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Crédito está virando parte da experiência do varejo

Crédito está virando parte da experiência do varejo

Pressão sobre renda e consumo leva varejo a incorporar crédito e pagamentos como parte do negócio, diluindo a dívida ao longo da jornada.
Pressão sobre renda e consumo leva varejo a incorporar crédito e pagamentos como parte do negócio, diluindo a dívida ao longo da jornada.
Foto: Shutterstock.
Impulsionado por um consumidor que decide com base no que cabe no mês, o varejo brasileiro vem incorporando serviços financeiros como parte central do negócio. Plataformas como o iFood mostram que crédito, pagamentos e conta digital deixaram de ser complementos e passaram a estruturar a operação dos parceiros.

No Brasil, a lógica de consumo passa menos pelo preço total e mais pelo impacto mensal. Não é apenas uma escolha racional, e sim um reflexo direto da forma como grande parte da população vive e organiza sua vida financeira. Em recordes de endividamento, renda pressionada e pouca previsibilidade, o tempo econômico do brasileiro é curto. E é justamente nesse espaço que o varejo avança facilitando o consumo e mas incorporando serviços financeiros à rotina de quem depende da plataforma para operar.

De acordo com a pesquisa Custo de Vida no Brasil, realizada pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, o custo de vida médio mensal do brasileiro chega a R$ 3.520. O valor considera gastos com moradia, contas recorrentes, supermercado, transporte, saúde, educação, lazer, alimentação, compras em geral e serviços e cuidados pessoais. 

Com cada vez mais despesas fixas, como supermercado, moradia e outros compromissos do dia a dia, o custo de vida segue pressionando o orçamento das famílias e exigindo cada vez mais atenção e planejamento financeiro.

O privilégio do longo prazo

Assim, para milhões de pessoas, chegar ao fim do mês ainda é o principal objetivo financeiro. Nesse contexto, planejar o longo prazo deixa de ser prioridade e passa a ser quase um luxo. Não por falta de interesse ou educação financeira, mas por uma questão de que quando o orçamento já nasce comprometido, o foco naturalmente se desloca para o que é imediato.

“O brasileiro tende a pensar a compra em termos de parcela porque vive pressionado pelo curto prazo. Pensar no longo prazo é um privilégio de quem tem margem. Para quem não tem, priorizar o agora é necessidade”, explica Gabriela Mello, coordenadora de Insights do Grupo Consumoteca.

É aí que o parcelamento surge e se destaca nessa jornada de consumo. Mais do que um meio de pagamento, ele se transforma em ferramenta de viabilização, como bem explica Mello. Ao dividir o valor, o consumidor não está apenas facilitando a compra, está tornando possível aquilo que, à vista, simplesmente não caberia. O critério deixa de ser “quanto custa” e passa a ser “quanto cabe agora”.

“Olhar para o valor da parcela, e não para o total, é o que transforma compras que pareceriam inviáveis em possibilidades concretas. É assim que muitos sonhos cabem no presente”, afirma.

A lógica do “quanto pesa agora”

Gabriela Mello, coordenadora de Insights do Grupo Consumoteca.

A cultura do parcelamento no Brasil também está profundamente conectada à instabilidade de renda. Em um País marcado por desigualdade e oscilações econômicas, dividir pagamentos não é um comportamento natural, mas sim parte da estrutura.

“O parcelamento historicamente ampliou o poder de compra do brasileiro. Em um País marcado por desigualdades profundas e rendas instáveis, ele funciona como fôlego e, muitas vezes, como sustentação de um determinado padrão de vida”, diz.

Além de ampliar o poder de compra, essa opção faz com que o parcelamento cumpra um papel menos visível, mas igualmente importante. “O parcelamento ajuda a manter uma sensação de continuidade. Continuidade de acesso, de pertencimento e até de normalidade em meio à instabilidade”, pontua Mello.

O parcelamento reorganiza a forma como decisões são tomadas. O consumidor deixa de olhar o custo total e passa a avaliar o impacto imediato. A pergunta muda e com ela, toda a lógica de escolha.

“Ele organiza o consumo dentro do que cabe no mês, e não no que cabe no bolso como um todo. O critério deixa de ser ‘quanto custa’ e passa a ser ‘quanto pesa agora’”, resume. Ou seja, o consumo passa a caber no mês  e é isso que permite o consumidor continuar comprando, mesmo com a renda limitada.

A diluição do crédito na jornada digital

Se antes o crédito vinha acompanhado de barreiras burocráticas e até mesmo emocionais, a digitalização mudou completamente esse cenário. Pedir crédito já foi sinônimo de deslocamento, análise demorada e, muitas vezes, desconforto. Hoje, é quase invisível.

“O digital não só encurtou o tempo entre desejo e ação, como também diluiu a presença do crédito na jornada. Ele deixa de ser uma etapa clara e passa a estar embutido, quase invisível”, afirma.

Segundo Mello, frequentemente o crédito é apresentado de forma leve e simplificada. “Ele sai de ser um grande vilão, um compromisso financeiro pesado, e vira apenas mais um clique no processo de compra”, destaca.

O que antes era uma decisão ponderada agora pode acontecer em poucos cliques. A fricção desaparece e, com ela, o peso simbólico da escolha.

O avanço do “crédito invisível”

É nesse contexto que modelos como o Buy Now, Pay Later (BNPL) ganham força. Com a fragmentação dos pagamentos, esses modelos são integrados de forma fluida à jornada de compra, suavizando a percepção da dívida.

“O BNPL desloca o peso simbólico do endividamento. A dívida deixa de ser um evento marcante e passa a ser apenas mais um clique no processo de compra”, explica.

O efeito é sutil e cria uma nova relação emocional com o endividamento, mais leve e menos evidente.

“Isso não significa que o BNPL seja um problema em si. Mas, no Brasil, ele exige uma camada adicional de transparência por meio das instituições financeiras. Mais do que facilitar o consumo, elas precisam ajudar o consumidor a entender o que está assumindo. Sem isso, o risco deixa de ser percebido e o endividamento pode crescer sem que ele sequer seja sentido”, explica.

Varejo vira infraestrutura financeira

Wilson Cimino, Vice-Presidente de Growth do iFood Pago.

Se o consumidor já não separa mais compra de pagamento e decide com base no que cabe no mês, o varejo também deixou de separar consumo de serviços financeiros. O crédito não entra depois da compra. Ele já faz parte dela.

Esse movimento é estratégico. O que antes era acessório virou um ponto importante do negócio. Hoje, falar de plataforma de consumo é, inevitavelmente, falar de pagamentos, crédito e gestão financeira integrados à jornada.

Para o iFood Pago, essa infraestrutura promove a inclusão financeira, acesso ao crédito e centraliza recebimentos, antecipações e crédito em um único ambiente, melhorando a organização financeira dos restaurantes.

“Hoje, é difícil falar de plataforma de consumo sem falar de serviços financeiros. Eles deixaram de ser acessórios e passaram a fazer parte da engrenagem central do negócio. Quando estão integrados à jornada de vendas, simplificam a operação, dão mais previsibilidade e fortalecem a relação com o parceiro”, explica Wilson Cimino, Vice-Presidente de Growth do iFood Pago.

No caso do iFood Pago, as soluções surgiram a partir de desafios dos clientes, pela necessidade de uma experiência mais fluída, e dos restaurantes, como fluxo de caixa apertado, dificuldade de acesso a crédito e burocracia.

Na prática, isso muda a lógica de operação. Quando conta digital, antecipação de recebíveis e crédito estão no mesmo ambiente, o varejo ganha previsibilidade e eficiência, e o parceiro, mais controle sobre o próprio caixa.

“Ao integrar conta digital, crédito e pagamentos, conseguimos simplificar a gestão financeira e reduzir complexidades operacionais para nossos parceiros. Trata-se de estruturar uma infraestrutura financeira digital aderente à realidade do setor de alimentação”, explica Cimino.

O resultado aparece em fidelização, recorrência e crescimento mais sustentável, não apenas em volume de pedidos.

Crédito como experiência

A pergunta é quase inevitável: o varejo está virando banco? Cimino não responde nem que sim e nem que não. No entanto, ele observa uma integração cada vez mais natural entre consumo e serviços financeiros.

“Quando essas soluções que estão conectadas à operação do dia a dia nascem para resolver dores concretas do cliente e do negócio, elas deixam de ser um complemento e passam a fazer parte da experiência da plataforma”, explica Cimino.

Em vez de olhar apenas histórico bancário, a plataforma passa a considerar dados reais de operação: volume de vendas, sazonalidade, comportamento do negócio. Isso permite, segundo Cimino a calibrar limites e condições de forma mais aderente à realidade do parceiro.

“Ao analisar as informações conseguimos refletir sazonalidade, comportamento de vendas e fluxo financeiro do setor”, complementa.

O impacto é direto na inclusão financeira. Segundo dados do próprio iFood Pago, 63% dos restaurantes que acessaram crédito pela plataforma não haviam conseguido aprovação em bancos tradicionais. Ao mesmo tempo, 79% relatam impacto positivo no negócio.

Crédito que nasce do contexto

Ou seja, quando o crédito nasce do contexto, e não de critérios padronizados, ele amplia acesso sem necessariamente ampliar risco. Nesse sentido, o varejo financeiro entrega algo que vai além de impulsionar compras: ele estrutura o negócio.

Hoje, o iFood Pago já soma mais de 205 mil contas digitais ativas e disponibiliza R$ 8,56 bilhões em recursos pré-aprovados para mais de 91 mil parceiros. É o capital que vira estoque, equipe, equipamento e até crescimento de negócio.

Segundo Cimino, a vertical cresceu 96% em receita entre 2024 e 2025 e atingiu rentabilidade em setembro de 2025.

Se o crédito já virou parte da compra para o consumidor, para o varejo ele virou infraestrutura. Invisível na forma, mas central no funcionamento.

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