A rápida disseminação da Inteligência Artificial no Direito brasileiro inaugura uma nova fase para a advocacia, marcada por ganhos relevantes de produtividade e por um redesenho do papel do profissional. Levantamento conduzido pela OAB São Paulo, OAB Paraná, OAB Bahia, OAB Goiás, OAB Pernambuco e OAB Espírito Santo, em parceria com Trybe, Jusbrasil e ITS Rio, mostra que 77% dos advogados já utilizam ferramentas de IA ao menos semanalmente. Trata-se de um avanço de 22 pontos percentuais em relação a 2025.
Com base em mais de 1.800 respostas coletadas em todo o País, o estudo indica que a tecnologia deixou de ocupar um espaço experimental para se consolidar como instrumento cotidiano de trabalho. A mudança, no entanto, vai além da adoção e altera a lógica de atuação no setor, deslocando o advogado de funções operacionais para atividades de análise, estratégia e tomada de decisão.
Para o consumidor, o efeito tende a ser mais direto. O uso de IA amplia a capacidade de atendimento, reduz prazos e pode contribuir para a diminuição de custos, com potencial de expandir o acesso a serviços jurídicos.
Produtividade e qualidade impulsionam adesão
Os dados apontam que 84% dos profissionais que adotaram IA afirmam que a tecnologia atendeu ou superou as expectativas iniciais. Há ganhos mensuráveis tanto em eficiência quanto em qualidade técnica: 91% relatam melhoria na elaboração de peças e análises, enquanto 84% indicam aumento de produtividade.
Parte relevante dos advogados já registra economia de tempo semanal, com impacto direto na organização do trabalho e na possibilidade de direcionar esforços para atividades de maior valor agregado.
Ferramentas de uso generalista concentram a maior parte da adoção, como ChatGPT e Google Gemini, embora soluções jurídicas como JusBrasil, especializadas avancem em paralelo, sobretudo em tarefas que exigem maior precisão técnica.
Segundo Luiz Paulo Pinho, presidente do JusBrasil, a aderência à prática é determinante para captura de valor. “A IA no Direito só atinge seu potencial pleno quando é moldada pela realidade e pelas necessidades reais da prática jurídica”, afirma.
Capacitação e ambiente corporativo
A pesquisa evidencia correlação direta entre qualificação e uso da tecnologia. Entre os usuários frequentes, 60% buscaram algum tipo de capacitação, enquanto 78% dos que não utilizam IA nunca passaram por treinamento. Ao mesmo tempo, 82% dos respondentes consideram a formação no tema urgente ou relevante para a competitividade profissional.
O ambiente organizacional também exerce influência. Entre os que utilizam IA com frequência, 79% atuam em locais que incentivam o uso. Já entre os não usuários, 82% estão inseridos em estruturas que não estimulam a adoção.
Apesar disso, a incorporação da tecnologia ocorre majoritariamente de forma descentralizada. Cerca de 80% dos profissionais afirmam que a iniciativa parte deles próprios ou de colegas, enquanto apenas 8% apontam indução por parte da liderança, percentual inferior ao registrado no ano anterior.
Falta de diretrizes expõe riscos
O descompasso entre a velocidade de adoção individual e a resposta institucional surge como um dos principais pontos de atenção. Mais da metade das organizações não possui diretrizes formais para uso de IA, e apenas 34% contam com orçamento dedicado à tecnologia.
Esse cenário favorece o chamado “Shadow IT”, no qual ferramentas são utilizadas sem governança estruturada, ampliando riscos relacionados à segurança da informação, privacidade de dados e confiabilidade dos resultados.
Para Dr. Rafael Lara, presidente da OAB Goiás, a tecnologia é irreversível, mas exige supervisão. “A IA é uma aliada, mas seu uso precisa ser acompanhado de responsabilidade e controle”, afirma.
Na mesma linha, Matheus Ganem, CEO da Trybe, destaca que o profissional do Direito já abraçou a IA, mas os dados mostram um descompasso preocupante: a inovação está acontecendo “fora do radar” das organizações.
“É imprescindível e urgente que as lideranças assumam o controle dessa narrativa. O relatório comprova que o resultado real com a IA não acontece por acaso, mas de um ambiente que incentive o uso, garanta governança e invista em qualificação. Capacitar equipes é o alicerce para que o avanço não seja apenas rápido, mas principalmente responsável, produtivo e focado no que o ser humano faz de melhor: a estratégia e o relacionamento com clientes”, destaca Matheus Ganem.

Pressão por amadurecimento institucional
A expectativa de continuidade do avanço é praticamente consensual: 94% dos entrevistados projetam aumento do uso de IA ao longo de 2026. O movimento sugere que a tecnologia tende a se consolidar como infraestrutura básica da atividade jurídica.
Nesse contexto, o desafio desloca-se da adoção para a governança. O setor passa a demandar maior protagonismo das lideranças, definição de políticas de uso, investimentos em ferramentas e treinamento contínuo.
Para Sérgio Branco, presidente do ITS Rio, o momento exige equilíbrio entre inovação e responsabilidade. A consolidação da IA no Direito, avalia, dependerá da capacidade das instituições de estruturar seu uso de forma segura, ética e alinhada às exigências regulatórias.
“Nós ainda estamos na ‘idade da pedra lascada’ da IA. Imagina o poder da tecnologia que aumentará exponencialmente nos próximos anos. A adoção tem sido massiva, adesão e satisfação também. Mas, agora, é preciso de governança para que se alcance resultados ainda mais satisfatórios.”
Por fim, ao mesmo tempo em que amplia eficiência e escala, a tecnologia impõe ao setor jurídico uma agenda de transformação organizacional. A forma como escritórios e departamentos jurídicos responderão a essa pressão tende a definir o ritmo e a qualidade dessa transição.





