/
/
IA, consumo e vínculo humano: qual é o limite da personalização?

IA, consumo e vínculo humano: qual é o limite da personalização?

Ingrid Abdo analisa como a IA está transformando a experiência de consumo e redefinindo o equilíbrio entre personalização e vínculo humano.
No CM Entrevista, Ingrid Abdo analisa como a Inteligência Artificial está transformando a experiência de consumo e redefinindo o equilíbrio entre personalização e vínculo humano. A especialista defende que, longe de substituir relações, a IA pode fortalecer comunidades e confiança quando usada com transparência e propósito.
Foto: Divulgação.
Indrig Abdo, professora da Link Business School e VP da América Latina da MAC Cosmetics.
Especialista Ingrid Abdo afirma que a IA pode resgatar conexões mais humanas ao liberar times de marketing para focar em experiências autênticas, apesar do risco de excesso de automação. Ela destaca que jovens tendem a ser indiferentes à IA quando funciona bem, mas exigem transparência e trocas claras entre privacidade e conveniência. Para o futuro, defende que marcas combinem digital e presença física, priorizem ética, autenticidade e fortaleçam comunidades para gerar confiança e valor real.

A Inteligência Artificial está redefinindo a experiência do consumidor. De recomendações personalizadas a decisões automatizadas, marcas passaram a operar com base em dados em escala sem precedentes. Ao mesmo tempo, cresce a inquietação: até que ponto a personalização fortalece a experiência do cliente – e quando ela ameaça diluir o vínculo humano?

Para aprofundar esse debate sob a ótica do consumidor, a Consumidor Moderno conversou com Ingrid Abdo, especialista em Marketing e Gestão de Comunidades, professora da Link School of Business e Vice-Presidente da América Latina da MAC Cosmetics. Na entrevista a seguir, ela analisa o impacto da IA nas relações de consumo e o comportamento das novas gerações.

Mas não só. Ela também fala do papel das comunidades de marca e os riscos para o capital humano e social em um ambiente cada vez mais automatizado.

Acompanhe a entrevista na íntegra.

IA e vínculo humano no consumo

Consumidor Moderno: A Inteligência Artificial tem ampliado a capacidade das marcas de conhecer seus consumidores, mas também levantado críticas sobre relações cada vez mais automatizadas. Onde está o limite entre personalização e perda do vínculo humano?

Ingrid Abdo: Acredito que o vínculo humano entre marcas e consumidores foi bastante diluído antes mesmo da chegada da IA, no que eu chamo de “era dos leads”. A busca por resultados em escala acabou gerando um foco excessivo em dados e, no mercado digital, a aquisição de consumidores se tornou mais importante do que o desenvolvimento de um relacionamento durável com eles.

Contudo, por mais contraditório que possa parecer, acredito que a “era da IA” vai permitir que as marcas resgatem conexões mais verdadeiras e humanas. Isso porque a IA passa a executar com eficiência tarefas operacionais como recomendação de produtos, otimização de campanhas e personalização em escala, liberando os times de marketing para se concentrarem em construir relações mais profundas com seus consumidores, especialmente por meio de pontos de contato intencionalmente dedicados à estabelecer conexões autênticas através de relevância, emoção e experiência – especialmente com o resgate de interações no mundo físico.

Jovens, IA e jornada de consumo

CM: A partir da sua pesquisa sobre jovens e marcas, como as novas gerações percebem o uso de IA nas interações de consumo? Elas veem valor, vigilância ou indiferença?

Eu diria que há indiferença, desde que tudo funcione muito bem. A IA já faz parte do cotidiano dos jovens. Fato. Portanto, se a tecnologia se torna aparente em qualquer ponto da jornada de compra, quer dizer que ela falhou em algo. Seja porque não resolve com a mesma eficácia de um atendimento humano, seja porque tenta “performar” humanidade e soa falsa.

Já a questão da vigilância depende do contexto. Os jovens tendem a ser menos dispostos a compartilhar dados que não sejam necessários para a entrega do produto ou serviço. Entretanto, eles tendem a fazer uma troca mais consciente entre privacidade e conveniência.

Dados, algoritmos e confiança do consumidor

CM: Em um cenário de decisões cada vez mais orientadas por dados e algoritmos, como as empresas podem evitar que a lógica da eficiência enfraqueça a confiança e a autenticidade nas relações com os consumidores?

Eu acredito no poder desproporcional em se fazer “coisas que não escalam”. Geralmente são ações que têm um alcance menor e são difíceis de medir. Porém, as chances de que o impacto seja mais profundo e duradouro são infinitamente maiores.

Por exemplo, convidar um influenciador a participar do desenvolvimento de um produto, dar a um consumidor fiel acesso antecipado a um lançamento com uma mensagem pessoal de agradecimento, ou responder a uma reclamação nas redes sociais com um compromisso público de melhoria. Gestos como estes mostram que a marca está verdadeiramente interessada em servir seu consumidor e não o tratam como um número. Isso tem um efeito multiplicador poderoso, apesar de não ser tão visível quanto os dados possam mensurar.

Comunidades de marca e economia da atenção

CM: Você propõe o conceito de gestão de comunidades como um caminho para relações mais genuínas. Como a IA pode ser usada para fortalecer comunidades – e não apenas escalar vendas ou engajamento artificial?

Em princípio, comunidades de marca são espaços oferecidos para que os consumidores se relacionem entre si. O papel da marca não é protagonizar a conversa, mas facilitar que as trocas ocorram de forma orgânica, oferecendo um suporte que os membros não teriam sozinhos. Clubes de corrida são o exemplo ideal: a marca viabiliza a infraestrutura e o percurso, mas o valor real reside na conexão entre os participantes.

Isso é um grande diferencial na economia da atenção, na qual existe grande disputa pelo mesmo espaço que gera um ruído que acaba por silenciar o que deveria ser sinal. Nem sempre a marca falando em primeira pessoa traz algo relevante; para se inserir em uma comunidade, ela precisa entregar valor utilitário ou emocional, e não apenas mensagens publicitárias.

O papel da IA não está em tentar automatizar o vínculo, mas processar padrões, antecipar necessidades latentes e segmentar interesses dentro de cada nicho. A IA cuida da complexidade dos dados nos bastidores para que, na ponta final, a experiência continue sendo profundamente humana e relevante.

Entre bits e átomos: experiência híbrida no consumo

CM: O que muda para o consumidor quando marcas passam a operar nesse “espaço entre bits e átomos” que você descreve, onde o digital e o real se misturam de forma permanente?

No passado, o diferencial de uma empresa estava na proposta única de valor do seu produto físico. Porém, com o avanço da industrialização, as barreiras de entrada para concorrentes ficaram cada vez mais baixas. O mundo dos átomos, apesar de ser difícil de construir, deixou de ser uma vantagem competitiva por si só.

Em seguida, a eficiência dos negócios digitais passou a ser o grande diferencial. A velocidade de escala e o custo marginal quase zero para gerar produtos feitos de bits pareciam ser uma fórmula invencível. Porém, com a chegada da IA, o jogo mudou novamente. Agora, tudo que é puramente virtual pode ser replicado por qualquer pessoa através de ferramentas generativas. O que era diferencial passa a ser commodity.

É por isso que acredito que as marcas mais resilientes serão aquelas que operam no espaço entre bits e átomos. O digital dá escala e alcance, mas são as âncoras físicas e a presença humana que constroem o que um algoritmo não consegue replicar: experiência e confiança.

IA, capital humano e capital social

CM: Na sua visão, quais riscos a IA traz para o capital humano e o capital social dos indivíduos, especialmente em um contexto de consumo mediado por plataformas e sistemas automatizados?

Considerando que com toda essa abundância digital o valor migra para tudo que não pode ser copiado, o capital humano passa a ser ainda mais crítico. Não por acaso, os estudos de tendência do Fórum Econômico Mundial continuam a apontar para a crescente importância de habilidades centradas no ser humano. Ou seja, conhecimento tácito, contexto adquirido por presença, experiências individuais passam a ter ainda mais valor.

O paradoxo é que a IA, ao mesmo tempo que valoriza esse capital insubstituível, pode atrofiar o caminho que nos leva a ele. Quando algoritmos influenciam o que consumimos, lemos e conversamos, eles reduzem nossa exposição a condições essenciais para construir repertório real.

Da mesma forma, o capital social – entendido não como popularidade, mas como reputação construída através de demonstração consistente e verificada por pessoas que te acompanham ao longo do tempo – se torna ainda mais valioso. O risco é que plataformas automatizadas otimizam para engajamento, não para profundidade, produzindo mais conexões e menos vínculos reais. E isso importa porque os dois capitais se alimentam mutuamente: capital humano demonstrado torna-se capital social, que por sua vez abre oportunidades de converter conhecimento em valor concreto.

Capital de valor e responsabilidade das marcas

CM: Como o conceito de “capital de valor” ajuda a repensar o papel do consumidor em um ecossistema dominado por tecnologia, dados e IA? Pensando no futuro das relações de consumo, que responsabilidades passam a ser inevitáveis para as marcas que adotam IA em larga escala, especialmente quando falamos de ética, transparência e impacto social?

Vejo três pontos importantes. O primeiro é transparência. As marcas precisam ser claras sobre quando o consumidor está interagindo com IA e como seus dados alimentam algoritmos de personalização da experiência. Por exemplo: o preço que vejo pelo celular muda pela minha localização ou horário? É o mesmo de uma loja física? São perguntas que o consumidor já faz e que devem ser comunicadas de forma ativa e com clareza.

A segunda é o impacto dos algoritmos e do conteúdo das redes sociais na saúde mental, algo com efeitos reais e já bem documentados. Esse é um debate que deve se intensificar e que exige que marcas também se posicionem de forma responsável em relação ao seu conteúdo.

A terceira é a autenticidade. Em um cenário em que textos, imagens e até avaliações podem ser gerados por IA, o consumidor precisa saber no que pode confiar. Acredito que veremos surgir selos e certificações que atestem o que é real e, ao mesmo tempo, uma valorização crescente do que é genuinamente humano: curadoria pessoal, criação artesanal, atendimento feito por pessoas. O “feito por humanos” passa a ser um diferencial.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Sheglam chega ao Brasil em junho com 150 produtos, preços a partir de R$ 29,90 e meta de R$ 50 milhões em faturamento no primeiro ano.
Sheglam desembarca no Brasil com foco na GenZ
A marca de cosméticos do Grupo Shein chega ao Brasil em junho com 150 produtos, preços a partir de R$ 29,90 e meta de R$ 50 milhões em faturamento no primeiro ano.
Carla Beltrão, VP de Customer Experience da Vivo
“O cliente não quer mais canais, quer continuidade”
Carla Beltrão, VP de Customer Experience da Vivo, defende que o futuro do CX depende menos da tecnologia em si e mais da capacidade de criar jornadas fluidas e humanas.
Fabricio Dore, diretor de Experiência e Design do Itaú Unibanco, destaca as estratégias por trás da indicação do banco na categoria Empresa do Ano do Prêmio Consumidor Moderno 2026
Multidisciplinaridade e tecnologia: a receita do Itaú para CX
Itaú Unibanco, empresa indicada à categoria especial Empresa do Ano do Prêmio Consumidor Moderno, combina IA, design e experiência para transformar escuta ativa em soluções.
Para a Brasilcap, experiência do cliente não se constrói apenas na contratação, mas na capacidade de gerar presença e valor na jornada.
CM Entrevista: Confiança se constrói na repetição de boas experiências
Para a Brasilcap, experiência do cliente não se constrói apenas na contratação, mas na capacidade de gerar presença e valor na jornada.

Webstories

SUMÁRIO – Edição 296

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Rhauan Porfírio
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

Diretora-Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Gustavo Bittencourt
[email protected]

Juliana Carvalho
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora do Portal 
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Jéssica Chalegra
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento
[email protected]

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadoras
Nayara Manfredi
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Rebeca Andrade – Ensinamentos e Aprendizados O futuro do entretenimento no Brasil NBA é a melhor experiência esportiva do mundo Grupo Boticário, em parceria com a Mercur, distribui gratuitamente produtos inclusivos.