O Pix pode levar poucos segundos para sair da conta de um apostador e chegar a uma plataforma de apostas. E é justamente esse caminho do dinheiro que pode ajudar a fechar o cerco contra o mercado ilegal.
“Se não tiver transação, não tem aposta”, resumiu Daniele Costa, Marketing Manager da Pay4Fun Instituição de Pagamento, durante o seminário A Era do Diálogo Best Bets.
A frase dá a dimensão de uma das discussões que vêm ganhando espaço desde a regulamentação do setor no Brasil. Derrubar sites ilegais continua sendo parte do combate, mas não é suficiente para combater as plataformas que não têm autorização para funcionamento.
Pix, TED, boleto e outras transações financeiras deixam rastros. A questão é o que fazer com essas informações e como conectar operadores, instituições de pagamento, Banco Central e Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA).
Por outro lado, Carlos Renato Xavier, subsecretário de Monitoramento e Fiscalização da SPA, alerta: o mercado ilegal não pode servir de desculpa para os problemas que ainda existem entre os operadores autorizados.
“No mercado regular, não está tudo bem”
Nesse sentido, Carlos destacou a responsabilidade das empresas que decidiram operar dentro das regras. “Vocês têm compromisso com a atividade de vocês. O mercado ilegal vai existir em qualquer cenário, nós vamos batalhar para encerrá-lo, mas vocês precisam cumprir a norma”, enfatizou.
Para mostrar que a preocupação não é apenas teórica, Carlos contou sobre um relatório recebido recentemente pela Secretaria. Uma empresa havia excluído 181 clientes cadastrados no mesmo dia após identificar falsificação de documentos.
Em alguns casos, segundo ele, a pessoa submetida ao reconhecimento não correspondia ao documento apresentado. “Como entrou na plataforma? Como se cadastrou? Por que está sendo excluído? Alguma coisa está errada”, questionou. “No mercado regular, não está tudo bem.”
O caso coloca uma questão importante para um setor que ainda tenta estabelecer uma divisão clara entre quem opera legal e ilegalmente. Ter autorização é o começo dessa diferença, mas os controles adotados depois dela também contam.
O caminho do dinheiro
Na Pay4Fun, Daniele conta que o conhecimento acumulado sobre o comportamento dos apostadores ajuda a entender quando determinada movimentação foge do esperado.
Além do monitoramento das transações, ferramentas de screening permitem fazer uma segunda validação tanto das informações do usuário quanto da conta bancária utilizada.
Para ela, impedir que o dinheiro chegue a uma operação irregular é uma das maneiras mais efetivas de enfrentá-la. “Se a gente conseguir travar a transação, não tem como a transação daquele apostador seguir.”
A SPA também avança nessa direção. Carlos explicou que a regulamentação está caminhando para tornar mais clara a obrigação de comunicação sobre operações relacionadas ao mercado ilegal e permitir o bloqueio dos valores identificados.
Mas ele fez uma ressalva: rastreabilidade não significa solução automática.
“O Pix é rastreável, a TED também é, o boleto também é. Transação financeira é rastreável”, afirmou. “Agora, se o rastreio da transação financeira fosse a solução, o Brasil não tinha lavagem de dinheiro.”
Isso acontece porque o dinheiro pode passar por intermediários e empresas criadas justamente para dificultar a identificação de quem está por trás da operação.
“O dinheiro passa pela conta dela. Ele não fica lá. Então a gente vai bloquear ali, e ela vai abrir uma outra. O problema não está em encerrar pessoas jurídicas, em encerrar contas. O problema está em identificar que são ilegais e não permitir que isso aconteça.”
Quem está do outro lado do Pix?
A discussão também chegou aos parceiros escolhidos pelas próprias casas de apostas.
Daniele levantou uma pergunta simples para os operadores presentes no evento: quando uma instituição oferece condições muito abaixo das praticadas no mercado, quem está pagando essa conta?
“Eventualmente, o seu método de pagamento já oferece Pix a zero. Quem está pagando essa conta?” A preocupação é que uma mesma empresa de pagamento possa atender operadores legais e ilegais.
“É responsabilidade de todos que estão no mercado legal acompanhar e entender quem são os seus parceiros, qual é a origem deles, como atuam no mercado e se, de fato, vale a pena pagar zero”, explica.
Nem todo problema precisa de IA
Se o volume de transações é grande, identificar comportamentos suspeitos manualmente se torna praticamente impossível. É aí que entram os dados e a Inteligência Artificial.
Mas Rafael Rebelo, Chief Compliance Officer do Grupo H2, fez uma ressalva: o setor não precisa transformar IA em resposta automática para todos os problemas.
“Há uns dez anos tivemos o purpose washing, depois o ESG washing e agora estamos vivendo o IA washing. Estamos tentando colocar IA em tudo, em todos os discursos, para dar mais valor ao nosso trabalho”, afirmou.
Para ele, modelos sofisticados de IA generativa nem sempre são necessários. Técnicas mais tradicionais de análise de dados já podem produzir resultados relevantes.
Uma delas é a clusterização, que permite agrupar clientes com comportamentos semelhantes e identificar onde estão os maiores riscos dentro da base.
“É muito simples encontrar esses clusters a partir dos dados de pagamento”, explicou. Esses agrupamentos podem revelar movimentações fora do padrão e pontos da experiência do apostador que indiquem algum tipo de risco.
A recomendação para os operadores é quase o contrário da corrida atual por soluções cada vez mais complexas: começar pelo simples.
“Técnicas de clusterização no começo já funcionam muito bem. Vocês vão encontrar coisas na base, encontrar um modo de agir em cada um desses clusters.”
O dado pode proteger quem aposta
Monitorar transações não serve apenas para encontrar fraude ou dinheiro circulando pelo mercado ilegal. Os mesmos dados podem ajudar a identificar quem está apostando e de que maneira o comportamento dessa pessoa está mudando.
Esse é um dos pontos em que compliance e proteção ao consumidor se encontram. Rafael reconhece que o setor ainda enfrenta resistência da opinião pública e defendeu que as empresas tenham maturidade para olhar para as próprias vulnerabilidades.
“Nosso produto, muitas vezes, pende ao consumo de pessoas em situação de vulnerabilidade”, afirmou. “Que encontremos essas pessoas, que tratemos dessas pessoas e que consigamos fazer tudo isso com as técnicas mais simples possíveis em termos de dados e análise.”
Um setor que precisa aprender a compartilhar
Se cada empresa consegue identificar determinados padrões dentro da própria base, por que essas informações ficam isoladas?
Rafael defendeu que as bets aproveitem algo que o mercado financeiro já aprendeu a fazer e avancem na interoperabilidade. “Por que a gente não traz um pouco dessa vivência que já existe no mercado financeiro para cá?”
A ideia é criar formas mais rápidas e padronizadas para que informações relevantes possam circular entre os participantes envolvidos no combate às irregularidades.
A SPA também está trabalhando nesse sentido. Carlos antecipou que o órgão pretende conversar com o setor sobre a padronização das comunicações recebidas.
“Vamos chamar vocês para conversar para que as comunicações qualificadas tenham um padrão em que a gente consiga receber com facilidade, tratar e dar o encaminhamento.”
A quantidade de informação disponível já não parece ser o maior problema. O desafio é fazer com que ela chegue às pessoas certas, no formato certo e rápido o suficiente para impedir que o dinheiro continue circulando.
A reputação está em jogo
O mercado ilegal apareceu durante todo o debate como um inimigo comum de operadores, instituições de pagamento e reguladores. Mas o principal recado foi que a existência desse inimigo não pode servir como justificativa para minimizar os problemas de quem escolheu atuar dentro das regras.
O setor regulado ainda é novo, está construindo processos e ajustando mecanismos de controle. Alguns erros, porém, podem custar mais do que uma sanção administrativa. “A reputação não tem volta”, alertou Carlos.
Para ele, basta que uma casa autorizada apareça em uma investigação de grande repercussão para que o impacto ultrapasse aquela empresa e aumente a desconfiança sobre todo o mercado.
É por isso que rastrear o dinheiro é apenas uma parte da equação. O cerco às bets ilegais depende de tecnologia, bloqueios e fiscalização, mas também de saber quem é o cliente, conhecer quem está processando o pagamento e agir quando os dados mostram que alguma coisa está errada.





