Uma roupa, uma experiência, uma viagem: o que escolhemos consumir também pode expressar quem somos e nos aproximar de pessoas que pensam parecido. Mas, quando esses símbolos deixam de contar parte da nossa história e passam a definir quem somos, a busca por reconhecimento pode entrar no centro das escolhas.
Essa relação aparece na pesquisa de Andrea Eboli, fundadora da Academia do Poder, com mais de 400 profissionais brasileiros: 79% concordam que o reconhecimento social aumenta a sensação de poder. Para a pesquisadora, quando alguém não se sente poderoso por dentro, produtos podem comunicar sucesso, competência, beleza e pertencimento.
Ao investigar o poder consciente, Andrea Eboli constatou ainda que 83% concordam que é possível ter poder externo sem se sentir feliz ou realizado. Ainda assim, 66% têm o poder externo como ambição. Na entrevista à Consumidor Moderno, Andrea, escritora, pesquisadora, professora e executiva, fala sobre realização, validação, consumo e identidade. Acompanhe:

Consumidor Moderno: O que a pesquisa revela sobre a relação entre conquista, reconhecimento e sensação de realização?
Andrea Eboli: A pesquisa revela uma contradição importante do mundo moderno. As pessoas não se sentem donas do próprio poder e, por isso, buscam o próprio valor fora de si.
Na pesquisa que fizemos com mais de 400 profissionais brasileiros, só 17% se percebem como pessoas poderosas. E, apesar de 75% afirmarem que a sua força vem de dentro, 66% têm o poder externo como ambição.
O problema não é só falta de consciência. É a distância entre saber e viver. Quando peço que pensem em alguém poderoso, os nomes que surgem são de líderes políticos, bilionários, figuras públicas. Só 9% pensam em si mesmos.
Além disso, 83% concordam que é possível ter muito poder externo e, ainda assim, não se sentir feliz ou realizado na vida. Essa contradição entre pensar e sentir se mostra muito próxima da realidade quando vemos pessoas que passam a vida inteira nessa busca e, quando chegam lá, não se sentem plenas e satisfeitas, com o sentimento de dever cumprido.

CM: Como diferenciar uma ambição saudável de uma busca por validação externa que nunca parece suficiente?
Andrea: A ambição saudável está a serviço de quem você é. A busca por validação existe para provar quem você é. Querer crescer, ganhar bem e ter influência pode ser profundamente saudável. O sinal de alerta aparece quando essa conquista vira condição para a pessoa se sentir suficiente.
Três perguntas ajudam a separar uma da outra: “Se ninguém soubesse dessa conquista, ela continuaria importante para mim?”, “Que preço estou pagando por ela?” e “Quando ela não vier ou for embora, continuarei me sentindo com este poder?”.
Quando o valor depende do olhar do outro, a satisfação nunca chega, porque está fora do nosso controle. Cada conquista só inaugura a próxima prova. É esse ciclo de insatisfação permanente que está levando muita gente a se sentir exausta, insuficiente e a começar a repensar o que faz sentido na própria vida.
CM: De que maneira a necessidade de reconhecimento influencia nossas escolhas de consumo?
Andrea: De forma direta. Na minha pesquisa, 79% concordam que ter reconhecimento social aumenta a sensação de poder. Quando a pessoa não se sente poderosa por dentro, o produto passa a comunicar por ela: sucesso, competência, beleza, pertencimento.
Durante muito tempo, as empresas se beneficiaram disso. Venderam ícones de poder e de sucesso e construíram desejo em torno de uma vida que quase ninguém alcança.
Mas uma pergunta simples muda essa relação: “O que espero que essa compra faça por mim?”.
Se a resposta é conforto, prazer ou uma experiência, ótimo. Se é conseguir uma admiração que sinto faltar, a compra só está tentando preencher um lugar que deveria ser preenchido por dentro, e não por fora.
CM: Até que ponto marcas, produtos e experiências podem funcionar como símbolos de identidade e pertencimento?
Andrea: Eles funcionam como linguagem. Uma roupa, uma experiência ou uma viagem podem expressar quem somos e nos aproximar de quem pensa parecido. Está tudo bem com isso. O problema começa quando o símbolo deixa de expressar a identidade e passa a substituí-la. Aí, você se afasta de si e passa a pensar que perder a marca, o status ou o grupo é como perder a si mesmo.
Uma identidade com sustentação interna pode usar esses símbolos sem depender deles. Eles contam parte da nossa história. Mas não deveriam definir quem somos.
Trabalhei muitos anos com o mercado de consumo e vejo um movimento claro: as pessoas estão acordando para o fato de que comprar um papel social tem trazido a elas cada vez menos satisfação. A massificação tende a perder valor, e ganham espaço as marcas que reforçam o que há de autêntico e único em cada um.

Compra e valor pessoal
CM: O que acontece com o consumidor quando comprar, conquistar ou exibir deixa de ser uma escolha e passa a funcionar como confirmação do próprio valor?
Andrea: Ele entra num ciclo que não fecha. A compra traz um alívio momentâneo, mas o valor continua dependendo da reação dos outros. Então é preciso comprar de novo, conquistar de novo, mostrar de novo.
Esse ciclo cansa. Na pesquisa, 62% dos profissionais se sentem esgotados com frequência, e 58% sentem que algo essencial está faltando mesmo quando, por fora, está tudo certo.
E tem um achado revelador: entre os que se percebem poderosos, 69% adaptam quem são ao que esperam deles. Para muitos, sentir-se poderoso ainda é sentir-se aprovado.
É essa exaustão que está virando o jogo de consumo nos próximos anos. Quando a pessoa percebe que entregou a um produto ou a uma audiência o direito de dizer quanto ela vale, começa a tomar consciência, tenta pegar esse valor de volta e passa a escolher de outro jeito.
CM: Como empresas e marcas podem estimular desejo e aspiração sem explorar inseguranças, comparação social ou necessidade de validação?
Andrea: Trocando o marketing do inatingível pelo marketing da satisfação real. Menos ícones de poder, mais pessoas reais. Menos promessa do que a pessoa vai parecer, mais valor para o que ela é.
Na prática, isso significa mostrar pessoas com quem o consumidor se identifica, prometer na medida do que se entrega e convidar a pessoa a consumir pensando nela, e não num papel que ela precisa representar. O desejo pode nascer de uma possibilidade interessante, sem começar por uma ferida na autoestima.
Identidade na era digital
CM: Em uma sociedade cada vez mais mediada por redes sociais, inteligência artificial e exposição permanente, como preservar uma identidade que não dependa exclusivamente daquilo que fazemos, temos ou mostramos?
Andrea: Fortalecendo três dimensões, que são a base do meu método, a Estrutura Consciente de Poder: Identidade, Contexto e Movimento.
Identidade é saber o que importa para você, para além dos papéis que desempenha. Contexto é perceber de onde vêm as referências que aparecem na sua tela todos os dias e a quem elas servem. Com a Inteligência Artificial, isso inclui também preservar o próprio pensamento diante de respostas prontas.
E Movimento é transformar isso em escolhas: o que compartilhar, o que comprar, o que realmente vai te trazer satisfação por si só. Quanto mais as pessoas se fortalecem por dentro, menos elas precisam de símbolos para provar quem são. As marcas que entenderem isso não vão perder consumidores. Vão ganhar pessoas que escolhem com consciência, e que por isso escolhem com mais lealdade. É um jogo em que todo mundo ganha.





