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A Copa passa e as parcelas ficam: os erros que podem custar caro ao torcedor

A Copa passa e as parcelas ficam: os erros que podem custar caro ao torcedor

Com o Brasil em campo, especialistas alertam para compras impulsivas, parcelamentos longos e riscos financeiros durante a Copa do Mundo.
Com o Brasil em campo, especialistas alertam para compras impulsivas, parcelamentos longos e riscos financeiros durante a Copa do Mundo.
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Shutterstock
Com o Brasil em campo nesta sexta-feira, especialistas alertam para compras impulsivas, parcelamentos longos, assinaturas esquecidas e golpes digitais que podem transformar a festa em dor de cabeça financeira.

Na sexta-feira, às 21h30, o Brasil enfrenta o Haiti. Como acontece em toda Copa do Mundo, o clima de torcida tende a ganhar força a cada rodada. A cada jogo, cresce o interesse por eletrônicos, confraternizações, assinaturas de streaming, viagens e experiências ligadas ao torneio.

O fenômeno não acontece apenas dentro de campo. Ele também aparece no comportamento de consumo.

Pesquisa da Serasa realizada em parceria com o Instituto Opinion Box mostra que 76% dos brasileiros têm alguma expectativa em relação à Copa e que 79% pretendem acompanhar ao menos uma partida. Além disso, 60% afirmam que devem consumir algum item relacionado ao evento, especialmente alimentos, bebidas e produtos temáticos.

O problema surge quando a emoção entra em campo antes do planejamento. Segundo a mesma pesquisa, embora 60% dos consumidores pretendam gastar durante a competição, apenas 26% afirmam fazer algum tipo de planejamento financeiro para essas despesas.

A Copa influencia decisões de compra

Para Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira, a Copa cria um ambiente favorável ao consumo porque combina envolvimento emocional e desejo de participação coletiva.

“A Copa do Mundo costuma estimular o consumo em diversas categorias, principalmente alimentação, bebidas, artigos esportivos, eletrônicos e serviços de entretenimento.”

Aline Vieira, especialista da Serasa em educação financeira.

A especialista alerta que a empolgação típica do torneio pode interferir na forma como os consumidores tomam decisões financeiras. “O principal risco é tomar decisões financeiras motivadas pela emoção do momento, sem considerar o impacto dessas despesas no orçamento dos meses seguintes.”

Segundo ela, o desafio não está no consumo em si, mas na falta de planejamento para acomodar esses gastos dentro do orçamento familiar. “Quando não há organização prévia, despesas que parecem pequenas individualmente podem se acumular e comprometer o equilíbrio financeiro.

A TV nova pode custar muito mais do que parece

Para Victor Oliveira, sócio e diretor executivo da operação de planejamento financeiro da Grão Investimentos, um dos erros mais comuns é a compra de última hora motivada pela empolgação do evento.

“O erro mais clássico é a TV nova de última hora. Falta uma semana para a Copa e a família decide trocar a televisão. Como é uma decisão tomada às pressas, acaba comprando no preço cheio e parcelando em doze vezes.”

Segundo ele, o consumidor muitas vezes ignora o impacto da decisão após o encerramento do torneio. “A festa dura um mês, mas a TV continua sendo paga até o ano que vem.”

O especialista também chama atenção para gastos aparentemente inofensivos. “Delivery, cerveja extra, lanches e pequenas despesas parecem pouco quando analisados separadamente. O problema é que, somados, podem pesar tanto quanto uma compra de maior valor.”

Victor Oliveira, sócio da Grão Investimentos.

O churrasco de cada jogo pode virar um rombo silencioso

Além dos eletrônicos, outro hábito frequente durante a Copa é a realização de encontros entre amigos e familiares. Embora essas confraternizações façam parte da experiência do evento, elas também podem pressionar o orçamento.

Victor Oliveira afirma que muitas famílias deixam de contabilizar despesas recorrentes. “Ninguém soma carne, bebida, carvão, refrigerante e outros itens. Quando os jogos se acumulam, a conta do mercado costuma surpreender no fim do mês.”

O especialista recomenda que os consumidores estabeleçam um orçamento específico para o período da competição. “Querer aproveitar a Copa é mais do que justo. O importante é garantir que essa alegria não se transforme em uma preocupação financeira depois.”

O consumo emocional aumenta a vulnerabilidade do consumidor

Ailton José Silva, especialista em Direito do Consumidor

Ailton José Silva, presidente da Subseção da OAB de Lagoa da Prata e especialista em Direito do Consumidor, explica que grandes eventos esportivos costumam ampliar a vulnerabilidade do consumidor.

“O Código de Defesa do Consumidor reconhece que o consumidor é a parte vulnerável da relação de consumo. Durante eventos como a Copa, essa vulnerabilidade pode ser potencializada pelo envolvimento emocional e pelo senso de urgência criado pelas campanhas promocionais.”

De acordo com o especialista, esse cenário pode favorecer decisões pouco refletidas. “É comum que consumidores adquiram televisores, eletrônicos, assinaturas de streaming, viagens e serviços sem avaliar adequadamente a necessidade da compra ou seu impacto financeiro.”

O advogado lembra que a legislação brasileira passou a tratar de forma específica a prevenção ao superendividamento. “Em alguns casos, esse comportamento pode contribuir para situações de superendividamento, tema que recebeu proteção específica com a Lei nº 14.181/2021.”

Promoções da Copa exigem atenção redobrada

A combinação entre marketing agressivo e desejo de aproveitar o momento também exige cautela. Ailton José Silva alerta que nem todo desconto representa uma oportunidade real. “Nem toda oferta anunciada representa uma vantagem verdadeira. O consumidor deve comparar preços e verificar as condições antes de fechar negócio.”

Ele destaca que a publicidade cria obrigações para as empresas. “Toda oferta anunciada deve ser cumprida pelo fornecedor. Isso está previsto no Código de Defesa do Consumidor.”

Além disso, o especialista chama atenção para um problema recorrente. “Grandes eventos esportivos costumam registrar aumento de golpes digitais, especialmente por meio de links falsos, sites fraudulentos e promoções excessivamente vantajosas.”

O gatilho emocional pode desligar o filtro racional

Estrela Isis Marinho, do RCA Advogados.

A advogada Estrela Isis de Almeida Marinho, integrante da equipe do RCA Advogados e especialista em Direito Civil e Defesa do Consumidor, afirma que a Copa ativa mecanismos emocionais que influenciam diretamente as decisões de compra.

“A Copa gera um forte senso de pertencimento. É aquela sensação de que o país inteiro está vivendo o mesmo momento.”

Segundo ela, esse ambiente reduz a capacidade de análise racional. “O gatilho emocional acaba desligando nosso filtro mais racional, tornando o consumidor muito mais vulnerável às compras por impulso.”

A especialista observa que o risco não está apenas nos produtos de maior valor. “O consumidor passa a enxergar determinadas compras como parte da experiência de participar do evento, mesmo quando elas não eram necessárias.”

Quando a emoção termina, a fatura continua

Estrela Isis de Almeida Marinho defende que o entusiasmo típico da competição seja acompanhado de escolhas conscientes. Afinal, enquanto a Copa termina em poucas semanas, os compromissos financeiros assumidos durante o torneio podem permanecer por muitos meses.

Por fim, quando o apito final soar, o ideal é que a lembrança que fique seja a dos gols, das comemorações e dos encontros com amigos e familiares.

Como resume Victor Oliveira: “A festa dura um mês, mas a TV continua sendo paga até o ano que vem.”

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