Durante muito tempo, a entrada na vida adulta foi associada a marcos relativamente claros: sair da casa dos pais, conquistar independência financeira, construir uma família ou estabelecer uma carreira. Para a Geração Z, essa passagem parece obedecer a outra lógica. Mais do que cumprir etapas tradicionais, tornar-se adulto está relacionado à capacidade de assumir responsabilidades, tomar decisões e sustentar a própria rotina.
É o que mostra uma pesquisa do Observatório de Novas Gerações, da Trope-se, consultoria de novas gerações que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócios. Para 81%, as responsabilidades financeiras estão entre as situações que mais produzem a sensação de adultidade. Resolver problemas sozinho aparece em seguida, com 73%, praticamente empatado com tomar decisões importantes sem depender de ninguém, citado por 70%. Sustentar parte ou toda a própria rotina também tem peso significativo, com 66%. Sair da casa dos pais, por outro lado, aparece bem atrás, com 36%.
O que me chama a atenção é a maneira como essa geração parece deslocar a ideia de vida adulta de uma conquista social para uma experiência cotidiana. Ser adulto não depende necessariamente de morar sozinho ou alcançar determinada posição profissional, mas de conseguir responder pelas próprias escolhas e pelas despesas que elas envolvem. A autonomia passa a ser menos um marco definitivo e mais uma responsabilidade que precisa ser exercida todos os dias.
Essa percepção ajuda a explicar por que o trabalho ocupa uma posição tão central nessa fase da vida. Quando perguntados em quais áreas já reconhecem atitudes adultas em si mesmos, 66% apontam trabalho e carreira, à frente de relacionamentos afetivos (48%), responsabilidade emocional (47%) e dinheiro e consumo (43%). É no ambiente profissional que essa geração mais reconhece sinais de maturidade, antes mesmo de se sentir plenamente adulta em outras dimensões.
No entanto, existe uma contradição importante nesse resultado. Embora o trabalho seja a área em que a juventude mais se percebem adultos, também é uma das que mais aparecem entre aquelas em que ainda estão aprendendo a lidar com as responsabilidades. Para 54%, carreira e decisões profissionais continuam em construção, percentual superado apenas pelo planejamento financeiro, citado por 72%. O equilíbrio entre trabalho e lazer também permanece como uma questão para 47%.
Isso sugere que a maturidade profissional não significa necessariamente segurança sobre o próprio futuro. A Geração Z pode já estar trabalhando, tomando decisões e assumindo responsabilidades sem sentir que domina os caminhos necessários para construir uma carreira. Em um cenário de mudanças nas profissões, nas tecnologias e nas expectativas sobre o trabalho, a sensação de estar em formação pode persistir mesmo quando a vida adulta já começou há algum tempo.
A questão fica ainda mais interessante quando observamos de onde vem a pressão para dar conta de tudo. A pesquisa mostra que 74% identificam em si mesmos a principal origem dessa cobrança. A sociedade em geral aparece em segundo lugar, com 59%, seguida pela família, com 49%. O mercado de trabalho é citado por 34%, atrás inclusive das redes sociais.
Não me parece correto interpretar esse resultado como ausência de pressão externa. A sociedade, a família e o ambiente digital continuam participando da construção das expectativas profissionais. O dado aponta, porém, para outro aspecto: boa parte dessa cobrança parece ter sido incorporada pela própria GenZ. Mesmo quando as expectativas são produzidas socialmente, é o indivíduo que sente que precisa corresponder a elas e encontrar maneiras de demonstrar que está avançando.
Essa internalização ajuda a entender por que dinheiro e carreira aparecem tão fortemente nas comparações entre pessoas da mesma idade. Quando questionados sobre os aspectos que mais despertam esse comportamento, 73% mencionam dinheiro e padrão de vida, enquanto 68% apontam carreira e trabalho. Aparência aparece com 47% e a vida social, com 38%. Apenas 7% afirmam não se comparar com outras pessoas.
O trabalho não representa somente uma fonte de renda ou um espaço de desenvolvimento pessoal. Ele também funciona como uma medida de progresso. O cargo conquistado, a remuneração recebida e a velocidade com que alguém parece avançar profissionalmente podem se transformar em referências para avaliar a própria trajetória. Quando esses sinais são observados continuamente na vida de outras pessoas, a comparação tende a tornar mais difícil reconhecer os avanços que não seguem o mesmo ritmo.
A carreira como medida de sucesso e a dificuldade de descansar
Essa relação com o trabalho também aparece na maneira como organizam a rotina. Entre os aplicativos associados às necessidades da vida adulta, os de trabalho ou geração de renda são citados por 35%, acima dos aplicativos de organização financeira (20%) e de saúde e bem-estar (18%). No conjunto de aplicativos mais presentes no cotidiano, entretenimento e streaming lideram, com 61%.
Os números mostram que o trabalho já ocupa um espaço concreto na organização da vida dessa geração, mas não confirmam, por si só, que os jovens estejam transformando todos os seus interesses em atividades produtivas. Apesar da expansão da creator economy e do discurso sobre a possibilidade de monetizar a própria presença digital, apenas 8% associam o uso das redes sociais a trabalho ou renda. O entretenimento, citado por 43%, e a passagem do tempo, com 25%, continuam sendo os usos predominantes.
Essa diferença importa porque as redes sociais podem influenciar a vida profissional mesmo quando não são usadas diretamente para gerar renda. Para a Geração Z, elas também funcionam como vitrine de competências, porta de entrada para oportunidades e espaço de construção da própria imagem. O que cada pessoa publica, as experiências que compartilha e a maneira como apresenta suas conquistas podem influenciar tanto a percepção que os outros têm dela quanto a forma como avalia a própria trajetória. Assim, mesmo sem transformar o perfil em uma fonte de renda, a juventude está inserida em um ambiente no qual sua imagem e seu posicionamento podem interferir na maneira como é percebido pessoal e profissionalmente.
Há ainda outra dimensão dessa relação com a carreira: o tempo disponível para aproveitar a vida fora dela. Quando perguntados sobre viagens e experiências, 43% dizem viajar pouco por falta de tempo ou dinheiro. Apenas 5% apontam a viagem como uma recompensa pelo trabalho, a menor proporção entre as respostas apresentadas pela pesquisa.
Esse resultado sugere que a lógica de trabalhar intensamente agora para aproveitar a vida depois não descreve, sozinha, a experiência dessa geração. Para muitos da Geração Z, o obstáculo não parece ser a falta de vontade de viajar ou viver novas experiências, mas a dificuldade de conciliar esses planos com as condições financeiras e a disponibilidade de tempo. O descanso e o lazer precisam disputar espaço com as exigências de uma vida adulta que ainda está sendo construída.
Para as empresas, compreender essa dinâmica exige olhar para além das expectativas sobre produtividade e ambição profissional. Uma geração que associa o trabalho à autonomia, à maturidade e ao próprio progresso pode demonstrar comprometimento com a carreira e, ao mesmo tempo, sentir insegurança diante das decisões que precisa tomar. Reconhecer essa combinação é importante para pensar desenvolvimento profissional, liderança, e remuneração que não transformem toda a trajetória em uma corrida permanente.
Os dados revelam uma mudança importante na forma como a GenZ experimenta a vida adulta, já que o trabalho ocupa um lugar central na maneira como essa geração reconhece a própria maturidade e avalia seu progresso. Mas essa percepção também é influenciada pelas referências que encontra diariamente nas redes sociais.
Antes, a comparação tendia a se concentrar nas pessoas do convívio, como amigos, familiares, colegas de trabalho e vizinhos. Com as redes, o campo de referência se expandiu: o feed reúne conquistas profissionais, padrões de vida, viagens e experiências de pessoas do mundo inteiro, muitas vezes apresentadas de forma selecionada e idealizada. Um dado que ajuda a dimensionar esse efeito, é o de que a sensação de estar atrasado em relação à própria vida ultrapassa 50% em todas as faixas etárias pesquisadas.
Nesse cenário, a necessidade de performar sucesso ganha força e a lógica algorítmica amplia a exposição a determinados estilos de vida e modelos de realização, que passam a funcionar como referências de progresso. Para entender a relação da juventude com o trabalho, é preciso considerar que a insegurança profissional não está apenas nas incertezas sobre o futuro, mas também na sensação constante de que alguém está conquistando mais ou chegando antes. Quando o sucesso se torna uma vitrine permanente, reconhecer o próprio ritmo sem interpretá-lo como sinal de atraso também passa a ser um desafio.

Luiz Menezes é fundador da Trope-se, consultoria de Geração Z que ajuda marcas a rejuvenescerem suas estratégias de negócio. Luiz é nativo digital, creator, apresentador, empresário e empreendedor.





