/
/
O etarismo não nasce na campanha. Nasce na sala de decisão

O etarismo não nasce na campanha. Nasce na sala de decisão

O etarismo aparece nas decisões de design, comunicação e jornada, gerando experiências excludentes e perda de valor.
Foto: Tati Gracia.
Marcas ainda ignoram o público 50+, tratando-o como nicho, apesar de representar 28,5% da população e grande poder de consumo. O etarismo aparece nas decisões de design, comunicação e jornada, gerando experiências excludentes e perda de valor. Incluir esse público desde a estratégia é essencial para relevância, inovação e crescimento sustentável.

As marcas investem milhões para entender comportamento.

Ainda assim, quando o consumidor tem 50+, boa parte do mercado continua decidindo com repertório curto.

Não é falta de dado.

É falta de perspectiva.

Porque o problema raramente começa na campanha que saiu.

Começa antes.

Começa quando o briefing já imagina um consumidor padrão.
Começa quando 50+ entra na conversa como ajuste.
Começa quando esse público aparece no fim da execução, mas não no começo da decisão.

O etarismo mais caro de uma marca não está apenas no que ela mostra.

Está no jeito como ela define quem merece ser considerado desde a origem.

50+ não é recorte. É mercado

O Brasil já tem 59 milhões de pessoas com 50 anos ou mais. Esse grupo representa 28,5% da população brasileira e é responsável por 20% do consumo nacional. A projeção indica que, até 2044, esse grupo deve representar 40% da população.

Isso não descreve um nicho.

Descreve o nosso País.

E, traduzindo em linguagem de negócio: representa mais poder de compra que qualquer segmento demográfico isolado. Ignorar isso é abrir mão de crescimento real.

Mesmo assim, muitas marcas ainda tratam 50+ como um segmento opcional.

Como adaptação.
Como oportunidade pontual.
Como linguagem específica para uma campanha específica.

Se couber no budget.

Sempre do lado de fora do centro.

Esse é o erro.

Porque ninguém constrói relevância tratando uma parcela dessa dimensão como se fosse exceção.

Como gosto de pontuar, “exclusão não é um erro de execução. É uma escolha de visão”.

A exclusão acontece antes da propaganda

A marca pode colocar uma pessoa 50+ no filme.

Isso, sozinho, não prova nada.

Porque a exclusão costuma acontecer antes.

Acontece quando a embalagem não considera o uso real. Letras pequenas que ninguém lê, aberturas que exigem força, designs que priorizam estética sobre funcionalidade.

Quando a jornada digital parte de familiaridades que não deveriam ser pressupostas, ícones que só fazem sentido para quem cresceu com eles, fluxos que assumem velocidade de clique como padrão.

Quando o atendimento simplifica demais e, sem perceber, infantiliza.

Quando a experiência inteira transmite, em silêncio, que aquilo não foi pensado para você.

Esse é o preconceito etário mais sofisticado.

Não o escancarado.

O que vive disfarçado nas decisões de design.

O que entra na régua de usabilidade. Na escolha da linguagem. Na definição do que parece intuitivo. Na imagem do consumidor “normal”.

O comportamento real de uma marca não aparece só no discurso.

Aparece no que ela trata como padrão.

Quem não enxerga 50+ com precisão decide mal

Existe um vício silencioso no mercado.

Confundir juventude com desejo. Velocidade com inteligência. Novidade com relevância. Familiaridade digital com competência geral de consumo.

Só que 50+ não é ausência de futuro.

É, muitas vezes, presença maior de critério.

Mais comparação.
Mais seletividade.
Mais memória de marca.
Mais sensibilidade ao que facilita de verdade e ao que só parece moderno.

Quando a marca não entende isso, ela erra na leitura do comportamento.

E erro de leitura custa caro.

Custa em experiência. Custa em conversão. Custa em retenção. Custa em vínculo.

Mas existe outro lado dessa equação, e é ele que muita marca ainda não entendeu: quem muda a mentalidade agora sai na frente.

Sai na frente porque enxerga antes onde estão as barreiras invisíveis.
Sai na frente porque desenvolve produtos, serviços e jornadas com mais precisão.
Sai na frente porque constrói confiança com um público que decide, compara e permanece.
Sai na frente porque, ao incluir 50+ de verdade, melhora a experiência para muito mais gente.

No fim, não se trata apenas de inclusão.

Trata-se de inteligência de mercado.

Porque marcas que leem melhor a longevidade não apenas evitam erro.

Elas ampliam relevância, preferência e crescimento.

Inclusão não é gentileza

Pesquisas recentes mostram que 65% das pessoas valorizam empresas que promovem diversidade e inclusão. Marcas que quiserem crescer de verdade precisarão investir em inovação inclusiva e representação autêntica, não como discurso, mas como decisão estrutural.

A mensagem é simples:

Inclusão etária deixou de ser ornamento reputacional.

Virou competência de mercado.

E, quando o assunto é 50+, essa competência ainda falha de forma muito básica.

Não porque as marcas não tenham acesso à informação.

Mas porque continuam presas a uma ideia estreita de quem representa desejo, autonomia, beleza, facilidade e futuro.

“Quem escolhe não enxergar 59 milhões de pessoas não está sendo conservador. Está sendo míope.”

O mercado já mudou. Muitas decisões, não

Com profissionais 45+ ganhando peso na força de trabalho e na população geral, empresas que integram diferentes idades ampliam inovação, reduzem turnover, melhoram decisões e compreendem melhor o comportamento do consumidor.

Esse raciocínio vale também para as marcas.

Quem decide olhando o mundo por uma faixa etária estreita empobrece a própria capacidade de entender consumo.

Porque consumo não é só compra.

É rotina.
É contexto.
É fricção.
É confiança.
É o quanto aquilo foi pensado para alguém como você sem te reduzir, sem te caricaturar, sem te empurrar para fora do centro.

Marcas que ainda tratam 50+ como exceção estão atrasadas em comportamento.

E comportamento mal lido sempre cobra a conta.

O teste que separa discurso de competência

A sua marca não precisa perguntar apenas se representa 50+.

Precisa perguntar outra coisa:

50+ entrou no começo da decisão ou só apareceu no final da execução?

Entrou no briefing?
Entrou na pesquisa?
Entrou no design?
Entrou no teste?
Entrou na definição do que é simples, desejável, intuitivo e relevante?

Porque uma coisa é lembrar de 50+ no fim do processo.

Outra, muito diferente, é não apagar 50+ na origem.

E é aí que o etarismo de marca realmente começa.

Não na campanha.

Na sala de decisão.

Mas aqui está o incômodo real: enquanto você lê isso, há marcas decidindo agora mesmo que 50+ é “nicho”. Que é “depois”. Que é “se sobrar verba”.

Essas marcas estão escolhendo ficar pequenas.

Porque exclusão não é um erro de execução. É uma escolha de visão.

E quem escolhe não enxergar 59 milhões de pessoas, não está sendo conservador.

Está sendo míope.

A questão não é mais se sua marca vai incluir 50+.

É se sua marca vai estar relevante quando 50+ for 40% do mercado.

E nesse ponto, não há campanha que salve quem decidiu errado na sala.

Tati Gracia é analista comportamental, gerontóloga e autora.

Compartilhe essa notícia:

Recomendadas

MAIS +

Veja mais noticias

Pesquisa do Observatório de Novas Gerações, da Trope-se, mostra que a Geração Z mede a vida adulta pela autonomia financeira e pelo trabalho.
Para a GenZ, trabalho é sinal de vida adulta e também fonte de insegurança
Pesquisa do Observatório de Novas Gerações, da Trope-se, mostra que a Geração Z mede a vida adulta pela autonomia financeira e pelo trabalho
Itaú alerta sobre riscos de alugar contas bancárias e roubo de biometria
Criminosos oferecem dinheiro para movimentar recursos de terceiros e também podem usar dados pessoais para abrir contas sem autorização
O que moda e música têm a ver com o Mercado Livre?
Com desfile próprio no SPFW e um festival esgotado na mesma semana, empresa amplia sua presença física para ocupar novos espaços na memória dos consumidores
Farmácia supera Delivery em 2,5 vezes no gasto por consumidor
Estudo da Serasa Experian mapeia 4,26 milhões de “High Spenders” no Brasil e mostra que o consumidor de maior valor muda de perfil conforme a categoria

Webstories

SUMÁRIO – Edição 298

A evolução do consumidor traz uma série de desafios inéditos, inclusive para os modelos de gestão corporativa. A Consumidor Moderno tornou-se especialista em entender essas mutações e identificar tendências. Como um ecossistema de conteúdo multiplataforma, temos o inabalável compromisso de traduzir essa expertise para o mundo empresarial assimilar a importância da inserção do consumidor no centro de suas decisões e estratégias.

A busca incansável da excelência e a inovação como essência fomentam nosso espírito questionador, movido pela adrenalina de desafiar e superar limites – sempre com integridade.

Esses são os valores que nos impulsionam a explorar continuamente as melhores práticas para o desenho de uma experiência do cliente fluida e memorável, no Brasil e no mundo.

A IA chega para acelerar e exponencializar os negócios e seus processos. Mas o CX é para sempre, e fará a diferença nas relações com os clientes.

CAPA: Camila Nascimento
IMAGEM: IA Generativa | ChatGPT


Publisher
Roberto Meir

Vice-Presidente Executiva
Lucimara Fiorin
[email protected]

Diretor-Executivo de Conhecimento
Jacques Meir
[email protected]

COMERCIAL E PUBLICIDADE
Gerentes

Daniela Calvo
[email protected]

Elisabete Almeida
[email protected]

Érica Issa
[email protected]

Marcelo Malzoni
[email protected]

Rodrigo Santinelo
rodrigo.santinelo@gpadrao.com.br

NÚCLEO DE CONTEÚDO
Head de Conteúdo
Larissa Sant’Ana
[email protected]

Editora
Júlia Fregonese
[email protected]

Produtores de Conteúdo
Bianca Alvarenga
Danielle Ruas 
Marcelo Brandão
Victoria Pirolla

Head de Arte
Camila Nascimento

Revisão
Elani Cardoso

COMUNICAÇÃO E MARKETING
Coordenadora
Paula Coutinho

TECNOLOGIA
Gerente

Ricardo Domingues


CONSUMIDOR MODERNO
é uma publicação da Padrão Editorial Ltda.
www.gpadrao.com.br
Rua Ceará, 62 – Higienópolis
Brasil – São Paulo – SP – 01234-010
Telefone: +55 (11) 3125-2244
A editora não se responsabiliza pelos conceitos emitidos nos artigos ou nas matérias assinadas. A reprodução do conteúdo editorial desta revista só será permitida com autorização da Editora ou com citação da fonte.
Todos os direitos reservados e protegidos pelas leis do copyright,
sendo vedada a reprodução no todo ou em parte dos textos
publicados nesta revista, salvo expresso
consentimento dos seus editores.
Padrão Editorial Ltda.
Consumidor Moderno ISSN 1413-1226

NA INTERNET
Acesse diariamente o portal
www.consumidormoderno.com.br
e tenha acesso a um conteúdo multiformato
sempre original, instigante e provocador
sobre todos os assuntos relativos ao
comportamento do consumidor e à inteligência
relacional, incluindo tendências, experiência,
jornada do cliente, tecnologias, defesa do
consumidor, nova consciência, gestão e inovação.

PUBLICIDADE
Anuncie na Consumidor Moderno e tenha
o melhor retorno de leitores qualificados
e informados do Brasil.

PARA INFORMAÇÕES SOBRE ORÇAMENTOS:
[email protected]

Keds volta ao Brasil após 22 anos e aposta na nostalgia para crescer Prime Video aposta em vídeos curtos e amplia funções do streaming Do clique ao dano: quem responde nas novas relações de consumo? Menos estímulos, mais experiência?