A Copa do Mundo 2026 movimenta torcedores, empresas e também exige atenção dos consumidores. No sofá, o celular vibra sem parar. Um amigo envia um link para assistir ao jogo. Surge uma promoção de camisa oficial. Aparece um sorteio de ingressos. Um anúncio promete desconto em uma nova televisão. Tudo acontece ao mesmo tempo.
A Copa do Mundo sempre movimenta muito mais do que o futebol. Ela acelera compras, impulsiona viagens, estimula apostas e aumenta o consumo de produtos e serviços ligados ao evento. Mas existe outro movimento que cresce junto com a empolgação dos torcedores. Golpes digitais, falsas promoções, problemas em compras online e decisões financeiras impulsivas costumam ganhar força durante grandes eventos esportivos.
Os números já mostram esse cenário.
Em março, o Procon-SP registrou apenas 19 reclamações relacionadas à Copa do Mundo. Em abril, foram 63. Já em maio, o volume saltou para 708 registros. A escalada chama atenção porque ocorreu antes mesmo de a bola rolar. Somente em maio, o Procon-SP recebeu 521 reclamações ligadas a figurinhas e álbuns da Copa.
A maior parte das reclamações envolve compras realizadas pela internet. Os consumidores relatam atraso na entrega, produtos não recebidos, divergência entre o anúncio e o item entregue e dificuldades para obter atendimento após a compra. Nem mesmo as tradicionais figurinhas escaparam.

A pergunta que fica é simples: quais cuidados o consumidor deve adotar antes de entrar no clima do Mundial?
A alta dos preços tem limite?
Quem planeja viajar para acompanhar os jogos ou aproveitar promoções ligadas ao evento já percebeu um fenômeno conhecido. Os preços começaram a subir. Passagens, hospedagens e serviços turísticos costumam ficar mais caros quando a demanda aumenta.
Isso não significa, porém, que qualquer reajuste seja permitido. Segundo Leonardo Amarante, especialista em Direito do Consumidor e sócio do escritório Leonardo Amarante Advogados Associados, a economia brasileira permite liberdade de precificação. “O Brasil adota regime de economia de mercado, que permite, em regra, a liberalidade do fornecedor quanto à precificação de seus produtos e serviços.”
Por outro lado, essa liberdade encontra limites na legislação consumerista. “O Código de Defesa do Consumidor prevê princípios como boa-fé, transparência e equilíbrio contratual.”
O advogado explica que aumentos de preços podem ocorrer naturalmente durante períodos de maior procura. No entanto, práticas que imponham vantagens excessivas ao consumidor podem ser questionadas. “Exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva é uma prática considerada abusiva pelo CDC.”
Para Amarante, o consumidor deve pesquisar preços, comparar ofertas e registrar anúncios sempre que possível.

O golpe não está na TV. Está no celular
A Copa de 2026 será disputada em campo. Mas muitas fraudes acontecerão na chamada segunda tela. Ou seja, enquanto assistem aos jogos, milhões de pessoas utilizam o celular para comentar lances, fazer apostas, participar de promoções e buscar transmissões alternativas. É justamente nesse ambiente que os criminosos atuam.
Para Stefano Ribeiro Ferri, especialista em Direito do Consumidor e membro da Comissão de Direito Civil da OAB Campinas, o envolvimento emocional dos torcedores cria terreno fértil para golpes. “Grandes eventos esportivos costumam despertar forte envolvimento emocional do público.”
De acordo com ele, os criminosos exploram a sensação de urgência criada durante os jogos. “A Copa do Mundo é especialmente atrativa para fraudadores porque mobiliza milhões de pessoas simultaneamente.”
Entre os golpes mais frequentes estão vendas falsas de ingressos, promoções inexistentes, transmissões piratas e plataformas irregulares de apostas. Também crescem os casos de perfis falsos que imitam patrocinadores, influenciadores e marcas conhecidas.

O QR Code pode custar mais que a camisa oficial
O comportamento multitela também ampliou outro risco. Durante as partidas, muitos consumidores escaneiam QR Codes divulgados em redes sociais, grupos de mensagens e transmissões paralelas.
Nem todos são legítimos.
Paulo Cesar Costa, CEO da PH3A, afirma que a combinação entre emoção e velocidade favorece decisões arriscadas. “Durante jogos de grande audiência, as pessoas ficam mais impulsivas e clicam com menos cautela.”
Segundo ele, criminosos costumam utilizar descontos agressivos, brindes e promoções exclusivas para atrair vítimas. “Quando uma promoção parece boa demais, o ideal é desconfiar.”
O executivo alerta para outro comportamento comum durante grandes eventos. “Muitas fraudes utilizam formulários aparentemente inofensivos para coletar dados pessoais e financeiros.”
Por isso, informações como CPF, dados bancários, senhas e códigos enviados por SMS exigem atenção redobrada.

O maior adversário pode ser o impulso
Nem todo prejuízo nasce de uma fraude. Em muitos casos, ele começa dentro do próprio orçamento.
Guilherme Lacerda, Private Wealth Manager e consultor de investimentos da Eleva Invest, afirma que a Copa costuma estimular decisões financeiras emocionais.
“Vejo três erros mais comuns.”
O primeiro é olhar apenas para a parcela. “O consumidor costuma observar o valor mensal e ignorar o custo total.”
O segundo envolve o uso de crédito caro. “Compras por impulso podem acabar no rotativo do cartão ou no cheque especial”. E, por consequência, o terceiro ponto envolve as apostas esportivas. Segundo Lacerda, elas devem ser encaradas como uma forma de entretenimento, e não como uma estratégia para resolver problemas financeiros ou recuperar perdas.
Antes de comprar qualquer produto ou serviço relacionado à Copa, vale pesquisar o fornecedor, conferir as regras da oferta e desconfiar de promessas exageradas. Em períodos de alta demanda, informação continua sendo a principal defesa do consumidor.






