Em 28 de abril, é comemorado o Dia do Frete Grátis. A data foi criada nos Estados Unidos e, por aqui, mantém a mesma relevância que a Páscoa no calendário dos lojistas digitais. Tanto que 12% das marcas realizam ações específicas, segundo levantamento do NuvemCommerce 2026.
Em uma época em que comprar se torna mais estratégico para o bolso do consumidor, a ultraconveniência do frete grátis tem ganhado relevância no e-commerce e impactado grandes marcas.
A expansão do Amazon Hub Delivery no Brasil é um bom exemplo. Ela sinaliza uma tentativa clara de responder a uma das maiores tensões do e-commerce atual: como manter a promessa de entregas rápidas e gratuitas sem comprometer a rentabilidade?
O programa conecta pequenos e médios negócios locais à operação logística da Amazon, transformando estabelecimentos de bairro em pontos de apoio para a última milha. Na prática, trata-se de uma estratégia para reduzir custos, ganhar capilaridade e sustentar um dos principais motores de conversão do varejo digital: o frete grátis.
Mas essa equação está cada vez mais pressionada.
O custo invisível da experiência
Embora amplamente percebido como benefício, o frete grátis nunca foi, de fato, gratuito. O custo da entrega é absorvido ao longo da cadeia, seja nas margens dos produtos, em subsídios operacionais ou em modelos de fidelização.
Relatório da McKinsey aponta que a última milha pode representar até 50% do custo logístico total no e-commerce, tornando-se o principal ponto de pressão sobre a lucratividade. Já a CB Insights destaca que a busca por entregas cada vez mais rápidas e sem custo adicional está entre os fatores que mais impactam os resultados financeiros das empresas do setor globalmente.
No Brasil, esse cenário se intensifica. O frete grátis deixou de ser diferencial competitivo e passou a ser expectativa básica do consumidor. O que, por sua vez, torna qualquer tentativa de recuo uma decisão de alto risco para conversão e receita.
Logística distribuída como resposta
É nesse contexto que iniciativas como o Amazon Hub Delivery ganham relevância. Ao descentralizar a operação e utilizar a infraestrutura de pequenos comércios locais, a empresa reduz distâncias, otimiza rotas e dilui custos.
Esse modelo acompanha uma tendência global: a busca por redes logísticas mais distribuídas, flexíveis e próximas do consumidor final. Ao invés de depender exclusivamente de grandes centros de distribuição, as empresas passam a operar com uma malha híbrida, combinando escala industrial com capilaridade local.
Além de reduzir custos, essa estratégia também transfere parte da operação para parceiros, criando uma dinâmica de compartilhamento logístico que amplia a eficiência, ainda que, na prática, redistribua responsabilidades ao longo da cadeia.
Escala, tecnologia e subsídio
Amazon e Mercado Livre seguem caminhos semelhantes ao apostar em escala como principal alavanca para sustentar o frete grátis.
No Brasil, a Amazon já investiu mais de R$ 55 bilhões na última década, expandindo sua infraestrutura e acelerando prazos de entrega. O Mercado Livre, por sua vez, estruturou uma operação robusta com centros de distribuição, frota aérea própria e soluções integradas de logística.
Segundo análise da Goldman Sachs, o frete gratuito se sustenta quando três fatores operam em conjunto: alto volume de pedidos, eficiência logística crescente e fontes adicionais de receita (como assinaturas, publicidade e serviços financeiros).
O desafio é que esse equilíbrio se torna mais difícil à medida que a competição aumenta e as expectativas do consumidor se elevam.
Um benefício em transformação
A tendência não aponta para o fim do frete grátis, mas para sua reformulação. De acordo com a Euromonitor International, o setor caminha para modelos mais seletivos e estratégicos, como frete condicionado a ticket mínimo, benefícios atrelados a programas de assinatura e diferenciação entre prazos de entrega.
Nesse cenário, o frete grátis deixa de ser universal e passa a ser uma ferramenta de segmentação e fidelização.
O limite está na experiência
Apesar das pressões financeiras, reduzir ou eliminar o frete grátis não é tão simples. Dados da NielsenIQ mostram que o custo de entrega está entre os principais motivos de abandono de carrinho no e-commerce, o que reforça seu papel central na jornada de compra.
Isso coloca as empresas diante de um dilema: preservar a experiência do consumidor ou proteger margens?
A resposta, ao que tudo indica, passa por ganhos de eficiência “invisíveis” para o cliente. E é exatamente nesse ponto que programas como o Amazon Hub Delivery se posicionam. Ao aproximar a logística das comunidades e reduzir custos operacionais, a iniciativa ajuda a sustentar a promessa de conveniência sem alterar, ao menos por enquanto, a percepção do consumidor.
A evolução do frete grátis
O avanço de modelos logísticos mais distribuídos indica que o frete grátis deve continuar existindo, mas sob novas condições.
Mais do que um benefício universal, ele tende a se tornar uma alavanca estratégica, sustentada por tecnologia, dados e redes locais cada vez mais integradas.
Aliado à operação logística eficiente, o frete grátis cria diferencial competitivo no varejo. Logística cara e lenta elimina o consumo. Em um País onde o consumidor se torna mais seletivo, no fim, a disputa não será sobre quem oferece frete grátis, mas sobre quem consegue torná-lo ágil e viável por mais tempo.





