O Mundial de Futebol de 2026 deixou uma lição importante para as empresas sobre engajamento dos funcionários em tempos de festas. Entre os jogos e a eliminação precoce do Brasil, outrora chamada de país do futebol, empresas e times de RH lidaram com o quebra-cabeça de como fazer os funcionários voltarem ao ritmo normal.
A questão é: o Mundial acontece a cada quatro anos; não é um evento isolado ou único. Temos, também, Olimpíadas, Carnaval, festas de fim de ano, feriados, aniversários de empresa, festa junina e outras celebrações pontuais… O ser humano é sociável e precisa de ritos de passagem para se situar. Um torneio mundial não é só futebol, assim como o Natal e o Ano Novo não são só festas: são fenômenos sociais de larga escala que reorganizam rotinas, pautas de conversa e até humor coletivo.
Comemorações são parte da cultura, assim como o trabalho. Então, eles precisam, necessariamente, coexistir. Ignorar grandes eventos e comemorações é arriscar parecer desconectado da realidade cultural das equipes; forçar produtividade a qualquer custo gera ressentimento e queda de engajamento. O caminho mais inteligente é jogar junto.
O equilíbrio entre entrega e pertencimento
O impacto sobre produtividade, foco e disposição é inegável. Manter os colaboradores motivados exige, acima de tudo, inteligência estratégica de gestão de pessoas. Para isso, é necessário uma leitura de contexto.
Profissionais do varejo e do marketing, em particular, estarão sobrecarregados nestes períodos: o consumo cresce, as oportunidades de ativação de marca se multiplicam e as demandas operacionais se intensificam. Para esses times, eventos celebratórios não são distração, são picos de trabalho. E mesmo assim, a pressão emocional da comemoração está lá, presente, exigindo que o gestor saiba equilibrar entrega e pertencimento.
Para outros setores, o desafio é diferente, mas igualmente real: como manter o ritmo e a motivação de equipes que, mentalmente, já estão em outro lugar?
Uma pesquisa da BHN indica que 90% dos funcionários consideram importante receber algum tipo de reconhecimento no trabalho, e 83% afirmam que isso impacta diretamente sua produtividade e lealdade. Esses números não surgem no vácuo: eles refletem uma mudança estrutural nas expectativas da relação empregatícia contemporânea.
Para além dos benefícios tradicionais, os profissionais de hoje querem flexibilidade e reconhecimento – e eventos de grande apelo popular, sejam esportivos, culturais ou sazonais, funcionam como termômetro dessa demanda. Essas ocasiões não criam a expectativa; apenas a amplificam, tornando-as mais visível. O colaborador que se sente ignorado durante uma celebração coletiva e cultural não se esquece facilmente.
Há também uma dimensão geracional nessa equação. Profissionais mais jovens – que já chegaram ao mercado de trabalho com outras expectativas sobre equilíbrio entre vida pessoal e profissional – tendem a avaliar a cultura da empresa justamente nesses momentos de teste. A forma como uma organização se comporta durante momentos de descontração diz muito sobre seus valores reais, para além dos que estão escritos no site institucional.
Capital simbólico
É importante fazer uma distinção que muitas empresas confundem: participar do clima não significa promover festas ou ignorar metas, e sim reconhecer que o colaborador é também uma pessoa inserida em uma cultura, com vínculos emocionais.
Nesse cenário, iniciativas de incentivo e recompensa durante períodos de alta distração não são concessão ao ócio. São investimento em pertencimento. Uma empresa que acompanha seus colaboradores em momentos de celebração coletiva constrói capital simbólico que nenhum pacote de benefícios convencional consegue replicar. E capital simbólico, em tempos de guerra por talentos, tem valor mensurável – na retenção, no clima organizacional e na reputação como empregadora.
A Incentive Marketing Association, em levantamento focado na América Latina, aponta que 68% dos executivos consideram iniciativas de reconhecimento e incentivo de grande importância nesse tipo de contexto. O dado revela que a liderança, em boa parte, já entendeu o recado. A execução, porém, ainda patina em muitas organizações.
Marcas e departamentos de RH que ignorarem essa dinâmica não perderão apenas engajamento pontual. Correm o risco de perder relevância duradoura, tanto para seus funcionários quanto para o mercado.
Empresas que souberem aproveitar datas comemorativas com criatividade, autenticidade e estratégia saem delas com algo mais valioso do que qualquer tempo desperdiçado: terão equipes mais coesas, colaboradores mais leais e uma cultura organizacional que provou, na prática, que sabe o que significa jogar junto. As festas vêm e vão. A percepção que os colaboradores constroem sobre a empresa nesses períodos, não. E o fim do ano já está aí, vale pensar nisso.
*Natália Garrido, Diretora de Operações e Produtos da BHN Brasil





