificadas –, o efeito pode ser crescimento de renda nesses segmentos.
Por outro lado, se houver substituição significativa, o País poderá enfrentar reconfiguração salarial e necessidade acelerada de requalificação profissional.
Para o consumidor, isso impacta diretamente:
- Oferta de empregos;
- Salários médios;
- Poder de compra;
- Preços de serviços especializados.
Em resumo, o avanço da IA não é apenas um tema corporativo. Ele tem reflexos diretos no bolso e na estabilidade das famílias brasileiras.
Para as empresas, a adaptação já começou
Setores como serviços financeiros, consultoria, jurídico, marketing, educação superior e tecnologia aparecem entre os mais expostos. Empresas que atuam nessas áreas precisarão investir em:
- Requalificação de equipes;
- Redesenho de processos;
- Integração estratégica da IA.
Ignorar essa transição pode significar perda de competitividade.
Por que esse estudo importa?
Ao mapear quem está mais exposto à Inteligência Artificial, o estudo revela um ponto crucial: o impacto começa no topo da pirâmide ocupacional. E quando funções estratégicas mudam, toda a economia se reorganiza. Inclusive o bolso do consumidor.
Ademais, porque quando a tecnologia altera funções centrais das empresas, três efeitos costumam aparecer:
- Mudança na estrutura de custos;
- Reconfiguração de empregos;
- Alteração na prestação de serviços.
Se a IA reduzir custos operacionais, parte disso pode virar preço menor. Caso ela substitua postos qualificados, pode haver impacto no mercado de trabalho e no poder de compra. E, por fim, se ela aumentar produtividade, pode melhorar serviços – mas também concentrar renda.
Portanto, entender quem está mais exposto ajuda a prever como a economia pode se reorganizar.





