- A Riachuelo criou a ferramenta WFM Hub, que serve para antecipar picos de movimento e distribuir as equipes de acordo com eles.
- O sistema já está implantado em todas as lojas e tem potencial de gerar entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões em economia.
- A empresa já tinha projetos de IA em frentes como precificação, abastecimento e atendimento
Em dezembro, o varejo começa a trocar a escala 6×1 pela 5×2 e terá de refazer a conta de quem trabalha, quando e onde. Na Riachuelo, parte dessa conta já roda numa ferramenta criada por um profissional de planejamento de operações, sem passar pelas mãos de engenheiros. Ela saiu do Builders, programa que ensina funcionários de diferentes áreas a construir suas próprias soluções de Inteligência Artificial e que, em três meses, reuniu 30 projetos.
O calendário não ajuda o varejo. A escala 6×1 acabou no papel em outubro, quando a Emenda Constitucional nº 141 foi publicada no Diário Oficial da União, e as novas regras passam a valer em 16 de dezembro de 2026, reduzindo a jornada semanal de 44 para 42 horas. Ou seja, a mudança chega às lojas de moda na semana mais disputada do ano, a do Natal. Quem abre as portas sete dias por semana terá de cobrir os mesmos horários com outra combinação de folgas, e o cliente não vai querer que essa experiência em loja seja ruim.
Na Riachuelo, a companhia já se adiantou e buscou auxílio dentro de casa. Chama-se WFM Hub (a sigla vem de workforce management, ou gestão da força de trabalho) e serve para antecipar picos de movimento e distribuir as equipes de acordo com eles. Segundo a empresa, o sistema já está implantado em todas as lojas e tem potencial de gerar entre R$ 20 milhões e R$ 25 milhões em economia. E quem desenvolveu a solução foi um profissional da área de Planejamento de Operações, não um programador.
Na Riachuelo, quem conhece o problema cria a solução
O WFM Hub é um dos frutos do Builders, aceleradora interna que a Riachuelo criou para ensinar funcionários de diferentes departamentos, muitos deles sem formação técnica, a construir aplicações de IA a partir de problemas reais do dia a dia. Os participantes aprendem a usar ferramentas no-code, que permitem montar sistemas sem escrever uma linha de programação, e o chamado vibe coding, em que a pessoa descreve em linguagem comum o que precisa e a IA escreve o código.
A empresa não começou do zero. Já tinha projetos de IA em frentes como precificação, abastecimento e atendimento. Com a popularização da IA generativa em 2025, a tecnologia passou a fazer parte do trabalho individual de muita gente. O passo seguinte foi tirar esse uso da esfera pessoal e aplicá-lo a processos inteiros. Em 90 dias, o programa juntou 30 projetos; 20 deles já estão em fase de piloto e devem ganhar escala nas próximas semanas.
Para Ney Santos, VP de Tecnologia e Inovação da Riachuelo, isso muda o papel da própria área que ele comanda. “A velocidade que o negócio precisa exige uma nova forma de trabalhar com tecnologia. O papel de Tech não é centralizar a construção de todas as soluções, mas atuar como curador, garantindo arquitetura, integração e segurança para que as áreas possam inovar com mais autonomia e velocidade”, afirma.

Do feedback ao crédito
Os outros casos mostram até onde o modelo vai. No RH, uma solução automatiza feedbacks e indicadores de desempenho dos cerca de 33 mil funcionários da varejista, com potencial de devolver 3.600 horas de trabalho às lideranças. Na área financeira, um sistema analisa aproximadamente 3 mil propostas de crédito por dia, cruza informações para identificar riscos e pode evitar perdas de R$ 6 milhões. Há ainda projetos dedicados a entender a conversão no e-commerce e a transformar indicadores financeiros em planos de ação.
Somados, os projetos dão à companhia uma estimativa de retorno de R$ 16 para cada R$ 1 investido. Vale registrar que a conta é da própria Riachuelo e considera o potencial das soluções, não resultados consolidados. A meta é chegar a 4 mil funcionários treinados em IA até o fim do ano.
A hora que passa a valer mais
O fim da 6×1 é, antes de tudo, uma mudança na vida de quem trabalha. Mas ele também altera a aritmética de quem administra. Depois da primeira etapa, a redução final leva a jornada para 40 horas semanais, 14 meses após a promulgação. Com menos horas disponíveis por pessoa, cada turno mal planejado custa mais, seja em hora extra, seja em loja vazia de vendedor no momento em que o cliente entra.
É nesse ponto que o WFM Hub e o projeto do RH se encontram. Um organiza melhor as horas da equipe de loja. O outro tira das lideranças uma parte do trabalho burocrático. A lei reduz o tempo de trabalho, e a ferramenta tenta fazer com que o tempo que sobra seja gasto no que importa. Ney Santos resume essa ligação:
“Em um cenário de transformação das jornadas de trabalho, ferramentas como essa ganham relevância ao apoiar a produtividade e a organização das operações. No RH, a tecnologia também contribui para simplificar processos e liberar tempo para o que mais importa: o desenvolvimento das pessoas.”
O exemplo da Riachuelo ajuda a entender que 2027 será o ano em que o varejo brasileiro terá de mostrar que consegue atender bem diante de novos desafios. Nenhuma tecnologia resolve isso sozinho. O WFM Hub funciona porque quem alinhou experiência humana, tecnologia e gestão. A IA apenas deu forma a um conhecimento que já estava dentro da empresa e passou a garantir que o que nasce em outros departamentos seja seguro e converse com o resto da operação.
É dessa combinação, mais do que de qualquer tecnologia, ou de horas, que o varejo vai depender nos próximos anos.





